Samuel, o miúdo… – Pratica(mente)

4029758776926.jpg
Dificilmente se faz arte sem rótulos.

Arrisco em dizer que uma arte difícil de catalogar não sobrevive assim por muito tempo. Órfã.

Para a catalogação contribui em muito a disposição e, ou, a postura do artista relativamente ao produto, e em última instância, a postura do mesmo no contexto do movimento em que se insere (ou, como muitas vezes acontece, no contexto em que os outros o inserem).

Sempre assim foi, a história de resto, encarrega-se de consagrar este princípio. De Van Gogh a Beuys, o reconhecimento do artista enquanto valor intelectual sobre um determinado assunto demora a acontecer, mais do que isso, demora a conhecer. Para isso contribuem os estereótipos boémios, vadios e duvidosos nos quais se vão encaixando as novidades enquanto isso mesmo: novidades. E no domínio da arte, a assimilação de uma nova vertente ou dimensão acontece geralmente décadas depois do seu início.

Relativamente aos movimentos rap e hip-hop, e no que a Portugal diz respeito, da postura popular quase vândala em relação ao género no início dos anos 90 foi um verdadeiro salto até à simpatia da juventude pelo estilo, e como estilo considere-se música, roupa e postura (graffiti e dança incluídos). A arte suburbana tornou-se mainstream junto dos jovens e consensual entre os graúdos, em toda a largura de banda das nossas classes sociais.

Sam The Kid é um dos veículos de divulgação de género, é genuíno pela origem suburbana da sua música e é verdadeiro na postura. Reside no entanto a desconfiança, e o olhar de esguelha relativamente à justiça na aplicação do termo “arte”.

Ao terceiro álbum a resposta, pura, aos ainda relutantes. Para lá da polémica do single “Poetas de Karaoke” (um dos menos felizes) existe uma peça musical que é notável.

Não é só música, é poesia. E é poesia, tudo o resto é preconceito.

Para ouvir: Slides (retratos da cidade branca), brilhante…

[audio:praticamente_slides.mp3]

Sousa Santos – Casa em Óbidos, Leiria

Resolve-se, nesta semana em que se inicia a publicação temática diária no Aspirina, iniciar o tema da arquitectura propriamente desenhada, com uma casa diferente, que não é estranha.

A reserva natural, quase que em reflexo, relativamente ao desenho pouco comum, no caso, em curva, cai por terra quando se conhece a obra, quando o preconceito da forma cai, e a partir daí se recorre somente à analise.

Uma obra de excelência que consta da nova publicação mensal da revista arq./a, assinada pelo arquitecto Jorge Sousa Santos, uma visão optimista da arquitectura de carácter familiar em Portugal.

implantaçãoPlanta

Texto de Inês Salpico e Sousa Santos

” O projecto para esta casa, perto de Óbidos, começa por se distanciar da premissa recorrente, e algo equivoca, da arquitectura portuguesa contemporânea, sobretudo no domínio desta tipologia específica: a pretensão da derivação directa do objecto arquitectónico de uma interpretação poética do lugar. É óbvio que a forma e estratégia de implantação obedecem a um entendimento lógico da topografia e das possibilidades de um enquadramento visual da paisagem, mas estas premissas são assumidas não como elaborações conceptuais (das quais decorre uma forma) mas antes como deliberados mecanismos de construção de um discurso autónomo, em que a concretização construtiva (o objecto) não é uma decorrência mas o processo em si mesmo.

Muito mais do que uma mera forma de apropriação espacial, a casa assume-se como um pictórico e estético biunívoco: do interior como “ecrã” que apresenta um olhar sobre o exterior, e do exterior como moldura múltipla sobre o objecto arquitectónico. Esta vontade de forte caracterização do projecto como guião de uma narrativa visual alternativa corporiza-se no desenho dos vãos enquanto léxico e sintaxe, respondendo simultaneamente à difícil orientação do terreno, virado a poente. Mais uma vez, a resolução projectual é processo e não mera consequência dessa vontade inicial. A nascente desenham-se espaços tensionados por grandes membranas de permeabilidade visual; a poente recortam-se diferentes aberturas sobre os espaços de circulação, como um impacto eminentemente plástico e rítmico.

