Ora façam o favor de trabalhar…

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É comum observar as queixas dos jovens arquitectos portugueses em conseguir espaço para participação em concursos nacionais. Li há pouco tempo uma intervenção de um dos colaboradores do AtelierMob nesse sentido com a qual me senti profundamente identificado e onde o mesmo fazia a ressalva da total impossibilidade de um arquitecto com menos de 10 anos de prática poder candidatar as suas ideias a discussão publica em Portugal.
Todos conhecemos o Sitio, é parte integrante da nossa blogosfera e um contributo absolutamente notável para o panorama arquitectónico do país, mas fica aqui o link para o Death By Architecture, também com iniciativas muito aliciantes e, imaginem, com concursos em que as respectivas organizações permitem mesmo aos recém-licenciados que exponham a sua criatividade na resolução de um determinado problema.

É uma boa forma de começar a ir para fora, cá dentro.

“Você é vitima de si mesmo, e de todos nós também”

Não há promoção de arquitectura em Portugal. Facto.

Aquilo a que se poderia eventualmente apelidar de promoção de arquitectura é algo de abominável, normalmente associado ao fenómeno imobiliário. Vejo o Magazine Imobiliário na SicNoticias e reconheço que o povo gosta do que vê.

Fala-se em Golfe e cadeiras ao sol, utiliza-se o termo ‘Condomínio’ e somam-se áreas, umas atrás das outras. Milhares e milhares de metros quadrados a atestar peças de péssimo gosto. Vãos horríveis, paisagismo inexistente, implantações ridículas e subversão total do espaço interior para o material não dar prejuízo.

Pessoalmente não me preocupa. A força dos objectos por ali promovidos é quase nula, apesar de lamentar, e muito, que o tempo de antena não seja aproveitado para mostrar ao português, residente ou não, que o bom gosto também se educa. E é de educação fácil.

Daí que no que toca a obras às quais seja mais sensível, costume aguardar com alguma expectativa a forma como se resolve divulgar a coisa ao grande público, e não é novidade por aqui que o futuro Estoril Sol Residence, antigo Hotel Estoril Sol, é uma das obras relativamente às quais guardo alguma expectativa, e aqui assume-se um novo gosto no marketing uma vez que é construção polémica.

O falhanço é arrasador. Mas por incrivel que pareça resulta. E eu apoio a campanha.

Assistimos a 4 minutos de um video promocional que daria a Quentin Tarantino uma verdadeira lição sobre o que é a essência do cinema Série B, pronto a passar algures entre a projecção de DeathProof e Planet Terror. É sofrível. E é por isso que é tão bom (tal como os dois espécimes de Tarantino e Rodriguez).

Apresentam-se os futuros residentes ao estilo Melrose Place meets Beverly Hills, meets O.C. na versão low cost, falada e interpretada em fútil português de Lisboa aux Cascais.  O nome de Gonçalo Byrne aparece no meio da coisa algures entre o “Vamos lá arranjar espaço para promover o tipo” e o “Já metemos o nome do arquitecto?” e o resto é puro decor espalhafatoso que bem exprimido não nos serve de nada.

É acima de tudo idiota e non-sense. É tudo aquilo que achamos normalmente das pessoas que ali se colocam como potenciais compradores de um t1 a milhares de euros. E é assim mesmo que os próprios se promovem.

A venda do Estoril Sol é autêntica porque se baseia no que de mais falso há na nossa sociedade, nas elites milionárias que se esforçam, e muito, por parecerem interessantes. Não correspondendo o meio ao homem, há que inserir o homem no meio. Constrói-se o meio e ponto final.

Aquilo que será aquele grande edificio daqui por 20 anos, o tempo confirmará com a categoria da sua paciência, mas uma coisa é certa, ao largo da sua fachada passará o desprezo profundo do povo.

E é pena. Por tudo. Paga-se o prejuízo ao preço da boa arquitectura. O arquitecto não se preocupa porque se distancia o suficiente do problema. Não tem culpa nenhuma no cartório, mas também não se livrará dos olhares de soslaio.

