Conversas em familia, Salazar.

Thursday 29th March 07

Foi no passado domingo que o nome Salazar teve direito a honras de nudez. Nudez verbal, entenda-se.

Trinta e três anos após o 25 de Abril, e o país que viveu quase meio século subjugado ao poder ditatorial ainda não tinha aprendido o risco que é ignorar os sinais da história, da Censura sobre si mesma. Inconsequentes são neste momento as dissertações sobre os livros escolares, os programas televisivos ou os movimentos populares. Se o nome Salazar foi banido do nosso léxico, pior, da nossa literatura, a todos se deve. Sem excepções.

O momento da subida de Ramalho Eanes ao poder simbolizou a primeira estabilização politica do país pós revolução, e a partir de então se firmou no povo, nas gentes, a ideia de que a história se deveria contar da fundação aos descobrimentos, daí à restauração, daí à república e até ao golpe militar. Depois silêncio, que se seguiu o triste fado. O resultado é hoje claro: três décadas depois de se banir o nome da nossa história, eis que, oportunidade única de eleger o maior entre os decentes portugueses, permite, ás gentes, a alvorada sobre a realidade do país (que não é famosa, opiniões politicas à parte). Existe por todo o lado um velho do Restelo e o sentimento de que a recordação sobre o estado novo, olhando para o actual país, em estado velho, não soa assim tão mal o quanto o período de reflexão a que nos obrigámos, nos permite.

Inicia-se o processo. Meses de votação, a não inclusão de Salazar na primeira lista de sugestões, o debate que se seguiu, televisão, rádio e jornal. Frenesim interessante. E chega o dia do anuncio.

Na televisão, espectáculo digno para Salazar, na noite de maior glória após a sua morte, e quem diria, mais de trinta anos depois. O programa começa com o anuncio do estado da votação.. Salazar à frente. Exultação nervosa ao voto que nos livrasse da desgraça de o fazer vencer mais uma eleição, e desta vez a titulo póstumo com concorrência e voto livre. Painel de 10 ilustres defensores aos 10 finalistas (má sorte do Infante Dom Henrique, homem de visão global representado por um surfista descontraído.Do Infante ao berrante, quinhentos anos os separam) onde um a um, a todos foi dada a oportunidade de, finalmente sem censura nem censores, apalavrar o nome de Salazar com adjectivos diversos, porque os momentos de libertação também têm destas coisas, é que finalmente dada a oportunidade de falar no senhor, lá se entendeu dizer o que se apetecesse que ninguém levava a mal.

Findo o espectáculo e a revelação. Salazar vence, e por pouco não precisava de segunda volta.

Estala o verniz. De concurso fundamental se passou imediatamente a passatempo banal, exercício de família onde de resto cada um votaria as vezes que entendesse. Odete Santos aos berros, esperneando de cabelo vermelho e mãos no ar, a compostura perdida que nunca teve, o ar preocupante de histeria compulsiva solta em horário convenientemente já nada nobre. E assim bem o fez, Odete. Se em pleno directo se mostravam os argumentos pelos quais Salazar e os da sua classe nunca deveriam ter chegado ao poder, melhor fez a representante do PCP, esgrimindo no seu esbracejar desenfreado as razões pelas quais, felizmente, Cunhal também nunca lá poderia ter chegado.

O resultado da votação não diz nada sobre nós. Há um mês, na sic noticias, o mesmo Salazar fora votado como o pior de sempre, e até aí estava tudo bem.

O concurso em si diz muito sobre aquilo que somos, o quão ditadores somos, e o quanto nos prejudicamos ao praticar este silêncio tolo relativamente ao estado novo.

O povo ainda é quem mais ordena e por isso é perigosamente penoso que esteja tão mal informado…

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Pois a boa divulgação tem destas coisas, o Aspirina foi hoje finalmente abaixo depois de uma série de avisos alertando-me para o excesso de tráfego envolvendo o site (entendam-se, visitas) a entidade de alojamento resolveu suspender a actividade e bloqueou-nos o acesso.

