
Confesso que a critica disparada em torno de Borat me deixou algo perplexo.
O filme tira partido dos pudores americanos? Tira sem dúvida, e só por isso merece o destaque. Mas Borat não se limita a retratar de forma sacana a matreira sociedade norte-americana.
No entanto, filmes assim, contam recentemente com sucessivos ataques desferidos pela crítica que por cá se faz. Uma critica abrupta e autista, que surge quase em manada, uma espécie de união no trato dos temas que nos permite constatar que em Portugal, existe a opinião de quem critica, e a opinião dos outros, dos que pagam e assistem, aqueles que no fundo vão mantendo o cinema vivo.
Depois o outro problema, quando o filme é uma comédia.
Vivemos num país que teima, há já alguns anos, em não conseguir rir de si mesmo (ainda que, na minha opinião, motivos não faltem para o fazer). Desde a extinção da Herman Enciclopédia que se criou uma espécie de vazio no que ao retrato do país, no sentido cómico do tema, diz respeito. A enciclopédia do Herman conseguiu numa época importante, criar alguns dos mais memoráveis sketch’s de que tenho memória, do inesquecível “Pai Natal ou Menino Jesus, O Juiz Decide” aos episódios do grupo de nortenhos que tentava a todo o custo fazer uma “Expo 97”. Hoje rimo-nos de nós quando assistimos ao Gato Fedorento, que faz humor diferente, não é actual, é um humor linguístico, o que é bem diferente. Temos a Revolta dos Pasteis de Nata, que digo eu, jamais passará na RTP1 em horário nobre, o país não tem lata, o estado não tem interesse.
Este marasmo na falta de ambição dos nossos humoristas levou a um vazio no que à comédia diz respeito, o Filme da Treta foi um falhanço, e só quando a realidade do país é levada a cabo sobre um ponto de vista com… “maminhas” a coisa resulta, como no Crime do padre Amaro. Vício instalados e eis que chega Borat.
Borat é um filme agudo, fere as susceptibilidades e não percebo o que fazia um miúdo de 10 anos ao meu lado na sala, é um filme para adultos, é um filme com linguagem adulta, por vezes pornográfica. É eventualmente o maior exemplo de humor físico da última década, Borat é desajeitado, é provinciano e recto. É de mau gosto e é assim que resulta.
Borat expõe o falso moralismo dos Estados Unidos, demonstra, no seu provincianismo, o provincianismo daquela que é supostamente a melhor democracia do mundo, mas que foge a sete pés de um tipo que queira dar dois beijos na cara de um homem e que se ofende com o machismo do gajo que vem de outro país, tratando-o como se ele viesse de outro planeta.
Borat não vinga por entre a nossa critica porque é real, porque no trato com a sociedade expõe resultados objectivamente factuais, aquelas pessoas reagiram assim, responderam daquela forma e com aquela autenticidade, porque estão montadas naquele tripé político, que nos é mentirosamente oferecido por Hollywood.
E Hollywood recebeu o filme com agrado por isso mesmo, porque apesar de se publicitarem como bem entendem, aceitam o outro lado do espelho, aquele que Borat oferece, com aquela ternura tosca, sexual e mal-educada, porque ali a má educação é julgada por nós, na dimensão cultural do homem que passa o filme a atirar “Hai Faive” a toda a gente.
Não será assim o Cazaquistão, ao longo daquela hora e meia, dizemos nós, Porque não?
No dia da estreia havia uma sala cheia, se depender do que forem lendo, o mais certo é a maior parte do público-alvo ficar à espera do Blockbuster, ou pior, do Divx.
E é esse o maior contributo que a nossa critica oferece ao cinema. Palmas para eles.
















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