Importa sublinhar que, em nenhum momento, a estratégia da paisagem como “imagem espectáculo” redunda numa falsa ideia de continuidade espacial. Ou seja, o ecrã (essa entidade membranar) jamais se dilui ou nega a si próprio numa eventual ambiguidade interior-exterior, antes configurando uma relação de diálogo de influencia mútua e ambivalente. Assim se compreende que a própria proposta de uma distribuição funcional dos espaços se alicerce naquela narrativa visual que se pretende construir e que o carácter vivencial das diferentes áreas, numa lógica gradação social-intimo, se referencie a esta e sirva o discurso produzido.

Em suma, este projecto para uma vivenda unifamiliar, mais do que uma resolução idiossincrática de um programa e tipologia comuns, trata-se de um exercício operativo em torno do papel da imagem no processo de desenho em arquitectura. E é neste âmbito que se torna mais interessante analisá-lo, quando a imagem surge habitualmente a jusante deste processo, como forma de construção subsequente de uma interpretação sobre um objecto arquitectónico dado. Aqui, pelo contrário, a “imagem” é apropriada como ferramenta de projecto, como ponto de partida e de chegada ao objecto e como chave de leitura e vivência do mesmo. A operação perceptiva sobre a forma e a espacialidade é assumida como mecanismo intrínseco de estruturação de uma identidade, tanto visual como construtiva. Assim se compreende, por exemplo, o papel do espaço da biblioteca, elemento ícone (“ecrã e imagem”) a um tempo central e centrífugo, ou o carácter da sala, ponto de confronto com todo um dispositivo cénico e simultaneamente ponto de convergência da actividade da casa. A solução de implantação e do desenho em planta é ela mesma uma recusa da possibilidade de entendimento estático e parcelar (fotográfico) do objecto enquanto “soma de alçados”, por oposição a uma leitura sequencial e cinemática, num jogo de sedução/conflito, na qual todos os intervenientes (homem, objecto, envolvente) são alternadamente sujeitos e objectos, actores e espectadores.

Casa em Óbidos - Sousa Santos
Casa em Óbidos - Sousa Santos
Casa em Óbidos - Sousa Santos
Casa em Óbidos - Sousa Santos

O sitio web do arquitecto está em www.sousasantos.com e mais informação sobre o projecto consta na revista arq./a de Janeiro 2007 [pags 42 a 47]

Cinema – Apocalypto e Babel, e o monumental The Prestige

The Prestige é um daqueles filmes que não se dá por ele. As promos chegam meio engavetadas, a estreia não é convenientemente divulgada e o tema também chega repetido, The Illusionist havia-lhe precedido e nesta altura do campeonato a fita cheira sempre a mais do mesmo, uma daquelas repetições que se percebem e aceitam mas das quais se prefere manter quase sempre o investimento na que estreou primeiro. E no caso, pior, The Illusionist é um grande filme, tanto melhor que para o resto não fica nada.

Se a obra de  Neil Burger foi uma das grandes revelações de 2006, com Edward Norton e  Jessica Biel à cabeça, a pelicula de Christopher Nolan, o senhor de Batman Begins e do extraordinário Memento, bate, aos pontos, a primeira.

The Prestige é bem dirigido, é um filme que consegue ser de época e ser feio e incrivelmente belo a partir desse principio, imagina o quanto se baste, sonha o quanto se quer. É cruel e mexe conosco, é intenso e no final contenta. Roça a violência parva e volta a ser feio tantas vezes quantas um grande realizador consiga manter o nível a oscilar entre o belo e o razoável sendo sempre perfeito.

Hugh Jackman desempenha o melhor papel da sua carreira, Christian Bale comprova mas uma vez que a sua limitada linguagem corporal é facilmente dominada pela intensidade da representação, que não grita, não chora, não se desmancha em gargalhadas e no final é sempre eficiente. Scarlett Johansson é kitch, talvez o que de somenos tem a pelicula, onde David Bowie brilha sem muito aparecer.

Obra a não perder, recomenda-se a sessão da meia-noite, a Tagline é “Are you watching closely?”, a aclamação está entre os 8.1/10 do IMDB e os 73%/100 do RottenTomatoes.com.

