Aspirina Light

Samuel, o miúdo… - Pratica(mente)

January 10th, 2007 · 4 Comments

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Dificilmente se faz arte sem rótulos.

Arrisco em dizer que uma arte difícil de catalogar não sobrevive assim por muito tempo. Órfã.

Para a catalogação contribui em muito a disposição e, ou, a postura do artista relativamente ao produto, e em última instância, a postura do mesmo no contexto do movimento em que se insere (ou, como muitas vezes acontece, no contexto em que os outros o inserem).

Sempre assim foi, a história de resto, encarrega-se de consagrar este princípio. De Van Gogh a Beuys, o reconhecimento do artista enquanto valor intelectual sobre um determinado assunto demora a acontecer, mais do que isso, demora a conhecer. Para isso contribuem os estereótipos boémios, vadios e duvidosos nos quais se vão encaixando as novidades enquanto isso mesmo: novidades. E no domínio da arte, a assimilação de uma nova vertente ou dimensão acontece geralmente décadas depois do seu início.

Relativamente aos movimentos rap e hip-hop, e no que a Portugal diz respeito, da postura popular quase vândala em relação ao género no início dos anos 90 foi um verdadeiro salto até à simpatia da juventude pelo estilo, e como estilo considere-se música, roupa e postura (graffiti e dança incluídos). A arte suburbana tornou-se mainstream junto dos jovens e consensual entre os graúdos, em toda a largura de banda das nossas classes sociais.

Sam The Kid é um dos veículos de divulgação de género, é genuíno pela origem suburbana da sua música e é verdadeiro na postura. Reside no entanto a desconfiança, e o olhar de esguelha relativamente à justiça na aplicação do termo “arte”.

Ao terceiro álbum a resposta, pura, aos ainda relutantes. Para lá da polémica do single “Poetas de Karaoke” (um dos menos felizes) existe uma peça musical que é notável.

Não é só música, é poesia. E é poesia, tudo o resto é preconceito.

Para ouvir: Slides (retratos da cidade branca), brilhante…

Tags: Música

4 responses so far ↓

  • 1 indigente // Jan 10, 2007 at 10:23 pm

    devo desde ja dizer que nao gosto nada do senhor, por isso este comentario é completamente parcial…

    mas dificilmente consigo definir hip hop como “arte”, pois não sei o que é arte, ou definir o trabalho deste senhor como um objecto artístico

    ainda pior, consigo identifica-lo como artista (produtor de objectos artisticos)

    a musica foi sem duvida das artes mais tresmalhadas dos processos criativos das outras formas de expressão, quando se associa á formula artista o caracter €€ juntamente com a dimensão popular da sua expressão, obtem-se um produto de massas geralmente de baixa qualidade pois tem que agradar a muitas bocas

    se que nem tudo é assim, mas tambem ha diferença entre musica que se ouve em galerias, salas de espectaculo, discotecas, etc,

    pode parecer um mero embirranço mas a verdade é a maior ou mesmo a maioria da musica que se consome entra na categoria de má, em termos artísticos

    arrepia-me que fales de van gogh ou de beuys, reconhecidos ou não eles estavam na vanguarda da produção artistica juntamente com a originalidade dos seus objectos artísticos que permitiu estabelecer um diálogo entre o antes e o depois, a arte nao foi a mesma depois deles porque trouxeram algo de novo e questionaram coisas velhas

    para mim o sam é apenas mais um, pode ter a sorte e o mérito de fazer coisas bonitas ou pelo menos agradáveis, para alem de todo o apoio mediático que teve neste album, agora o que conheço do seu trabalho é apenas isso, limpinho, bonitinho e pronto

    poesia? talvez, acho que não, são musicas não recitações, se fosse publicado um livro com as letras tinha outro mérito? provavelmente. mas o meio de espressão é ideomático, chama-se hip hop, seja hip hop o que for

    já mão morta produzem letras maravilhosas e musicas dignas de nome ao conseguirem um casamento muito feliz entre palavra e som, mas é outra estética, outro estilo

    quando damos um ideoma a musica que fazemos estamos a meter um rótulo definir as nossas margens e as nossas armas de expressão, estas margens pode ser mais ou menos amplas, mas existem sempre

    e pronto… desculpa la… se calhar ainda aproveito isto para um post… ;)

  • 2 Ivo Sales Costa // Jan 11, 2007 at 2:54 am

    Pois desafio-te para o escreveres!! :P
    Ouviste o ficheiro? eu acredito que o que ali está demonstra qualquer coisa… há ali qualquer coisa (a opinião é subjectiva, vale o que vale atenção).
    Sei que usar Van Gogh ou Joseph Beuys como exemplos é chocante, o objectivo passa por aí… o mérito nas suas intervenções é o de terem sido, na minha opinião, dois dinamos poderosos no panorama artistico moderno (Depois Warhol, depois Hurst…) mas que pela extensão da sua genialidade, por se encontrarem tão para lá do seu tempo, tornaram dificil a compreensão…
    É puxado, acredito que sim, acredito que vos posso convencer da dimensão artistica da coisa.
    De notar também que foi um exemplo escolhido a dedo, não foi uma hand-pick aleatória neste panorama hip-hop que se conhece hoje em dia.

  • 3 LaBig // Nov 19, 2007 at 11:56 am

    Respondendo ao Sr Indigente, tenho pena de não ter lido o seu comentário mais cedo…
    Entre muitas outras coisas que poderia dizer, digo apenas que, pelo que li, a conclusão que tirei foi que o Sr Indigente apenas sabe reconhecer como arte aquilo que lhe agrada fazendo dele um mau crítico (embora cada um tenha a sua opinião e respeito isso) pois não podemos criticar o que não conhecemos da mesma forma que só se ama o que se conhece.
    Gostaria que conhecesses melhor o trabalho do Samuel e depois gostaria de te ouvir falar de novo para saber se conseguiste descobrir o que nele é original e diferente para se ter destacado de tal forma. O trabalho do Sam não começa neste último albúm (Pratica(mente)) existem mais trabalhos antes desse.

