Muse – Black Holes and Revelations, Edição Especial Portugal


É perigoso deixar a guitarra à solta.

Há no domínio do instinto “Rocker” uma certa selvajaria à qual os músicos tendem a não conseguir escapar (ouvir o ultimo álbum de System of a Down para perceber o ponto de vista) e que quando procuram aligeirar com um determinado estilo, rapidamente se tornam criativamente estéreis e aditivos (Audioslave, Foo Fighters, e porque não, Queens of the Stone Age).

O trabalho dos Muse constitui um paradigma de bom gosto e controlo sério da opção livre em dispor do Rock a seu belo prazer e que tende, álbum após álbum, a melhorar musical e poeticamente na abordagem ao trabalho que produzem, o que os torna, sucesso atrás de sucesso, num dos mais competentes grupos musicais da década, percurso que vem sucedendo ao que foi percorrido no passado pelos Radiohead.

Está à venda uma edição especial de “Black Holes and Revelations” que junta o novo trabalho da banda a um CD especial com a gravação ao vivo do concerto dado no Campo Pequeno, em Lisboa. A compra é obrigatória, dois discos por menos de 19 Euros.

Manuel Aires Mateus – Casa em Coruche

Está na edição deste mês da revista arq./a este projecto para uma habitação em Coruche, do arquitecto Manuel Aires Mateus e que constitui mais um belo exercício de especulação sobre o que é afinal desenhar uma casa.

Conseguido algures entre o domínio do perímetro do quadrado e a definição da área que o mesmo limita, é um raciocínio atento, um ponto de vista diferente sobre um tema recorrente e que demonstra que na abordagem simples se atingem graus notáveis de complexidade.

MAM

 

Notas de Autor:

“Procurava-se nesta casa um “sabor tradicional”. Leu-se nesta ideia um preconceito de forma. Procurou-se encontrar o limite de existência de uma forma. O volume em quatro águas é tornado abstracto, monomatérico, branco, paredes e cobertura. Um pátio é rasgado deixando a memória das arestas. Neste pátio abrem-se também os vãos dos quatro espaços principais: cozinha, sala, quarto principal e uma sala de crianças, para a qual dão as alcovas. A casa tem formas reconhecíveis e acabamentos tradicionais, brancos com chão em soalho à antiga portuguesa. Os espaços de transição desenhados entre os espaços principais e o muro exterior terão outros acabamentos que se descobrirão na obra.”

Pontapé na monotonia

Tem-se criticado por aqui, com alguma insistência, a forma como as publicações ligadas à arquitectura, feitas em Portugal, abordam o tema. Os exemplos repetem-se, e o design, à excepção da revista arq./a, é invariavelmente fraco.

Ao folhear a Arquitectura e Vida deste mês surge a surpresa.

Há um esforço na abordagem à dinâmica da imagem e na apresentação dos conteúdos, coroado com uma foto-reportagem belíssima abrilhantada pela objectiva de Fernando Guerra sobre a intervenção de Álvaro Siza Vieira no Parque Atlântico de Vila do Conde, entre outros textos de qualidade cuja leitura vale a pena.

Pode não ser uma mudança significativa, mas louve-se o esforço.

A revista arq./a apresenta este mês (mais) uma entrevista com o arquitecto Manuel Aires Mateus onde pela primeira vez se apresenta um olhar mais atento sobre o Centro de Artes de Sines, mas onde o destaque vai para a apresentação de dois pequenos projectos de habitação que mostram uma outra perspectiva do arquitecto sobre o tema do habitar, recomenda-se a leitura.

Cinema – Simplesmente Babel

Babel

 

Se um bom realizador é aquele que consegue dominar os silêncios que cria, então Alejandro Gonzalez Inarritu faz tese sobre o assunto em Babel.