Filmport Port Land – Alsop

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É o fashion-building do momento e é um valente exercicio de arquitectura de autor. Mais uma obra assinada à partida e à chegada pela vontade expressa do artista em fazer valer pelo aspecto exterior a mais valia da sua espantosa inteligência.

Muito interessante a forma como o culto da genialidade se adapta ao jeito do interesse da comunidade arquitectónica. Permite a quase natural validação de qualquer raciocínio, seja ele de que índole for. O mau gosto torna-se subjectivo a partir do momento em que se identifica o lápis que desenhou o boneco.

O exterior é em aço Cor-Ten, um mal nunca vem só.

“Deve ser uma espécie de manifesto”, diz-se, e o kitsch aqui tão perto…

Siza on N.Y. Times

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 É um artigo de paciência aquele que Nicolai Ouroussoff escreveu para o The New York Times acerca do percurso e forma de trabalho de Álvaro Siza. A biografia repetida que se conhece é apresentada de uma forma mais aberta e chegada a um publico alvo que costuma fugir à lenga-lenga da história da construção com que os criticos normalmente enchem os artigos que escrevem acerca de um qualquer arquitecto sobre o qual resolvam opinar.

É muito interessante esta forma mais americanizada de procurar divulgar a arquitectura pelo ponto de vista de quem procura simplesmente saber. E saber é muito diferente de ‘conhecer’.

Dá-se a conhecer Siza, e todos deveriamos aprender com isto:

IT’S unlikely that the Portuguese architect Álvaro Siza will ever enjoy the fame of, say, a Rem Koolhaasor a Frank Ghery architects who have vaulted to international attention by demolishing accepted orthodoxies.

For one thing Mr. Siza rarely builds outside Europe, while his celebrity counterparts shuttle around the globe.

He has spent his career quietly working on the fringes of the international architecture scene. He dislikes long plane flights, mostly because of a decades-long smoking habit and recent back problems. And he still seems most at ease in Porto, Portugal, his native city, where he can often be found sketching in a local cafe with a pack of cigarettes within easy reach.

Yet over the last five decades Mr. Siza, now 74, has steadily assembled a body of work that ranks him among the greatest architects of his generation, and his creative voice has never seemed more relevant than now.

His reputation is likely to receive a boost from his museum here for the Iberê Camargo Foundation, his most sculptural work to date. Its curvaceous bleached white exterior, nestled against a lush Brazilian hillside, has a vibrant sensuality that contrasts with the corporate sterility of so many museums today.

Yet to understand Mr. Siza’s thinking fully, you must travel back to his earlier buildings. Set mostly within a few hours drive of Porto, an aging industrial hub in northern Portugal, they include a range of relatively modest projects, from public housing to churches to private houses, that tap into local traditions and the wider arc of Modernist history. The best of them are striking for a rare spirit of introspection. Their crisp forms and precise lines are contemporary yet atavistic in spirit. The surfaces retain the memory of the laborer’s hands; the walls exude a sense of gravity.

His apparent reluctance to stray too far away from home is not simply a question of temperament. It is rooted in deeply felt beliefs about architecture’s cultural role. In a profession that remains stubbornly divided between nostalgia for a saccharine nonexistent past and a blind faith in the new global economy, he neither rejects history nor ignores contemporary truths. Instead, his architecture encapsulates a society in a fragile state of evolution, one in which the threads that bind us need to be carefully preserved.

A pensive, heavyset man whose face is partly masked behind a trim beard and wire-frame glasses, Mr. Siza has the air of an Old World intellectual. Among architects his reputation began to flourish in the late 1970s and early ’80s, as Portugal and Spain were emerging from decades of isolation imposed by the rightist dictatorships of Salazar and Franco.

By the mid-’80s, he had emerged as an important creative voice in Europe’s architectural milieu, with commissions that included a low-income housing complex in Berlin and an apartment and shopping complex in The Hague. In 1987 the dean of Harvard’s Graduate School of Design, the Spanish architect José Rafael Moneo, organized the first show of Mr. Siza’s work in the United States. And he received broad attention when he captured the 1992 Pritzker Prize, his profession’s highest honor.

