Sobre o Museu do Côa, e esta coisa portuguesa de chamar ao terreno a responsabilidade sobre o projecto

Pedro Tiago Lacerda Pimentel e Camilo Bastos Rebelo, Proposta Vencedora:

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Memória Descritiva:

” Os temas abordados são diversos, resultando de uma dinâmica de trabalho que procura cruzar factores exteriores, como topografia e acessibilidades, e factores de conteúdo programático.

O desafio de fundir estes factores torna-se explicito no conceito da intervenção � conceber um museu enquanto instalação na paisagem.

Conceito:

A Arte Rupestre que qualifica de forma única as margens do Rio Côa é provavelmente a primeira forma de “Land Art” da História da Humanidade. Esta condição revelou-se desde logo o motor de construção da ideia do projecto. A “Land Art” caracteriza-se genericamente de duas formas distintas.

Na primeira a condição de intervenção na paisagem é executada com elementos naturais promovendo continuidade, onde a geometria de carácter abstracto se impõe destacando a intervenção. Na segunda a estratégia é a de trabalhar um corpo, desenhado especificamente para um lugar promovendo um diálogo intimo entre artificial/natural e aumentando deste modo a complexidade temática da composição do mesmo.

O território sugere neste caso uma dupla leitura, pois é o suporte natural da paisagem, com que se pretende intervir e dialogar, mas é também a consequência da intervenção do homem numa natureza modelada, enfatizando a condição artificial.

No caso do Museu parece ser importante o sentido afirmativo do corpo, quer na sua leitura de intervenção na paisagem, quer quanto à sua natureza tipológica que deve ser formalizada enquanto massa física, não deixando quaisquer ambiguidades e equívocos quanto à sua localização e conteúdo”

“Corpo: A forma / volume do corpo é triangular e resulta de três condições topográficas. O corpo triangular é lapidado pela geometrização abstracta da topografia, que no ponto mais alto do terreno (implantação) está entalado entre dois vales (Vale José Esteves e o Vale do Forno) e abre uma terceira frente ao encontro dos rios Douro e Côa”

“Matéria: Para a plasticidade da matéria do corpo interessa considerar três temas: a massa, textura e a sua cor. Das possibilidades analisadas prevalecem duas: o xisto como sendo o material local e existindo em abundância, mas também pelo factor de ser o suporte escolhido no Paleolítico para o registo das gravuras. O betão interessa pelas suas características plásticas e tectónicas, mas também como material que aparece recentemente na paisagem do Douro em construções de médio e grande porte. No entanto, este, usado na sua cor natural, cinzento, promoveria alguma ruptura com o terreno onde predomina o castanho amarelado do xisto. Deste modo a proposta é que a matéria do corpo seja betão com inertes e pigmento de xisto resultando numa massa híbrida. Esta composição é sugerida nas eiras de secagem da amêndoa que pontuam alguns terrenos da envolvente, embora com a predominante xisto.”

E agora nós.

“Architecture is bounded to situation” Steven Holl, in Anchoring

Existe alguma falsidade na forma como a grande maioria dos arquitectos portugueses encaram o exercicio de projecto.

Tendemos a reservar ao terreno grande parte do gesto, da abordagem conceptual. Se assim se entender, damos, invariavelmente, um protagonismo muitas vezes mentiroso ao lugar, tenha ele mais ou menos encanto. O lugar é condição original à arquitectura, mas não pode, ou não deve, sobrepor-se à categoria da solução. O lugar participa. Quando Dita, é mau sinal. E os ultimos trinta anos, que constituem o topo da nossa evolução cultural, têm vindo a comprovar que o arquitecto tende a ser intimidado com o sitio onde opera.

O vale do rio Côa não é, felizmente, lugar de beleza única no nosso país, é de resto bastante idêntico aos vales do Guadiana ou do Zêzere. Se há rio no nosso país de cujos vales nos podemos orgulhar é o Douro. Ali o lugar atinge outra dimensão, o azul do rio confunde-se com o verde da encosta, o sol reflecte, o ar cheira a humidade, a vertigem lá para baixo não intimida. Não se sente o abismo.

No Côa a beleza reduz-se. As praias fluviais acabam por desenhar o cenário provável para um rio que corre rasteiro por entre as margens rochosas. A beleza não se discute, mas também se não idolatra.

As três propostas apresentadas pelo júri do concurso para o Museu do Côa são achatadamente iguais. A coisa não é estranha, anos e anos a habituarmo-nos a desenhar a coisa ao nível do solo acabaram por nos incutir vicios quase genéticos. Bases que exercem uma presença nas nossas mentes quase ao nível do antigo Censor. E é curioso que hoje em dia quase todos os antigos censores são pessoas pouco tidas em consideração no que à sua inteligência dizia respeito.

Não vejo qualquer inconveniente em projectar um museu que nasce do terreno, que se crava no lugar, que o contamina e por ele se deixa contaminar. Tenho é uma enorme dificuldade em categorizar as soluções porque estas se apresentam como consequência inquestionável do mote sugerido pelo lugar.

Dizem Tiago Pimentel e Camilo Rebelo que as pinturas rupestres foram a primeira forma de Land Art e dividem o conceito em duas partes muito distintas. A primeira diz respeito à continuidade que o estilo incute no lugar, a segunda, distinta, “é a de trabalhar um corpo, desenhado especificamente para um lugar promovendo um diálogo intimo entre artificial/natural e aumentando deste modo a complexidade temática da composição do mesmo”. Pessoalmente discordo. Não só as pinturas rupestres do vale do Côa são um exercício pleno de interiorização, como a particularidade daqueles desenhos se percebe de forma singular, unica e particular. Perdida algures entre a noção de intransmissível e a vontade escondida de exprimir num determinado tempo e espaço, algo.

É essa a lição que o neanderthal tem para nos dar, ele exprimia ali a sua intelectualidade, servindo-se para isso, imagine-se, do lugar e daquilo que ele tinha para lhe oferecer não só enquanto palco da vida, mas acima de tudo como livro das suas experiências. O lugar retribuiu conservando o registo com que hoje nos emocionamos.

Acredito que a proposta tem muito mais para contar do que aquilo que nos diz, tem muito mais genialidade e cunho pessoal do que imposição mandona do lugar.

Parece-me que há uns milhares de anos atrás, o futuro homem português, era mais sincero naquilo que fazia…

3 Responses to “Sobre o Museu do Côa, e esta coisa portuguesa de chamar ao terreno a responsabilidade sobre o projecto”


  1. 1 vanessa cicarelli

    Muito bonito esse projeto. Me lembrou as Termas en Vals, projeto do Peter Zumthor, principalmente essa foto do interior … concluo com isso, que nada se cria, apenas se transforma. Saudações!

  2. 2 lagarta

    O meu querido professor :) O projecto que já começou a ser construido está bastante diferente destes primeiros renders de concurso, mas a originalidade e intenção do projecto continuam lá bem nítidas. Resta-nos esperar para ver a obra construida.

  1. 1 Museu do Côa « O Universo Numa Casca de Noz