
Existe um parente pobre no âmbito da arquitectura que teima em ser aceite, não só pelos profissionais do ofício, mas também por todos aqueles que, de uma maneira ou de outra, lidam ocasionalmente com a noção de reabilitar. A arquitectura lida com o problema de uma forma bastante desligada, porque, acima de qualquer outro motivo, intervir sobre um lugar cravado de costumes e hábitos torna-se um desafio estéril. As autarquias não facilitam, o povo contesta, as associações tomam posições defensivas e o processo arrasta-se décadas pelos corredores da burocracia e más vontades populares.
Daí que quando se propicia a intervenção sobre um determinado lugar ou edifício, o evento esteja quase sempre associado à degradação absurda do objecto de estudo, altura em que as consciências acordam de forma lenta e preguiçosa e de repente se apercebem que afinal “falta aqui qualquer coisa”. O fenómeno que se segue é sintomático da realidade paralela que se vive neste país, subitamente a coisa resulta, as pessoas aderem, o espaço funciona, e seguem-se as contaminações necessárias para que se leia o lugar a partir de uma intervenção em larga escala, alargando as fronteiras do exercício de reabilitação para lá do primeiro objecto de estudo. E assim se conseguem recuperar frentes urbanas, construir novos parques urbanos, ou simplesmente conferir alguma qualidade de vida a uma área específica que carecia de intervenção.
Exemplos não faltam, basta analisar o estado em que se encontrava a cidade de Loures em 1997 e compará-la com os dias de hoje. Em 10 anos fez-se funcionar uma das mais belas bibliotecas do país e recuperou-se um descampado para ali se fazer o parque da cidade que recebe anualmente feiras, festivais, outros eventos sociais e mais importante que isso, recebe crianças e jovens que ali encontram, diariamente, um lugar que também lhes pertence. O entusiasmo destas duas obras levou a autarquia a fazer intervenções de fundo na paisagem da cidade, e apesar de se continuarem a cometer crimes de incrível mau gosto (como o hediondo Loures Shopping) a verdade é que bastou a intervenção inicial para catapultar toda a cidade para um novo olhar sobre o que é afinal, redesenhar um lugar que se encontra entalado algures entre o passado e as mentes retrógradas que se continuam a agarrar a um saudosismo que não condiz com o vertiginoso repensar moderno. Mais exemplos existem, de Coimbra a Aveiro, de Sines a Lagos, da Avenida dos Aliados no Porto à nova Alta de Lisboa, as intervenções acontecem a custo e teimam em não serem encaradas pela população e poderes locais como processos fundamentais para a modernização de um país.
Cascais tem constituído um exemplo singular de ponderação ao nível da reinterpretação da cidade moderna, com o acréscimo das dificuldades impostas pelo desenho apertado que o progresso ali foi traçando. Apertada entre o caos dos acessos a Lisboa e a beleza, do outro lado, nos acessos a Sintra, Cascais tem vindo a colocar em causa situações nevrálgicas que se apresentam não só nestes dois pontos específicos (onde a edificação do monstruoso Cascais Villa no ultimo remate da linha marginal se constituiu como um rotundo falhanço, de resto continuam a ser os contentores comerciais a figurar como os grandes insucessos da arquitectura e urbanismo portugueses contemporâneos) mas acima de tudo ao nível da intervenção sobre infra-estruturas culturais, que se constituem como grandes pólos de apoio não só à população local como também ao turismo, que ali acontece em grande escala. Do novo Centro Cultural ao futuro Museu Paula Rego, projectado por Eduardo Souto Moura, e ao Museu de Arqueologia e do Mar, novos desafios têm sido lançados sobre o lugar, aos quais a população tem vindo a reagir, participando.
E normalmente, é aqui que surgem, mais uma vez, os problemas.
Se o nome de Eduardo Souto Moura consegue chamar os locais a um determinado nível de intelectualidade que lhes permite opinar sobre a arquitectura proposta, de forma quase categórica, e portanto, livre de qualquer suspeita, outros nomes tendem a ser desconsiderados, talvez não tanto pelos nomes, mas sim pela batata quente que lhes é posta nas mãos, disso dois casos são exemplo perfeito, que aqui se apresentam.
Ao primeiro foi reservada a possibilidade da construção apesar da contestação politica e social relativamente ao impacto da construção no desenho da paisagem costeira e o domínio publico da construção, é assinado por Gonçalo Byrne.
Hotel Estoril Sol – Gonçalo Byrne





Ao segundo se vão impondo os preconceitos crónicos de verticalidade de que, desconfio eu, nunca nos iremos libertar, o projecto do gabinete Promontório para uma torre na marina de Cascais e requalificação da estrutura marítima em que se insere, um exemplo belíssimo de referencial paisagístico com um potencial extraordinário também ao nível turístico, e cuja singular localização deveria bastar para que se percebesse que a sua edificação será sempre uma excepção e nunca um propósito para intervenções do mesmo género.
Marina de Cascais – Promontório




Não deixa de ser curioso que o maior arrojo neste conjunto de intervenções propostas para Cascais, se encontre precisamente junto à linha costeira e que as intervenções com um carácter mais generalista se façam acontecer inseridas na estrutura urbana da cidade, isto apesar de o grande elemento impositivo esteja sempre associado à verticalidade de que tiram proveito as propostas de Gonçalo Byrne e Promontório Arquitectos.
Costuma dizer-se que esta relação difícil com o vertical se prende essencialmente com o facto de na nossa história não constar nenhuma torre Eiffel ou nenhum Empire State Building, mas nem por aí o argumento colhe frutos, em Inglaterra ou em Espanha também não existem muitos exemplares de construção em altura, porém, a 30 St Mary Axe de Norman Foster ou a Torre Agbar de Jean Nouvel respectivamente, contrariam, categoricamente, esta desculpa gasta, máscara pertinente dos nossos preconceitos.
Teimamos em baixar a cabeça.