Resolve-se, nesta semana em que se inicia a publicação temática diária no Aspirina, iniciar o tema da arquitectura propriamente desenhada, com uma casa diferente, que não é estranha.
A reserva natural, quase que em reflexo, relativamente ao desenho pouco comum, no caso, em curva, cai por terra quando se conhece a obra, quando o preconceito da forma cai, e a partir daí se recorre somente à analise.
Uma obra de excelência que consta da nova publicação mensal da revista arq./a, assinada pelo arquitecto Jorge Sousa Santos, uma visão optimista da arquitectura de carácter familiar em Portugal.


Texto de Inês Salpico e Sousa Santos
” O projecto para esta casa, perto de Óbidos, começa por se distanciar da premissa recorrente, e algo equivoca, da arquitectura portuguesa contemporânea, sobretudo no domínio desta tipologia específica: a pretensão da derivação directa do objecto arquitectónico de uma interpretação poética do lugar. É óbvio que a forma e estratégia de implantação obedecem a um entendimento lógico da topografia e das possibilidades de um enquadramento visual da paisagem, mas estas premissas são assumidas não como elaborações conceptuais (das quais decorre uma forma) mas antes como deliberados mecanismos de construção de um discurso autónomo, em que a concretização construtiva (o objecto) não é uma decorrência mas o processo em si mesmo.
Muito mais do que uma mera forma de apropriação espacial, a casa assume-se como um pictórico e estético biunívoco: do interior como “ecrã” que apresenta um olhar sobre o exterior, e do exterior como moldura múltipla sobre o objecto arquitectónico. Esta vontade de forte caracterização do projecto como guião de uma narrativa visual alternativa corporiza-se no desenho dos vãos enquanto léxico e sintaxe, respondendo simultaneamente à difícil orientação do terreno, virado a poente. Mais uma vez, a resolução projectual é processo e não mera consequência dessa vontade inicial. A nascente desenham-se espaços tensionados por grandes membranas de permeabilidade visual; a poente recortam-se diferentes aberturas sobre os espaços de circulação, como um impacto eminentemente plástico e rítmico.
Importa sublinhar que, em nenhum momento, a estratégia da paisagem como “imagem espectáculo” redunda numa falsa ideia de continuidade espacial. Ou seja, o ecrã (essa entidade membranar) jamais se dilui ou nega a si próprio numa eventual ambiguidade interior-exterior, antes configurando uma relação de diálogo de influencia mútua e ambivalente. Assim se compreende que a própria proposta de uma distribuição funcional dos espaços se alicerce naquela narrativa visual que se pretende construir e que o carácter vivencial das diferentes áreas, numa lógica gradação social-intimo, se referencie a esta e sirva o discurso produzido.
Em suma, este projecto para uma vivenda unifamiliar, mais do que uma resolução idiossincrática de um programa e tipologia comuns, trata-se de um exercício operativo em torno do papel da imagem no processo de desenho em arquitectura. E é neste âmbito que se torna mais interessante analisá-lo, quando a imagem surge habitualmente a jusante deste processo, como forma de construção subsequente de uma interpretação sobre um objecto arquitectónico dado. Aqui, pelo contrário, a “imagem” é apropriada como ferramenta de projecto, como ponto de partida e de chegada ao objecto e como chave de leitura e vivência do mesmo. A operação perceptiva sobre a forma e a espacialidade é assumida como mecanismo intrínseco de estruturação de uma identidade, tanto visual como construtiva. Assim se compreende, por exemplo, o papel do espaço da biblioteca, elemento ícone (“ecrã e imagem”) a um tempo central e centrífugo, ou o carácter da sala, ponto de confronto com todo um dispositivo cénico e simultaneamente ponto de convergência da actividade da casa. A solução de implantação e do desenho em planta é ela mesma uma recusa da possibilidade de entendimento estático e parcelar (fotográfico) do objecto enquanto “soma de alçados”, por oposição a uma leitura sequencial e cinemática, num jogo de sedução/conflito, na qual todos os intervenientes (homem, objecto, envolvente) são alternadamente sujeitos e objectos, actores e espectadores.




O sitio web do arquitecto está em www.sousasantos.com e mais informação sobre o projecto consta na revista arq./a de Janeiro 2007 [pags 42 a 47]