Archive for May, 2007

Sobre o despropósito, Lisboa, e outras trapalhadas afins…

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Entrevista recente de Helena Roseta à publicação Domingo (nº 10224) da passada semana conta com vinte e nove questões feitas à bastonária da Ordem dos Arquitectos, que quer ser também presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Em vinte e nove questões, por uma vez apenas Helena Roseta é solicitada a falar abertamente sobre arquitectura:

“Há muito que o urbanismo é o que lhe atrai na Arquitectura?

No primeiro dia de aulas da faculdade, um professor da Escola de Belas Artes perguntou-me qual era a razão de eu ter escolhido o curso. Respondi que queria resolver o problema da habitação em Portugal.”

Convenientemente nobres as intenções da adolescente Helena acrescento eu.

Existe uma tendência apressada do nosso povo em correr para o primeiro lugar sentado. Uma espécie de cansaço crónico que nos leva a procurar assento no primeiro momento disponível para descanso. O paralelismo imediato para com os lugares de destaque público é por demais evidente. Basta lembrar que há cinco anos apenas, Valentim Loureiro, hoje arguído num dos principais processos judiciais da nossa praça, liderava para além da Câmara Municipal de Gondomar, a Metro do Porto e a Liga de Clubes Profissionais de Futebol. Uma única pessoa presidia a uma das maiores autarquias do norte do país, à empresa responsável pelo mais importante esquema de transportes públicos a norte do país e à entidade reguladora da competição desportiva que mais capital injecta na nossa economia.

Hoje, Roseta, propõe-se como presidente à mais importante autarquia do país enquanto lidera aquela que será a Ordem profissional com maiores problemas para resolver no que ao mercado e condições de trabalho dos associados diz respeito. Neste país. Fez Helena questão de entregar o cartão do PS mas não colocou o lugar na Ordem à disposição.

É fácil perceber porquê. Sabe que não pode vencer Lisboa e sabe também que passado o mês de Julho poderá voltar tranquilamente para o Cais do Sodré desenvolver a sua actividade como Bastonária.

Aqui o problema exclui-se da pessoa para passar a constituir base no sistema que permite tamanha manipulação no desempenho de cargos públicos, com o consequente prejuízo para todos aqueles que dependem profissionalmente de uma gestão equilibrada da entidade que deveria ser um garante de apoio no desempenho e salvaguarda dos direitos da respectiva profissão, nesse sentido a Ordem dos Arquitectos continua a somar infelicidades na forma como vai dando ênfase ao célebre dito de Souto Moura, “O arquitecto é antropófago. Alimenta-se de si próprio”.

A coisa ganha outra dimensão quando atentamos no facto de que hoje em dia se acumulam cargos e cargos nos ombros de uma só pessoa para quem um dia com 48 horas seguramente não serviria para desempenhar as suas funções com exemplaridade num deles apenas. A tendência é para se tornar cada vez pior.

Nota:  Em meados de 2003 o Arquitecto Pedro Mendes foi obrigado a mudar uma conferência de apresentação  no edifício sede da Ordem do auditório para uma apertadíssima biblioteca onde metade dos presentes foi obrigada a abandonar o recinto por manifesta falta de condições da sala para um evento do género. Na altura, mesas, estantes, bancos, tudo serviu para tentar acompanhar a apresentação com um mínimo de dignidade. Nesse dia a conferência teve início no auditório mas foi transferida para a biblioteca uma vez que iria acontecer de urgência uma reunião da administração. Sentaram-se, para a dita urgência, 12 pessoas num auditório com capacidade para o triplo enquanto que na sala ao lado um profissional convidado pela organização se viu obrigado a apresentar alguns dos seus trabalhos em condições deficientes. Esperemos que daqui por dois meses, quando voltar para o seio dos Arquitectos, Helena Roseta entenda que nós não pedimos tanto esforço como Lisboa, pedimos apenas a estima de quem foi eleito para trabalhar por nós.

Urbanismo, pretérito imperfeito

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Defende Koolhaas que nos organizamos no caos. Que nos sabemos, antes, que só nos sabemos, organizar na desordem. Passo Delirious New York de uma ponta à outra a procurar entender esta suposta revelação de modernidade. Reconheço a critica social e estimo o importante resultado de um dos mais categóricos ensaios sobre sociedades contemporâneas que a intelectualidade arquitectónica produziu, mas tenho dificuldade em concretizar o resultado prático da tese. Urbanismo é confusão? Profunda descrença a minha.