Problemas resolvidos graças à prontidão incansável da Connecty, e assim se retoma a emissão, esperando então que o aumento da largura de banda seja capaz de receber as visitas, que recentemente começaram a ultrapassar as 100 diárias, o que para um blog sobre arquitectura, com 5 meses de existência, é algo que me deixa tremendamente orgulhoso.

E por isso também o meu obrigado.

Chegam as primeiras imagens da nova sede para a Fundação Iberê Camargo, edifício de desenho muito particular facilmente identificável com a obra de Siza, sobretudo porque os esquiços que antecederam o edifício se tornaram em ícones singulares de uma profissão sustentada hoje em dia pela força do computador, e que, terminada a construção, nos permitem reconhecer a autoria e a forma sem grande dificuldade.

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A fotografia de Leonardo Finotti dá a conhecer o ultimo reduto de Siza, entre a excelência da execução e a herança moderna com que ainda hoje nos deslumbra, e que atinge no novo mundo, do outro lado do oceano, o expoente máximo da capacidade do arquitecto em se reinventar a si mesmo, percurso onde as questões se colocam e se respondem, onde a formulação da hipótese se encara com a frontalidade do génio.

E no final é Siza.

Sobre: Fundação Iberê Camargo

“A arquitectura não é só para os outros,
Mas é mais arquitectura quando é para nós.”

Desta forma genial remata o gabinete p&r arquitectos a bela memória descritiva que acompanha um projecto, que simboliza eventualmente a maior problemática com que um arquitecto se pode deparar, a de desenhar uma casa com a qual tem de viver diariamente.

Dizia Álvaro Siza que jamais se atreveria a desenhar uma casa para si mesmo, pois sabia ser certo que jamais lhe iriam aprovar o projecto. A questão é demasiado ampla para ser discutida, mas a obra que aqui se apresenta é um exemplo notável de como a competência do arquitecto se consegue apurar, sem ter de ser juiz em causa própria.

Fica o registo pela objectiva de Fernando Guerra:

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Notas de Autor:

“No limite das planícies do rio Arunca, e vincado por um talude coroado por uma rua privada da Quinta, o terreno é fortemente caracterizado pelos diferentes níveis de cota pontuados por árvores aleatórias.
A exigência dos clientes era única e objectiva, também pouco flexível, ambos defendiam saberes e experiências vivenciais diferentes, e tudo isso era reflexo de um só projecto. A receita estava em cruzar a informação conseguida pela análise individual de cada um e transforma-la em conceito levado até as ultimas consequências sem o desvirtualizar.
A solução de adequar o projecto ás duas cotas distintas, resolveu a volumetria e parte do programa. Paralelamente houve o cuidado de conduzir a luz a todas as zonas da habitação de uma forma simples e directa sem se sobrepor à envolvente. O piso térreo assume-se como um largo muro de suporte em pedra, que alberga todo o programa de serviços domésticos e garagem. O piso íntimo descansa sobre o dito muro, projectando-se sobre a sala de estar limitada a panos de vidro, fragilizado pelo deslocamento do pilar no limite da viga. O volume de betão esconde os vãos e valoriza a privacidade, como se retirasse-mos fatias de um bolo privilegiando o núcleo.
A luz atravessa os volumes em todas as direcções e nos vários sentidos.

O homem pode viver a arquitectura como a pensa,
Mas vive na arquitectura como se sente bem.

A arquitectura não é só para os outros,
Mas é mais arquitectura quando é para nós.

A arquitectura complica-se quando somos os próprios clientes.

A arquitectura tem os clientes mais inesperados, mas existe sempre solução.”