Para a Semana fica a recomendação:

Apocalypto, a obra consensual de Mel Gybson sobre a queda do reino Azteca

E Babel, nada consensual, de Alejandro Gonzalez Inarritu

Grindhouse – Quando Rodriguez e Tarantino resolvem ser ainda mais geniais

Primeiro a delicia do Trailer

Projecto cinematográfico conjunto do senhor Sin City e do senhor Kill Bill, o resultado ameaça ser (mais) um marco na história do cinema moderno, depois da beleza cénica de Kill Bill e do heavy cartoon de Sin City, Grindhouse apresenta-nos Planet Terror e Death Proof, a tagline é “Two motion pictures by the price of one”, vai ser enorme.

Em Portugal lá para o ultimo terço do ano.

Alcantara XXI e as torres que não chegaram…

Alcântara é uma frente de cidade suja.

Há naquelas ruelas, nos passeios sujos, nos outdoors cansados e nas pessoas que correm por ali, uma espécie de desprezo crónico que se nota e percebe. Ali como em tantos outros sítios da cidade. Sobretudo nas áreas ribeirinhas, onde os olhos se abrem em contemplação da outra margem, e onde a vista não é famosa. Lisnave, Petroquímica cancros de um Tejo moribundo, entalado entre duas cidades que o não respeitam (que inveja sentirá do Douro?).

Curiosa a forma como à medida em que nos aproximamos de Oeiras, de Cascais, o desenho se vai tornando limpo, como se de Alcântara a Caxias a distancia fosse pouco menor da que separa Paris e Budapeste.

E em Alcântara é assim, prestigio nenhum, registo permanente de um saudosismo teimoso de tempos outros onde tudo aquilo fazia sentido e que a vida moderna marginaliza hoje.

O plano Alcântara XXI tem como fundamento a requalificação daquela baixa da cidade de Lisboa e, para lá da selectividade das intervenções e do populismo dos nomes, constitui investimento fundamental enquanto prestigio de uma frente visitada anualmente por milhares de turistas que de passagem em cruzeiros a períodos de férias em Portugal, por ali param, com opiniões feitas acerca do lugar que dificilmente deverão fugir a colagens fáceis a imagens conhecidas de países terceiro mundistas.

De entre as propostas, um projecto se tornou alvo de uma espécie de ódio de estimação crónico que data da intervenção no Chiado, que de alguma forma, pelo regionalismo pouco inteligente dos portugueses, se insiste em reviver quando em Lisboa intervém Álvaro Siza.

Três torres com três plantas diferentes e três diferentes implantações no terreno, emergiam de baixo para cima até espreitarem pouco acima do tabuleiro rodoviário da ponte 25 de Abril, uma estabilização simples e ponderada que mantinha o respeito de não violentar rio com a sua presença, antes, se recolhia por entre a primeira frente desenhada pela avenida da índia e o acesso à ponte que acontece pouco mais acima. As torres do Siza não faziam fronteira nem limite, constituíam uma referência pouco referenciada, pois a escala do lugar é ali dada pela ponte, que já lá está, lá no alto, precisamente a orientar a escala do lugar.

A recusa em aceitar a introdução de uma construção com escala vertical na cidade de Lisboa não se prende com qualquer fobia modernaça. Afinal, está escrito na história da nossa arquitectura que sempre se recusou a construção em altura, fosse por falta de fundos como nos tempos do Românico e do Gótico, seja por fundos em falta, como nos tempos de hoje (e de amanhã, e do dia depois de amanhã), mas no caso especifico a recusa residiu, acima de todas as outras motivações, na polémica do nome, que nem precisa procurar polémica para a gerar, como acontece de resto com a maior parte dos génios que praticam as respectivas profissões com princípios que se baseiam na excelência da execução.

Entre opiniões politicas e outras teimosias típicas, o projecto ficou na gaveta e verá nascer, ao que tudo indica, a grandiosa torre de Norman Foster em Santos.

Mas aí percebo. Ao lado está o famigerado edifício do IADE, a autoria é de Tomás Taveira, a apagar o mais rapidamente possível.