Séculos de evolução acidental comprovam que foi no tempo que o desenho do espaço cravou o seu sentido. Da cidade medieval aos primeiros grandes planos, tudo aquilo, num certo tempo, num certo espaço, fez sentido enquanto noção urbana. De vida e experiência urbana entenda-se. Digo que não é a capacidade de reflexão que nos permite identificar um movimento ou um estilo, essa é característica intrínseca das artes plásticas, da pintura, do cinema, da escultura, da musica e de alguma arquitectura. Mas não reconheço o urbanismo enquanto disciplina pertença da arquitectura. Nem da engenharia. Nem de qualquer outra ciência que ao estudo das coisas se decida dedicar. Tampouco como arte, no sentido lato do termo. O urbanismo é resultado prático imediato, é experiência continua de avaliação justa e precisa, cuja percepção se nos relaciona com a crueldade do falhanço e o deslumbre do resultado acertado.

Koolhaas, como Clark, é sensível ao momento da avaliação mas desconsidera o acompanhamento histórico ao comportamento do homem no meio construído que o rodeia, enquanto animal que, como os outros, se guia por estímulos, por referenciais. No extremo, por coordenadas especificas que o localizam num ponto e lhe permitem estimar distâncias e ponderar uma acção no espaço. E é aí, no senso comum, que ao homem é útil o conceito de urbanismo, que no caso se confunde com noções de rua, estrada, avenida, alameda, rotunda, casa. Prédio. Edifício. E é na mediação da sua própria proporção com a da envolvente que o homem se movimenta. Para ele, é tudo quanto importa. Eventualmente, de quantas mais referências disponha, melhor se comporta na relação com o lugar. Certamente, quanto melhor estruturado o mesmo esteja, mais imediata será a resposta que dará à situação. E urbanismo, como a arquitectura propriamente dita, é muito (tudo ?) sobre situação.

Mas o urbanismo, como a arquitectura, também é sobre linguagem corporal. E depende muito da linguagem corporal. A maior ou menor escala, é na expressão física das coisas que consideramos a relação que mantemos com elas. No caso, numa cidade, o lugar em que as coisas estão vem por acréscimo e por elementar consequência.

Vejo passar de repente na RTP Memória imagem várias da frente oriental da Lisboa ribeirinha há pouco mais de 10 anos atrás, num tímido mas prometedor plano para aquela que viria a ser a Expo’98, mais tarde Parque das Nações, actualmente qualquer coisa que se não sabe bem o que pretende ser, mas que facilmente percebemos aquilo que ali se pretendeu fazer. O resultado é falho porque vem por adição. Uma década de adição kitsh a uma única ideia bem intencionada resulta num lugar de permanência quase única e exclusivamente na dimensão vertical, agressiva. Por fora o profundo desgosto de um patético construir precoce e incipiente.

Curioso, um quilómetro para cima mora um dos mais notáveis exemplos de desenho urbano com que Lisboa se pode orgulhar. Nos Olivais há espaço, há distância. Há acontecimento e consequência.

Anda muita gente por ali, de manhã à noite. Uma ideia inovadora com 40 anos de existência.

A teoria do caos cai por terra, a um quilómetro daquilo que poderia ter sido um tratado contemporâneo, hoje, de desenho urbano.

Parece ter-se aprendido com isso, mais a norte surge hoje a Alta de Lisboa com reminiscências salutares ao que foi em tempos a generosa pretensão dos Olivais.

Veremos quanto tempo dura o bom senso em favor do também precoce e caótico instinto construtivo, a coisa anda quase sempre de mãos dadas com o capital.

É sempre mau sinal.  

Teatro Popular de Niteroi – Oscar Niemeyer

Inaugurado a 5 de Abril de 2007, o Teatro Popular de Niteroi é, mais do que um tratado de jovialidade, o exemplo notável de que o toque do artista se perpetua no tempo.

O exemplo Niemeyer atinge outro grau de notoriedade quando consegue deslumbrar em gestos limpos de exibicionismo, com uma generosidade que serve apenas para valorizar um arquitecto que continua a sua procura particular pela excelência.