    “Nunca tive emprego mas trabalho todos os dias
    Se soubesses os meios que utilizo aplaudias
    Sam The Kid de Chelas, o estilo já conheces
    As rimas são daquelas que nunca mais esqueces
    Primeiro eu penso em mim mas não me chames egoísta
    Desculpa lá se eu não sou o verdadeiro artista
    Mesmo que alguém insista, eu sigo o meu instinto
    O meu inconsciente que sabe sempre o que eu sinto”

  • 4 LaBig // Nov 19, 2007 at 12:02 pm

    Sam The Kid - Não Percebes
    Se não curtes este loop então passa à fase seguinte
    o Hip-Hop crú e duro, tu não és o puro ouvinte.
    Acredita, ninguém evita o genuíno hino.
    Vazio como o bolso, não atino andar com o xino.
    Só assino um contrato que me der a liberdade,
    alguém há-de mais tarde dar-me a criatividade.
    Abusar do que tenho, um poema num desenho,
    tentar acusar um estranho só porque não o conheço.
    Apareço num formato que não ‘tás habituado,
    os que pescam disto tentam ver se o verso é picado,
    mas tu não sabes nada, tens andado adormecido.
    Só ouves o ruído da ferrugem no ouvido.
    Frases a rimar em cima duma melodia
    que te atrofia como a minha caligrafia.
    Não percebes nada, preferes uma balada
    bem elaborada por alguém conceituado.
    Não fiques chateado porque a crítica inalas,
    é melhor ficares calado se não sabes o que falas.
    Isto é o que eu vivo 24 horas diárias,
    sempre ligado a mim sem ter direito a precárias.

    Não percebes o que eu digo,
    não percebes o que eu falo,
    não percebes onde eu vivo,
    não percebes o que eu galo.
    Aprende qu’a missão não é ‘tar no top,
    é vazio, caga nisso, não percebes o Hip-Hop!

    Se faça isto ou não devo, é a maneira como escrevo.
    Sou inconsciente como a gravidez adolescente
    porque eu acredito no que ‘tá escrito quando recito,
    o que eu admito e podes crer que não facilito.
    Sou esquisito, sem limite, cuspo à toa num beat,
    não é cultura de elite, é mais cultura de street.
    Ficar em baixo, a única coisa a que eu me candidato,
    qual é o meu formato? Sujo e barato!
    Se paca tu procuras enganaste-te na área
    porque a paca que tu queres não ‘tá nesta faixa
    etária.
    Necessária vigilância com dez olhos ou mais,
    soltando as cordas vocais sem impressões digitais.
    Se Hip-Hop é vazio, eu sou a tua cabeça.
    Se não me queres ouvir, eu faço com que aconteça.
    Se Hip-Hop é lento, eu sou a tua compreensão.
    Se Hip-Hop é violência, a voz é a munição.
    A minha intenção é só prestar homenagem,
    mas damas pensam que eu sou o maluco das filmagens.
    Não quero personagens, eu quero o autêntico,
    aquilo que sai puro não tem nada idêntico.
    Sou mal compreendido, sou pouco esclarecido,
    considero-me louco no bom sentido.
    Tantos estilos que nem dá p’ra distingui-los,
    contratos alucinados, Yoo, vamos rescindi-los!

    Não percebes o que eu digo,
    não percebes o que eu falo,
    não percebes onde eu vivo,
    não percebes o que eu galo.
    Aprende qu’a missão não é ‘tar no top,
    é vazio, caga nisso, não percebes o Hip-Hop!

    Não sou músico, nem cantor. Não sou grande produtor,
    faço batidas e letras, sou poeta sem valor
    reconhecido, pelo esquecido que não recorda.
    Não vive o que eu vivo, então ele nunca concorda.
    Acorda e reflecte, espontâneo não se corrige,
    elege quem te protege, age e exije.
    Foge da pressão que domina uma voz,
    já ouviste o antes agora ouve o após.
    É mesmo assim, Sam The Kid é subterrâneo,
    quando rimo é com o hemisfério direito do crâneo.
    Com sentimento, sou versátil e hipnótico.
    Aqueles que me curtem eu sou tipo antibiótico.
    Não funciono pós que emitem alergia
    p’ra toda a classe alta eu represento a chungaria,
    p’ra toda a classe baixa eu represento a simpatia.
    É mesmo assim, Sam The Kid até um dia…

    Não percebes o que eu digo,
    não percebes o que eu falo,
    não percebes onde eu vivo,
    não percebes o que eu galo.
    Aprende qu’a missão não é ‘tar no top,
    é vazio, caga nisso, não percebes o Hip-Hop!
    Não percebes o Hip-Hop, não percebes!
    Não percebes o Hip-Hop, não percebes!
    Não percebes o Hip-Hop, não percebes o Hip-Hop, não
    percebes o Hip-Hop, não
    percebes!
    Não percebes o que eu digo,
    não percebes o que eu falo,
    não percebes onde eu vivo,
    não percebes o que eu galo.
    Aprende qu’a missão não é ‘tar no top,
    é vazio, caga nisso, não percebes o Hip-Hop!
    Não percebes o Hip-Hop, não percebes o Hip-Hop, não
    percebes o Hip-Hop, não
    percebes!
    Yo Yo Yo, caga nisso!

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