Foi no passado domingo que o nome Salazar teve direito a honras de nudez. Nudez verbal, entenda-se.
Trinta e três anos após o 25 de Abril, e o país que viveu quase meio século subjugado ao poder ditatorial ainda não tinha aprendido o risco que é ignorar os sinais da história, da Censura sobre si mesma. Inconsequentes são neste momento as dissertações sobre os livros escolares, os programas televisivos ou os movimentos populares. Se o nome Salazar foi banido do nosso léxico, pior, da nossa literatura, a todos se deve. Sem excepções.
O momento da subida de Ramalho Eanes ao poder simbolizou a primeira estabilização politica do país pós revolução, e a partir de então se firmou no povo, nas gentes, a ideia de que a história se deveria contar da fundação aos descobrimentos, daí à restauração, daí à república e até ao golpe militar. Depois silêncio, que se seguiu o triste fado. O resultado é hoje claro: três décadas depois de se banir o nome da nossa história, eis que, oportunidade única de eleger o maior entre os decentes portugueses, permite, ás gentes, a alvorada sobre a realidade do país (que não é famosa, opiniões politicas à parte). Existe por todo o lado um velho do Restelo e o sentimento de que a recordação sobre o estado novo, olhando para o actual país, em estado velho, não soa assim tão mal o quanto o período de reflexão a que nos obrigámos, nos permite.
Inicia-se o processo. Meses de votação, a não inclusão de Salazar na primeira lista de sugestões, o debate que se seguiu, televisão, rádio e jornal. Frenesim interessante. E chega o dia do anuncio.
Na televisão, espectáculo digno para Salazar, na noite de maior glória após a sua morte, e quem diria, mais de trinta anos depois. O programa começa com o anuncio do estado da votação.. Salazar à frente. Exultação nervosa ao voto que nos livrasse da desgraça de o fazer vencer mais uma eleição, e desta vez a titulo póstumo com concorrência e voto livre. Painel de 10 ilustres defensores aos 10 finalistas (má sorte do Infante Dom Henrique, homem de visão global representado por um surfista descontraído.Do Infante ao berrante, quinhentos anos os separam) onde um a um, a todos foi dada a oportunidade de, finalmente sem censura nem censores, apalavrar o nome de Salazar com adjectivos diversos, porque os momentos de libertação também têm destas coisas, é que finalmente dada a oportunidade de falar no senhor, lá se entendeu dizer o que se apetecesse que ninguém levava a mal.
Findo o espectáculo e a revelação. Salazar vence, e por pouco não precisava de segunda volta.
Estala o verniz. De concurso fundamental se passou imediatamente a passatempo banal, exercício de família onde de resto cada um votaria as vezes que entendesse. Odete Santos aos berros, esperneando de cabelo vermelho e mãos no ar, a compostura perdida que nunca teve, o ar preocupante de histeria compulsiva solta em horário convenientemente já nada nobre. E assim bem o fez, Odete. Se em pleno directo se mostravam os argumentos pelos quais Salazar e os da sua classe nunca deveriam ter chegado ao poder, melhor fez a representante do PCP, esgrimindo no seu esbracejar desenfreado as razões pelas quais, felizmente, Cunhal também nunca lá poderia ter chegado.
O resultado da votação não diz nada sobre nós. Há um mês, na sic noticias, o mesmo Salazar fora votado como o pior de sempre, e até aí estava tudo bem.
O concurso em si diz muito sobre aquilo que somos, o quão ditadores somos, e o quanto nos prejudicamos ao praticar este silêncio tolo relativamente ao estado novo.
O povo ainda é quem mais ordena e por isso é perigosamente penoso que esteja tão mal informado…

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