Um desfile de puro bom gosto.

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Semanas temáticas da Arquitectura Nacional

O trabalho desenvolvido pelo Arquitectura.pt é, sobretudo visto pela perspectiva de quem diariamente acompanha o esforço daqueles que com as suas limitações vão mantendo o projecto vivo. Eventualmente o grande propulsor da discussão sobre arquitectura em Portugal.

É limpo, abrangente e livre de preconceitos, dos miúdos aos graúdos, por ali se vão estabelecendo metas de conversação que têm ao longo deste primeiro ano de existência criado o espaço necessário para a divulgação daquilo que se faz na nossa arquitectura, e os resultados têm sido notáveis. E eu próprio muito me orgulho do salto que a comunidade deu e de tudo aquilo que, perdoem-me a falta de moderação, “Temos” vindo a alcançar.

As semanas temáticas da arquitectura nacional pretendem abrir o panorama da nossa arquitectura sobre uma série de áreas especificas que serão discutidas ao longo dos meses de Maio e Junho.

Vale a pena passar por lá

Mundo Cão, sobre o rock português

Arrebatador.

Sabe bem ouvir rock de qualidade em português. As recentes incursões pela nossa lingua demonstram que as décadas consumistas de produção internacional nos roubaram a capacidade de considerar projectos falados em português, de Portugal entenda-se.

O cinema deu saltos de gigante com Alice (Marco Martins) e Coisa Ruim (Tiago Guedes e Frederico Serra) e bem ou mal a televisão vai-se habituando a ver o corropio de actores e quase actores (e gente bonita que gostava de representar) a desfilar diariamente em horário nobre. É Nobre.

A música nunca perdeu a esperança, projectos em português foram sempre uma referência na nossa cultura que está impregnada do contributo de autores e compositores, em grupo ou a solo e em estilos para todos os gostos. O rock bem ou mal teve sempre direito ao olhar de soslaio por parte de quem na musica deveria apostar, não que a produção não se faça com qualidade mas o estilo foi quase sempre dominado por referências que datam de há anos, décadas, que com o tempo se tornaram em peças de coleccionador, e há quem ouça os GNR, Xutos, Rui Veloso ou os UHF.

Nos últimos anos surgiu a febre do inglês, bem desmascarada (e mal amada) por Sam The Kid no recente “Pratica(Mente)”. Rock que de resto, para todos os efeitos, reacendeu-se no final dos anos 90 com os Silence 4 e os Blind Zero a disporem o seu talento à internacionalização. A vertiginosa ascenção do grupo de David Fonseca e o legado que os nortenhos vão construindo ano após ano levaram à explosão recente de mais e mais projectos em inglês, culminando com os Fingertips.

Existe depois a face verdadeiramente qualitativa do rock em português que nunca deu o salto para a merecida spotlight. Ornatos Violeta e Mão Morta tentaram o salto mas não havia click porque faltava abertura suficiente à aceitação.

O esforço de Manel Cruz deu em… pouco. Em 2002 terminavam os Ornatos Violeta, seguiram-se os Pluto que nunca atingiram a raiz genuína do pecado original, ficando inteligentemente reservado o legado para os paralelos Supernada. Adolfo Luxúria Canibal vai conseguindo desdobrar o seu talento por outros projectos que têm agora espaço suficiente para realmente acontecerem.

O primeiro trabalho dos Mundo Cão é uma surpresa arrepiante. Pedro Laginha, Actor (actor, ponto) também canta, e canta muito bem. A guitarra e o baixo tocam no ponto e a bateria acompanha-os com o requisito necessário de análise psicanalista que o rock descomplexado confere quase sempre à percussão.

Sem rótulos, com muito para nos contar, o álbum é fantástico.

Mundo Cão, Mundo Cão

Mundo Cão

La Philharmonie de Paris, Jean Nouvel

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É incontornável a associação de um determinado tipo de imagem a um arquitecto. O gesto (ou os tiques) acabam por com o tempo tomar o pulso do autor. Uma espécie de sobreposição do “Eu, autor” perante as massas em deterimento do “Eu, artista”.