Mais informação via >> Arkinetia

No artigo sobre a proposta vencedora para o novo museu do Côa, talvez mais do que a critica à obsessão do arquitecto português em validar as suas propostas através da recorrente justificação do lugar, dirigia-se, a critica, à falta de sinceridade que antecede o texto justificativo, a meu ver, ferramenta poderosa para dar a conhecer um determinado conceito ou ideia.
O nosso provincianismo critico, embalado pelo cada vez mais gasto leque de exemplos que a arquitectura portuguesa vai oferecendo à discussão, e, eternamente apoiado pela extinta escola do Porto, acabaram por produzir um fenómeno que teima em retardar a necessária mudança de mentalidades no que ao habitar em Portugal diz respeito. Em discussão recente, o projecto de Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi com Inês Melo e Ricardo Sousa desenvolvido no âmbito da edição de 2005 da Experimenta Design, sob o tema de “Uma Casa Portuguesa”, exercício pertinente de habitação, talvez mais conceptual do que objectivamente prático, acaba por ser algures apelidado de “pouco português”

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As bases da nossa arquitectura, assentam em pressupostos sólidos pós-modernistas que foram brilhantemente cultivados por um grupo de jovens arquitectos, mais a norte do que a sul, e que se reflectiram em excelência desde o final dos anos 90 até este inicio de milénio, época em que, o pensamento se abre, o planeta atinge finalmente a escala global da sua dimensão, e a mistura cultural se redescobre, 400 anos depois de nós, portugueses, termos sido pioneiros nas plataformas de relacionamento entre os povos do mundo.
No caso da “Casa Portuguesa”, o fenómeno de recusa na aceitação da ideia é meramente preconceituoso, porque o projecto em si, mais sincero não poderia ser. Da imagem ao desenho, e daí até ao texto que o acompanha, onde se reconhece como momento único e particular inserido num âmbito de desenvolvimento pensado a uma escala verdadeiramente global, onde o ponto de chegada de um assunto se transforma imediatamente no ponto de partida de um outro, numa procura continua da sociedade que se reflecte, finalmente, na velocidade a que vivemos. Paradoxalmente, ou não, o saudosismo não deixa de nos acompanhar, e a necessidade em compensar a evolução atinge contraponto nos modos de viver, em derradeira análise, no modo de habitar. Aí se entende o quão preconceituosos somos, mas, mais grave do que isso, o quão dispostos estamos em defender a lenda da arquitectura portuguesa, talvez até perdermos a razão.
Os contributos de Raul Lino, Teutónio Pereira, Álvaro Siza ou Gonçalo Byrne, não se perdem nem se desconsideram com esta reinterpretação dos canones modernos, muito pelo contrário, haverá mais carga de portucalidade na proposta de Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi, do que em grande parte das repetidas obras intelectuais arquitectónicas cujo surgimento, em tom branco, estéril e vazio, se vai assistindo com um convencido assentimento, numa espécie de satisfação absurda pela repetição.

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Notas de autor:

“A história repete-se. Para cada acção existe uma reacção, ocasionalmente uma resposta rápida, a maioria das vezes excessivamente demorada. E esta é a nossa situação actual. Vivemos de outro modo mas habitamos do mesmo. Continuamos a assentar o nosso conceito de construção num modelo neo-burguês que, comprovadamente, se encontra ultrapassado. Que procuramos? Ninguém sabe ao certo, pois dificilmente encontraremos uma resposta única e universal. Cada ponto de partida leva a um diferente ponto de chegada, o que torna a heterogeneidade um dos factores mais importantes da criação contemporânea.
A sociedade procura novos modelos, novas referências que tenham a capacidade de nos fazer sonhar com um futuro melhor. Uma viragem em direcção ao igualitarismo e um regresso à informalização como contra-tendência social. De que modo a casa pode ser o espelho desta nova alma? Procurando um entendimento desta nova condição como ponto de partida para a concepção espacial da “nova casa”. “É uma Casa Portuguesa? com certeza…” ”
Carlos Sant’Ana e Isabella Rusconi com Inês Melo e Ricardo Sousa

Pedro Tiago Lacerda Pimentel e Camilo Bastos Rebelo, Proposta Vencedora:

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Memória Descritiva:

” Os temas abordados são diversos, resultando de uma dinâmica de trabalho que procura cruzar factores exteriores, como topografia e acessibilidades, e factores de conteúdo programático.

O desafio de fundir estes factores torna-se explicito no conceito da intervenção � conceber um museu enquanto instalação na paisagem.

Conceito:

A Arte Rupestre que qualifica de forma única as margens do Rio Côa é provavelmente a primeira forma de “Land Art” da História da Humanidade. Esta condição revelou-se desde logo o motor de construção da ideia do projecto. A “Land Art” caracteriza-se genericamente de duas formas distintas.

