Archive for October, 2006

Sobre os Portugueses de P grande…

O Aspirina inicia actividade em periodo insonso no que á cultura nacional diz respeito.

Não é coisa propositada. Há cerca de duas semanas a RTP resolveu agitar as hostes com o lançamento do concurso sobre o maior Português de sempre. Reajo com surpresa: “Sempre não é tempo a mais?”. Dizem que não, e apoiada reflexão confirma o boato.

Busca rápida pela história (no sentido lato do termo) encontra pouca gente que tenha feito a diferença e para desgraça de todos nós, a maioria está toda morta e enterrada, o que se percebe pois aqui e no mundo é quase sempre assim.

Vejo o resultado da eleição em Inglaterra, França e Alemanha e em qualquer um dos casos o vencedor não se encontrava disponível para opinar sobre a conquista, e porquê? Porque o que une Churchill, de Gaulle e Adenauer, para além das acções distintas no intervalo de tempo que antecedeu, durou e seguiu a segunda guerra é o facto de se encontrarem todos falecidos.

Por cá o evento é importante pelo despertar das sensibilidades, ouvem-se as vozes que discordam da eligiblidade de desportistas (na Holanda Eddie Mercx foi 3º na votação) e mais perigoso, ouvem-se alguns preocupantes silêncios quanto a figuras já distantes da história recente. Discordo. A hipótese de se ter um barómetro nada viciado sobre a posição cultural dos portugueses em relação á sua história e ás suas gentes perdeu-se com a não inclusão de Salazar na primeira lista de sugestões, mas por outro lado talvez se venha a ganhar algo com isso. Duvido que a publicidade a que teve direito impeça que o homem  figure nos 10 finais que terão direito a documentário de uma hora produzido pela estação pública. E por isso pulo de alegria. Já estou farto de ter de andar pelo canal história para ver se encontro testemunhos documentados e ilustrados sobre a pessoa. A ver vamos se a oportunidade de usar o arquivo para proveito sensato das consciências é para aproveitar.

Children of Men – Filhos do Homem

 

História caóticamente repetida encontra em Children of Men dois ingredientes fundamentais para que, apesar da exaustão do tema, resulte. Primeiro porque é um filme que não cheira a Hollywood, apesar do futurismo, dá espaço ao curto intervalo de tempo em que a acção se desenrola relativamente áquele em que o filme é produzido. Depois Clive Owen convence, há maturidade e expressão num actor que se vai desconectando a elencos recheados (Closer, SinCity, Inside Man) numa carreira que progride de forma impecável.

A história é a de sempre: Fim da humanidade como se (re)conhece, problema global de infertilidade feminina (duvido, acredito mais em problema crónico na região hidraulica masculina) e eis que se encontra um exemplar em plena gestação. Pelo meio Theo (Clive Owen) vai exorcizando alguns dos seus demónios e luta pelo propósito básico de defesa animal: garantir a sua própria existência.

Nota atribuída em www.rottentomatoes.com = 80% Muito Satisfatória 

Casa da Música – Basel Kammerorchester

 

5 de NOVEMBRO – CASA DA MÚSICA -18:00 Sala SUGGIA 

Com apenas 23 anos de idade, Julia Fischer é das mais premiadas violinistas da actualidade. Christopher Hogwood é dos poucos maestros que combina o repertório barroco e clássico com o repertório do século XX como domínios da sua especialidade. Com a Orquestra de Câmara de Basileia, que já se apresentou na Casa da Música sob a direcção de Paul McCreesh na temporada de 2005, os dois músicos combinam um programa onde a música de Prokofiev faz claras alusões à música Barroca e a música de Haydn exemplifica uma das mais arrojadas criações do período Clássico.

J. Rodrigues dos Santos – A fórmula de Deus

Não sou admirador desta nova vaga literária que procura fundamentação imaginativa sobre factos fácilmente sensíveis. A coisa sempre me pareceu falsa, quanto mais não seja porque rápidamente se transforma em fast-food devorável.

No entanto fica o beneficio da dúvida a José Rodrigues dos Santos, que conquista depois do empolgante Códex 632 e o facto de não ser um livro de temática religiosa.

É quanto muito teológico, o que já por sí é suficientemente perigoso.

A. Lobo Antunes – Ontem não te vi em Babilónia

 

Porque nestas coisas da escrita pesam sempre as palavras de autor, fica a nota de publicação sobre a nova obra de Lobo Antunes.

"Uma noite ninguém dorme, e durante a meia-noite a as cinco da manhã, as pessoas sonham acordadas no sono: contam e inventam as suas vidas e as suas histórias, ou as histórias em que transformam as suas vidas, ou as vidas que transformaram em histórias. Podem ser vidas cruéis, de medo, de uma cicatriz interior, de algo que talvez fosse o Estado português de outros tempos. Podem ser vidas de amores passados, de lápides varridas, de um desejo de uma vida inteira, de se poder ser feliz sem pensar. Nestas histórias, nestes silêncios destas falas, nos risos e nas traições, vamos identificando a noite de um país, a noite cheia de vozes de todos nós, e a noite silenciosa que é o isolamento de cada um. Como diz o autor – 'porque aquilo que escrevo poder ler-se no escuro'  "

The Gift – Fácil de Entender

 

Um disco ao vivo em formato distinto.

Na mesma sala, dois concertos, em duas noites, interagem com a audiência através da música e do espaço. Na primeira noite, a música e a sala encontram-se arrumadas e sóbrias. Na segunda noite a outra experiência, a desforra consentida por toda aquela envolvência, o som é cru e o ambiente é vivo.

Dr. Jeckyl & M. Hyde consomem e entendem-se. É fácil de entender…

André Sardet – Acústico

 

Declaração curiosa decentemente exposta em televisão, confronta André Sardet com uma evidência: a de que compõe pouco.

A carga zen que veste “Acústico” obriga a reconhecer a coisa como facto. Dezasseis temas transportam-nos por uma carreira de elegância e classe e exigem mais ao autor. Uma viagem que tem tanto de musical como de poética, e que se faz valer de tudo isso. Nota para o dueto com Luis Represas em “Se eu disser”. Notável.