O fenómeno constata-se com alguma facilidade e em alguns casos traduz a falta de capacidade do autor (e não, artista) de abordar diferentes estratégias e/ou posições relativamente à forma como entende o desafio. Existem também os que pura e simplesmente fazem prática da linguagem com que pretendem actuar. Ghery em Oslo não é diferente de Ghery em Tóquio, em Paris, no Rio, em Lisboa. E Ghery não se importa minimamente com isso, para lá da descoberta da forma, na criação de um filão que ficará inscrito na história, fica também a antevisão do autor pela mera observação do projecto. “Eu, fulano”.

Jean Nouvel foi sempre um caso sui géneris no que à sua apresentação pelo desenho diz respeito, e nos ultimos tempos tem tido a capacidade de nos mostrar diferentes pontos de vista, como o demonstram as imagens recentes divulgadas na competição internacional para a sede da Philharmonie de Paris, a ser instalada no Parc de La Villette, na capital francesa, lá para 2012.

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Hill House – Johnston Marklee & Associates

“Housing is about solution, not about a problem” L Khan

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O desenho em arquitectura tem normalmente uma atitude gananciosa relativamente à forma como aborda o problema. E essa é máxima corrente.

Não é estranho que para o arquitecto, trabalhar com um maior numero de variáveis se torne cada vez mais aliciante, uma vez que a dificuldade no tratamento do processo vai, aos poucos, aumentando a forma como em contrapartida se responde ao mesmo. E assim se propôe a solução, assente num problema que procura resolver, ou, em ultimo caso, subverter.

Exemplos de projectos de habitação cujo projecto actua de forma quase desafiante relativamente à situação são normalmente tão mais competente quanto mais dificil seja o problema base. A coisa costuma resolver-se no interior. No exterior, sim, ou não…

Um lote irregular e uma pendente difícil eram pressupostos incontornáveis para a realização daquela que o gabinete Johnston Marklee & Associates viriam a transformar na Hill House. O nome é pouco feliz.

O projecto é notável.

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Via > Arkinetia

Arquivo fotográfico da CML

Ao retomar a navegação pela internet chegou via mail o endereço do Arquivo fotográfio da CML, directório absolutamente extraordinário onde constam milhares de registos fotográficos recolhidos no passado e que nos mostram hoje pedaços da cidade que se encontram actualmente com volumes de construção desmesurados e desconexos.

Introduz ponderação na forma de analisar a cidade, permite observar o atraso do país no periodo pré-25 de Abril e oferece um alegre banho de nostalgia a quem pode, por ali, identificar lugares que conheceu no Portugal moderno de forma bem diferente daquilo que foram em tempos.

Ficam alguns exemplos:

Campo Grande, inicio do século e anos 60:

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Obras de construção da segunda circular:

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Construção da Avenida Estados Unidos da América:

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Construção da futura Ponte 25 de Abril:

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Valem a pena as horas que as fotografias nos roubam, o valor nostálgico do arquivo é notável.

England – 30 St Mary Axe

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Confesso que na viagem a Londres, muita curiosidade ocupava a percepção da noção de impacto no skyline de uma cidade que edificios como a Gherky Tower promovem.

E o impacto é, no caso, quase nulo.

A peça desenhada pela Foster & Partners constitui um marco na zona baixa conhecida como “City”, que antecede na margem direita do Thames a London Bridge ao perto, e, mais distante, o percurso de atravessamento desde a St Paul Cathedral pela Millenium Bridge, até à Tate Modern, o icone que completa o diálogo em altura mediado pelo rio e pelas pontes, na margem esquerda.

É notável como uma peça com esta linguagem corporal consegue, quase permanentemente, passar despercebida na urbanidade de uma cidade que vai atropelando o rio com um descontrolo atroz  do desenho ribeirinho, e se assume em altura apenas na praça em que está implantada, a uma distância em altura considerável daquela que a escala humana ocupa, com uma pureza de forma e uma falta de delicadeza no toque com o lugar que quase se considera. A Gherky é abrupta, e assim vai fazendo sentido.

Pura e cristalina, com uma postura paisagística  notável, uma organização generosa ao nível de entrada, e um toque com o sol, que lhe pisca o olho lá de cima, por entre o perimetro que desenha conforme sobe, em altura, espreitando pelo meio de setecentos anos de história de construção.

Moderna mas eficaz. Surpreendente.