
Defende Koolhaas que nos organizamos no caos. Que nos sabemos, antes, que só nos sabemos, organizar na desordem. Passo Delirious New York de uma ponta à outra a procurar entender esta suposta revelação de modernidade. Reconheço a critica social e estimo o importante resultado de um dos mais categóricos ensaios sobre sociedades contemporâneas que a intelectualidade arquitectónica produziu, mas tenho dificuldade em concretizar o resultado prático da tese. Urbanismo é confusão? Profunda descrença a minha.
Séculos de evolução acidental comprovam que foi no tempo que o desenho do espaço cravou o seu sentido. Da cidade medieval aos primeiros grandes planos, tudo aquilo, num certo tempo, num certo espaço, fez sentido enquanto noção urbana. De vida e experiência urbana entenda-se. Digo que não é a capacidade de reflexão que nos permite identificar um movimento ou um estilo, essa é característica intrínseca das artes plásticas, da pintura, do cinema, da escultura, da musica e de alguma arquitectura. Mas não reconheço o urbanismo enquanto disciplina pertença da arquitectura. Nem da engenharia. Nem de qualquer outra ciência que ao estudo das coisas se decida dedicar. Tampouco como arte, no sentido lato do termo. O urbanismo é resultado prático imediato, é experiência continua de avaliação justa e precisa, cuja percepção se nos relaciona com a crueldade do falhanço e o deslumbre do resultado acertado.
Koolhaas, como Clark, é sensível ao momento da avaliação mas desconsidera o acompanhamento histórico ao comportamento do homem no meio construído que o rodeia, enquanto animal que, como os outros, se guia por estímulos, por referenciais. No extremo, por coordenadas especificas que o localizam num ponto e lhe permitem estimar distâncias e ponderar uma acção no espaço. E é aí, no senso comum, que ao homem é útil o conceito de urbanismo, que no caso se confunde com noções de rua, estrada, avenida, alameda, rotunda, casa. Prédio. Edifício. E é na mediação da sua própria proporção com a da envolvente que o homem se movimenta. Para ele, é tudo quanto importa. Eventualmente, de quantas mais referências disponha, melhor se comporta na relação com o lugar. Certamente, quanto melhor estruturado o mesmo esteja, mais imediata será a resposta que dará à situação. E urbanismo, como a arquitectura propriamente dita, é muito (tudo ?) sobre situação.
Mas o urbanismo, como a arquitectura, também é sobre linguagem corporal. E depende muito da linguagem corporal. A maior ou menor escala, é na expressão física das coisas que consideramos a relação que mantemos com elas. No caso, numa cidade, o lugar em que as coisas estão vem por acréscimo e por elementar consequência.
Vejo passar de repente na RTP Memória imagem várias da frente oriental da Lisboa ribeirinha há pouco mais de 10 anos atrás, num tímido mas prometedor plano para aquela que viria a ser a Expo’98, mais tarde Parque das Nações, actualmente qualquer coisa que se não sabe bem o que pretende ser, mas que facilmente percebemos aquilo que ali se pretendeu fazer. O resultado é falho porque vem por adição. Uma década de adição kitsh a uma única ideia bem intencionada resulta num lugar de permanência quase única e exclusivamente na dimensão vertical, agressiva. Por fora o profundo desgosto de um patético construir precoce e incipiente.
Curioso, um quilómetro para cima mora um dos mais notáveis exemplos de desenho urbano com que Lisboa se pode orgulhar. Nos Olivais há espaço, há distância. Há acontecimento e consequência.
Anda muita gente por ali, de manhã à noite. Uma ideia inovadora com 40 anos de existência.
A teoria do caos cai por terra, a um quilómetro daquilo que poderia ter sido um tratado contemporâneo, hoje, de desenho urbano.
Parece ter-se aprendido com isso, mais a norte surge hoje a Alta de Lisboa com reminiscências salutares ao que foi em tempos a generosa pretensão dos Olivais.
Veremos quanto tempo dura o bom senso em favor do também precoce e caótico instinto construtivo, a coisa anda quase sempre de mãos dadas com o capital.
É sempre mau sinal.
















2 responses so far ↓
1 Marco // May 29, 2007 at 1:01 am
Bom texto Ivo mas deixa-me que diga o meu desagrado em pontos que toca no que dizes…
Os tempos mudam os provérbios também …
Estão a por o “rossio na rua da betesga”
betesga98 que grande que ela era agora parece um sótão com caixas aos montes….Não percebo onde anda a ordem , ou melhor suspeito anda de mãos dadas aos capitalistas a passear a beira mar… vista grossa só tinha conhecimento de dois casos os camelos que pelo que dizem também existem na margem sul, outras são os camelos de palavras lambidas dando entrevistas tentando se passar por pessoas interessantes e preocupadas” O que interessa é fecharmo-nos num auditório a fazer vénias a artistas internacionais a seguir sintomas de bába a escorrer pela face, e vai de pagar 200 euros para não ver o que se passa fora dessas paredes… Assim se segue planos como deve ser e assim enche os bolsos e assim de candidata a CML…
Existe um novo aparelho de ginástica no desporto o trampolim de salto para a CML , deixa lá a arquitectura de parte as nossas cidades , o nosso pais , a profissão e os que estão a entrar na profissão…
Gostava de saber para que serve a Ordem dos Arquitectos, ainda não consegui perceber , aceito que seja insuficiência psíquica minha, neste caso se forme outra ordem , Ordem para perceber para que serve a Ordem dos Arquitectos, existe numero suficiente para chegar quase ao numero de inscritos na Ordem…
Ass:
Marco ( estagiário )
Um dos muitos que faz estágio recebe quase nada e em outros casos nada e gasta quase 500 euros só na formação para admissão á ordem ,e vá de cobrar 150euros ,30 contos por ciclo de conferencias. Digam lá se a ordem não serve os nossos interesses em aprofundar os nossos conhecimentos no âmbito que sejamos melhores profissionais…
Existe orçamento para a trienal , mas pagar aos que lá vão estar a dar apoio a exposições nada isso é de uma ordem que serve os seus. Recrutamos uns estudantes uns estagiários com vontade de fazer muito e mais que muito que eles ate nos agradecem mas mesmo assim acesso ás conferencias é negado… Digam lá se não é um inteligência capitalista….
Ivo companheiro desculpa o desabafo mas o que aqui escrevi também vai para a soberana Ordem
Os estagiários que não se mexam e estaremos a servir de bandeija e de joelhos aqueles que nos olham de cima de sobrolho levantado….
2 Ivo Sales Costa // Jun 2, 2007 at 7:24 pm
É bom ter-te por aqui Marco, infelizmente o tempo para escrever com um pouco de tino é que é muito escasso.
Concordo em enorme parte com o que dizes, como de resto o comprova o post que fiz no dia seguinte e como comprova também a minha participação na discussão sobre o voluntariado da trienal no arquitectura.pt. Remamos todos para o mesmo, no fundo o objectivo é comum, não deixa de haver esperança na mudança de rumo mas que a incerteza se apodera de mentes que na maior parte dos casos ainda nem sequer chegou aos 30.. isso é incontornável. Infelizmente.
Um grande Abraço Amigo!
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