Na primeira a condição de intervenção na paisagem é executada com elementos naturais promovendo continuidade, onde a geometria de carácter abstracto se impõe destacando a intervenção. Na segunda a estratégia é a de trabalhar um corpo, desenhado especificamente para um lugar promovendo um diálogo intimo entre artificial/natural e aumentando deste modo a complexidade temática da composição do mesmo.

O território sugere neste caso uma dupla leitura, pois é o suporte natural da paisagem, com que se pretende intervir e dialogar, mas é também a consequência da intervenção do homem numa natureza modelada, enfatizando a condição artificial.

No caso do Museu parece ser importante o sentido afirmativo do corpo, quer na sua leitura de intervenção na paisagem, quer quanto à sua natureza tipológica que deve ser formalizada enquanto massa física, não deixando quaisquer ambiguidades e equívocos quanto à sua localização e conteúdo”

“Corpo: A forma / volume do corpo é triangular e resulta de três condições topográficas. O corpo triangular é lapidado pela geometrização abstracta da topografia, que no ponto mais alto do terreno (implantação) está entalado entre dois vales (Vale José Esteves e o Vale do Forno) e abre uma terceira frente ao encontro dos rios Douro e Côa”

“Matéria: Para a plasticidade da matéria do corpo interessa considerar três temas: a massa, textura e a sua cor. Das possibilidades analisadas prevalecem duas: o xisto como sendo o material local e existindo em abundância, mas também pelo factor de ser o suporte escolhido no Paleolítico para o registo das gravuras. O betão interessa pelas suas características plásticas e tectónicas, mas também como material que aparece recentemente na paisagem do Douro em construções de médio e grande porte. No entanto, este, usado na sua cor natural, cinzento, promoveria alguma ruptura com o terreno onde predomina o castanho amarelado do xisto. Deste modo a proposta é que a matéria do corpo seja betão com inertes e pigmento de xisto resultando numa massa híbrida. Esta composição é sugerida nas eiras de secagem da amêndoa que pontuam alguns terrenos da envolvente, embora com a predominante xisto.” READ ALL >

Sobre as teorias da forma, que são uma espécie de Juiz arbitral que se estabelecem logo a partir da análise de um projecto e que por vezes nos encurtam o discernimento.

Uma ideia diferente com resultado estranho. A ver:

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Tradução livre a partir do texto via >> Noticias Arquitectura

O projecto surge como resposta ás características que o lugar oferece. Por um lado a necessidade de relação com o tecido urbano em desenvolvimento, e, por outro, conservar o desenho expressivo da paisagem natural em que se encontra.

Nesta contraposição, o projecto conseguiu definir as tensões que o articulam e que lhe permitem organizar-se como uma resposta coerente ás condicionantes que existem no lugar. Assimilar esta contraposição levou o projecto a encontrar a sua definição especifica, como uma reflexão dialéctica, sóbria e coerente, alternando entre o carácter artificial urbano e o valor intrínseco do orgânico.

Desta forma o projecto aparece como uma massa modelada em função das tensões resultantes da relação entre os espaços que o rodeia. A partir da cidade, reconhece o seu lado urbano; alçados limpos, ordenados e pausados que definem os limites construídos do espaço. A partir do mar, encontra a sua condição especifica para uma busca espacial que procura interpretar aquilo que a paisagem e a geografia vão sugerindo. A partir daqui, formula-se a possibilidade da modelação de acordo com a baía, com amplas superfícies côncavas que estabelecem relações poderosas com a paisagem natural circundante, ancorando-se como uma vela de frente para o mar, modelando-se sobre o perfil incerto da costa que domina, abrindo-se assim sobre o horizonte.

Somos uma graça

Wednesday 14th March 07

Meia década de dedicação ao famigerado fundo preto do Autocad levam-me, inevitavelmente a uma consulta de oftalmologia no não menos famigerado e recôndito Instituto Gama Pinto, superfície de apoio à saúde entalada algures entre meia dúzia de ruelas, em plena Lisboa.

