Alcântara é uma frente de cidade suja.
Há naquelas ruelas, nos passeios sujos, nos outdoors cansados e nas pessoas que correm por ali, uma espécie de desprezo crónico que se nota e percebe. Ali como em tantos outros sítios da cidade. Sobretudo nas áreas ribeirinhas, onde os olhos se abrem em contemplação da outra margem, e onde a vista não é famosa. Lisnave, Petroquímica cancros de um Tejo moribundo, entalado entre duas cidades que o não respeitam (que inveja sentirá do Douro?).
Curiosa a forma como à medida em que nos aproximamos de Oeiras, de Cascais, o desenho se vai tornando limpo, como se de Alcântara a Caxias a distancia fosse pouco menor da que separa Paris e Budapeste.
E em Alcântara é assim, prestigio nenhum, registo permanente de um saudosismo teimoso de tempos outros onde tudo aquilo fazia sentido e que a vida moderna marginaliza hoje.
O plano Alcântara XXI tem como fundamento a requalificação daquela baixa da cidade de Lisboa e, para lá da selectividade das intervenções e do populismo dos nomes, constitui investimento fundamental enquanto prestigio de uma frente visitada anualmente por milhares de turistas que de passagem em cruzeiros a períodos de férias em Portugal, por ali param, com opiniões feitas acerca do lugar que dificilmente deverão fugir a colagens fáceis a imagens conhecidas de países terceiro mundistas.
De entre as propostas, um projecto se tornou alvo de uma espécie de ódio de estimação crónico que data da intervenção no Chiado, que de alguma forma, pelo regionalismo pouco inteligente dos portugueses, se insiste em reviver quando em Lisboa intervém Álvaro Siza.
Três torres com três plantas diferentes e três diferentes implantações no terreno, emergiam de baixo para cima até espreitarem pouco acima do tabuleiro rodoviário da ponte 25 de Abril, uma estabilização simples e ponderada que mantinha o respeito de não violentar rio com a sua presença, antes, se recolhia por entre a primeira frente desenhada pela avenida da índia e o acesso à ponte que acontece pouco mais acima. As torres do Siza não faziam fronteira nem limite, constituíam uma referência pouco referenciada, pois a escala do lugar é ali dada pela ponte, que já lá está, lá no alto, precisamente a orientar a escala do lugar.


A recusa em aceitar a introdução de uma construção com escala vertical na cidade de Lisboa não se prende com qualquer fobia modernaça. Afinal, está escrito na história da nossa arquitectura que sempre se recusou a construção em altura, fosse por falta de fundos como nos tempos do Românico e do Gótico, seja por fundos em falta, como nos tempos de hoje (e de amanhã, e do dia depois de amanhã), mas no caso especifico a recusa residiu, acima de todas as outras motivações, na polémica do nome, que nem precisa procurar polémica para a gerar, como acontece de resto com a maior parte dos génios que praticam as respectivas profissões com princípios que se baseiam na excelência da execução.
Entre opiniões politicas e outras teimosias típicas, o projecto ficou na gaveta e verá nascer, ao que tudo indica, a grandiosa torre de Norman Foster em Santos.
Mas aí percebo. Ao lado está o famigerado edifício do IADE, a autoria é de Tomás Taveira, a apagar o mais rapidamente possível.

















3 responses so far ↓
1 Carlos João // Jan 3, 2007 at 9:52 pm
A verticalidade nunca foi - atrevo-me a dizer, nunca será - uma qualidade inquestionável do povo português. Lamento que o triste fado económico sirva de subterfúgio para repudiar tudo o que seja estratégia para romper com o passado….
Que a escoliose se apodere de nós para fixarmos - literalmente - os olhos no chão.
2 MANUEL // Aug 27, 2007 at 4:17 pm
Con la excusa de la “recalificación” de terrenos para rescatarlos de una supuesta “degradación”, en España se han hecho cosas horribles..ninguna ciudad es ya nem parescida a aquela que foi há só trinta anos. Agora que entrei nesta web e vi a fotografía dos 3 aranhacéus na Alcantara, fiquei mesmo apavorado… por favor, nao deixem que uma das cidades mais bonitas do mundo começe a destruir a súa imágem. Ja foi suficiente com as torres Amoreiras.
Lisboa sem interesses inmobiliarios.
3 Luis Rodrigues // Jan 5, 2008 at 12:25 am
Alcântara é uma zona de Lisboa onde ainda existe relacionamento entre a vizinhança, é um BAIRRO. Não é simplesmente um local onde um grupo de pessoas depois de um dia de trabalho vai dormir, um condomínio, onde os condóminos, ficam parados na entrada do edifício, á espera que o vizinho que entrou na frente na portaria, entre no elevador para não ter que lhe dirigir algumas palavras, nem que sejam sobre o estado do tempo.
Por acaso, já verificaram se a população de Alcântara está de acordo com a construção de dois “monólitos” saídos do filme 2001 Odisseia no Espaço. Os que vivem em Alcântara, vibram, quando o seu clube de bairro ganha, quando a sua marcha desfila na Avenida e choram quando algo de mal lhes conte-se.
Estes edifícios representam o ego dos seus construtores, não as aspirações de uma população de Lisboa que se orgulha de viver em Alcântara..
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