Meia década de dedicação ao famigerado fundo preto do Autocad levam-me, inevitavelmente a uma consulta de oftalmologia no não menos famigerado e recôndito Instituto Gama Pinto, superfície de apoio à saúde entalada algures entre meia dúzia de ruelas, em plena Lisboa.
A prática é a de sempre, pena dos idosos, pena dos miúdos, e pena de mim, que ao fim de ano e meio de espera lá consigo finalmente ser abençoado com a graça da presença do senhor doutor. A espera não surpreende, de resto, nós portugueses estamos a desenvolver uma postura notável face a este admirável mundo novo: enquanto os países civilizados evoluem a velocidades quase incompreensíveis, nós, conseguimos descobrir o anti-corpo útil no combate à já crónica morosidade em resolver assuntos de base nos nossos sistemas sociais e políticos. Tratamos os tempos de espera por tu. E eu levado pela metamorfose a que os meus genes também foram sujeitos, lá vou esperando, calma e lentamente.
Três horas de espera e eis que às 10 da manhã me sinto finalmente na Europa. Uma senhora auxiliar, de feições marcadas e corpo firme, saída do cruzamento entre a mãe de Brian (O vizinho de Jesus no magnifico filme dos Monty Pytho) e o nosso simpático ministro da saúde, resolve desfilar pela sala com uma bandeja repleta de pequenas chávenas de plástico. Cheirava a café.
Em êxtase, de um salto, assalto-a com a ansiedade dos que, após longo período de marasmo acabam por encontrar, por fim, a substância que permitirá encarar o que lhes resta da espera com outra disposição. Eis que me detenho, a coisa paga-se. 30 cêntimos custa o passaporte para a cafeína. Recuso-me a ceder a esmola. O vizinho do lado não, paga e toma. A cómica reacção facial espressar-se-ía na onomatopeia ‘Blherg’. Ainda olho em volta, não fosse o acto que se me apresentava estar a ser gravado para um qualquer programa de televisão. Não.
Mais duas horas e a liberdade. Cá fora é meio dia e no primeiro café de esquina se encontra a hipótese de vingar a desfeita. A qualidade é boa e o preço é quantitativamente proporcional ao produto.
Também disto se faz Portugal, onde o paralelismo da nossa realidade não está em cobrar por um café em estabelecimentos de saúde publicos, está no preço a pagar pela coisa propriamente dita. 30 cêntimos por uma chávena de café de fogão.
E a graça é essa, não damos nada de graça, o que nos dá uma graça descomunal.
















3 responses so far ↓
1 Entrededos // Mar 14, 2007 at 11:29 pm
Uma delicia de post.
Ainda te queixas tiveste sorte em não seres confrontado com uma daquelas personagens em que tentam dar a volta ao texto e fazer ver que a tua critica é uma qualidade do estabelecimento ” Oh meu caro utente este estabelecimento oferece sem encargos nenhuns ao utente 3 horas contemplação ás nossas instalações de forma a se ambientar ao nosso agradável espaço”
Abraço.
E um “passou bem” …. Do EntreDedos
2 Ivo Sales Costa // Mar 15, 2007 at 2:44 am
E que qualidade de espaço de resto…
Andam cientistas ás turras à procura da fórmula para viajar no tempo, e afinal nós os tugas já descobrimos o segredo há muito tempo. Basta dar uma saltada ao dito cujo instituto Gama Pinto e à bela sala de espera que enjeitaram aos pacientes para nos sentirmos imediatamente com uma vontade de rir do caraças, em pleno periodo da 1ª Guerra mundial.
Valha-nos…
Quanto à mensagem que te mandei há dias sobre o nosso regresso ás origens, amanha terei novidades, logo te digo.
Um fortissimo abraço!
3 Entrededos // Mar 15, 2007 at 4:11 pm
E que origens…
Senti a pouco tempo que não é mau para a alma sentir saudades, grave é sentir uma nostalgia molengona
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