Com alguma facilidade se percebe o porquê de não ser uma obra aclamada, falta, ás massas, paciência suficiente para esperar pelo ultimo frame, pela beleza com que alguns filmes nos brindam nos instantes que antecedem o fade-out e que transportam imediatamente à imobilidade (quando a coisa resulta) enquanto vão caindo os créditos, enquanto nos vamos sentido confusos entre o binómio espaço-tempo que o filme nos apresentou e aquele que habitamos e em que vivemos (e com o qual vamos mantendo uma relação difícil).

Babel não é um filme sobre linguagem, é um filme sobre o que faz a linguagem. Mostra-nos a perspectiva da construção da palavra, a mecânica que antecede o discurso, e, arrisco dizer, o próprio homem em si.

Somos aquilo que fazemos, mas também somos aquilo que a geografia da palavra faz de nós, aquilo que o mundo nos oferece e com o qual mediamos sentimentos através da expressão falada, e desse ponto de vista, Babel é uma lição sobre a humanidade, e sobre o ‘homem’ também.

Brad Pitt anda por lá, quase não se dá por ele. Melhor filme do ano.

68% com voto de qualidade no Rottentomatoes.com (algum dia teria de discordar destes tipos).

Sobre a Trienal de Arquitectura de Lisboa

TAL

Há, no exercicio da profissão de Arquitecto, uma desconfiança (usando o termo leve) crónica relativamente ao trabalho desempenhado por este ou por aquele colega de trabalho.

Percebe-se, e relativamente ao assunto há que guardar alguma condescendência. O oficio é duro, as condicionantes são muitas, e o trabalho verdadeiramente entusiasmante pertence a uma elite restrita que de uma forma ou de outra se vai mantendo embalsamada nas repetidissimas publicações em papel, doença crónica que tem vindo a ser contrariada, a custo, por alguns blogs e por algumas iniciativas académicas, que regra geral mais não são do que fruto do entusiasmo tipico que envolve o jovem estudante de arquitectura em estado puro de pré-desilusão em relação ao mercado de trabalho.

Foi anunciado no passado dia 26 de Janeiro, na sede da Ordem dos Arquitectos, a primeira edição da Trienal de Arquitectura de Lisboa.

Imediatamente se levanta uma considerável superficie de protesto contra a organização, os escolhidos, os seleccionados, as iniciativas, os concursos, o sitio web, o blog, o Presidente da Câmara, o fim da Experimenta Design 2007 e por aí adiante.

Pessoalmente não tenho opinião formada. Conheço relativamente pouco acerca da obra e da inteligência da selecção dos responsáveis, não sei se o Pavilhão de Portugal é o melhor espaço para se fazer acontecer um evento desta envergadura, desconheço se o concurso de idéias poderá realmente constituir uma mais valia para a adesão da população, de web design percebo muito pouco, de blogs a experiência é recente, por norma não comento politica e relativamente à Experimenta Design 2007 tenho a dizer que lamento profundamente que o subsidio prometido não tenha chegado.

Dito isto.

Por todos os portugueses que continuam mal educados relativamente ao bom gosto e contemporaneidade da arquitectura portuguesa; Por todos os jovens arquitectos, recém-licenciados, estagiários ou meros estudantes universitários que nestas coisas de Bienais e Trienais “ouviram dizer” que há uma coisa do género em Veneza; Por todos os arquitectos que sonham com a possibilidade de haver uma publicidade competente à profissão que exercem e por todos os leigos que continuam a comer gato por lebre por cada espécie de revista da especialidade que adquirem no esforço de se inteirarem acerca do que se faz no ambito da prática, congratulo-me por, finalmente, existir tempo e espaço para a arquitectura num evento em grande escala ao qual a adesão será, sem sombra de dúvida, muito boa.

O resto é mais do mesmo, para lá da justeza da critica ou do necessário apontar de dedo, ou da incompetência dos seleccionados, o resto que se guarde para outro tempo, para outro espaço. O importante é que não sejam os arquitectos a fazerem de antropófagos de si mesmos.

E se eventualmente assim não for, no final se verá, vamos pelo menos dar uma oportunidade à arquitectura portuguesa de se mostrar ao povo.