A prática é a de sempre, pena dos idosos, pena dos miúdos, e pena de mim, que ao fim de ano e meio de espera lá consigo finalmente ser abençoado com a graça da presença do senhor doutor. A espera não surpreende, de resto, nós portugueses estamos a desenvolver uma postura notável face a este admirável mundo novo: enquanto os países civilizados evoluem a velocidades quase incompreensíveis, nós, conseguimos descobrir o anti-corpo útil no combate à já crónica morosidade em resolver assuntos de base nos nossos sistemas sociais e políticos. Tratamos os tempos de espera por tu.  E eu levado pela metamorfose a que os meus genes também foram sujeitos, lá vou esperando, calma e lentamente.

Três horas de espera e eis que às 10 da manhã me sinto finalmente na Europa. Uma senhora auxiliar, de feições marcadas e corpo firme, saída do cruzamento entre a mãe de Brian (O vizinho de Jesus no magnifico filme dos Monty Pytho) e o nosso simpático ministro da saúde, resolve desfilar pela sala com uma bandeja repleta de pequenas chávenas de plástico. Cheirava a café.

Em êxtase, de um salto, assalto-a com a ansiedade dos que, após longo período de marasmo acabam por encontrar, por fim, a substância que permitirá encarar o que lhes resta da espera com outra disposição.  Eis que me detenho, a coisa paga-se. 30 cêntimos custa o passaporte para a cafeína. Recuso-me a ceder a esmola. O vizinho do lado não, paga e toma. A cómica reacção facial espressar-se-ía na onomatopeia ‘Blherg’. Ainda olho em volta, não fosse o acto que se me apresentava estar a ser gravado para um qualquer programa de televisão. Não.

Mais duas horas e a liberdade. Cá fora é meio dia e no primeiro café de esquina se encontra a hipótese de vingar a desfeita. A qualidade é boa e o preço é quantitativamente proporcional ao produto.

Também disto se faz Portugal, onde o paralelismo da nossa realidade não está em cobrar por um café em estabelecimentos de saúde publicos, está no preço a pagar pela coisa propriamente dita. 30 cêntimos por uma chávena de café de fogão.

E a graça é essa, não damos nada de graça, o que nos dá uma graça descomunal.

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Desde a edificação do Phaeno Science Centre em Wolfsburg que passei a olhar de forma diferente para o trabalho de Zaha Hadid.

De repente, a linguagem da desconstrução encontrava alguma coerência no desenho do perímetro dos seus objectos, o conjunto ganhava força e a plasticidade da coisa conseguía ler-se de forma limpa, sem subterfúgios, como se o gesto finalmente se controlasse. A loucura andava pelo alçado, menos mal.

Neste meio de preconceitos que é a arquitectura, onde a ditadura das tendências surge convenientemente mascarada de discursos “anti-dogmáticos”, aquilo que Hadid tinha para nos oferecer havia sido tratado, até então, mais como arte plástica do que como arquitectura, no sentido lato do termo, inerente à construção, à carga tectónica. O devaneio das telas, a liberdade do traço era facilmente colocada em causa aquando da formulação da hipótese da escala. “Como é que isto se desenha a 1:1?”.

Abençoadamente, ou talvez não, outros nomes vão garantido alguma imunidade a este tipo de pensamento ao relantim, Fuksas hoje, como Koolhaas ontem, como fora com Corbusier, nos primórdios do Modernismo.

Arrisco em dizer que havia um preconceito sexista pelo meio. “Disparates femininos. É ‘Arte’ “, convenientemente Arte acrescento eu.

Os Renders do futuro Centro de Artes em Abu Dabi são sinal de que o trabalho de Hadid atingiu, finalmente, dimensão fisica.

A colagem ao recém descoberto filão Futuro-Organicista é óbvia, do alçado em forma de folha à planta com reminiscências animais, uma visão que se começa a generalizar e que tende a constituir escola nos anos que se seguem.

O edifício fará parte de um imenso pólo de ciência e cultura que conta ainda com propostas dos arquitectos Frank Gehry, Jean Nouvel e Tadao Ando.

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via >> Inhabitat