Mr. Siza’s projects are notable for a delicate weave of allusions to specific regions and cultural figures. In the 1950s and ’60s he worked closely with the Portuguese Modernist Fernando Távora, who instilled in him both a strong respect for the traditions of Portuguese architecture and an understanding that no creative work has real meaning unless it is anchored in the present.

“Távora was a very cultivated man,” Mr. Siza told me over dinner in Porto Alegre. “He was very interested in the traditions of Portugal. But he was interested in the continuity of that tradition, of how it could be the basis for a modern transformation not in any one architectural style. This was very important for me.”

Among Mr. Siza’s earliest works was a mesmerizing public pool complex he created in the 1960s for Leca da Palmeira, a fishing town and summer resort north of Porto. Built on a rocky site on the edge of the Atlantic, the project is hidden below an existing seawall, and is virtually invisible from the city’s peaceful seaside promenade.

To reach it you descend a narrow stairway and then pass through a series of open-air changing rooms with concrete walls before emerging on the shore. The pools themselves are nothing but low, gently curved concrete barriers between the rocks, their languid forms trapping the seawater as it laps over them to create big natural swimming areas.

The rough concrete walls fit so naturally into the context of the sea wall, the rocks and the ocean that they feel as though they’ve been there for centuries. Yet by drawing the procession through the site, Mr. Siza is also able to build a sense of suspense that is only released once you finally immerse yourself on the water.

He builds on these ideas in later projects, creating clean geometric shapes that seem to have been distorted in order to fit them into their surroundings. One of his most mesmerizing buildings is a small two-story structure designed for the University of Porto’s architecture faculty that frames three sides of a small triangular courtyard. One edge of the building follows the line of an existing stone wall; another orients the viewer toward a long narrow garden on a bluff. The entrance is cut out of a back corner, giving the impression that the building cracked open as Mr. Siza strained to adapt it to the site. It’s as if the design is a kind of hinge, linking past, present and future.

Mr. Siza’s ability to evoke a powerful sense of historical time through his architecture struck me with special force a few years ago when I visited a small church complex he designed for the dusty working-class town of Marco de Canavezes, a short drive east of Porto. The beauty lies in the slow pace at which its meaning unfolds. A tall narrow building in whitewashed concrete on a steeply sloping site, it is anchored to the ground by a beige granite base. Its three sections frame a small, unadorned entrance court.

That simplicity, altogether deceptive, becomes a tool for sensitizing you to your environment. As you move through the church, for example, the smoothly polished stone floor changes to wood, allowing for an intuitive transition from the formality of the entry to the intimacy of the main worship space. Sunlight spills down through big curved scooped openings near the top of the walls in a modest nod to Le Corbusier’s chapel at Ronchamp, a masterpiece of high Modernism.

But the resonance of the building does not hit home until you proceed through the entire sequence of chambers that make up the church. A narrow passageway descends from the main worship space to a mortuary chapel. From there you step out into an arcaded courtyard with a solitary tree. Then you can climb back up a stone staircase along the church’s exterior and circle back to the front.

It’s like a measured procession from the world of the living to the world of the dead, and back again, one that only unfolds slowly overtime.

“The big thing for me is the pressure to do everything very quickly,” Mr. Siza said to me recently over drinks. “That is the problem with so much architecture. This speed is impossible. Some people think the computer is so quick, for example. But the computer does not think for you, and the time it takes us to think does not change.”

The Iberê Camargo Foundation is in many ways the ideal project for Mr. Siza. He has deep emotional ties to Brazil. His father, an electrical engineer, was born there. And Mr. Siza has always been enchanted by Brazil’s early embrace of Modernism and its tinge of hedonism.

“My father told many stories about Brazil,” he said. “When I came here the first time 20 years ago, I felt like in Portugal, but with a tropical atmosphere. More free.”

That freedom is evident in the sculptural exuberance of the museum, which is expected to open sometime next year. The building was conceived over a decade ago by a local industrialist to house the work of Iberê Camargo, a Brazilian artist revered locally for his somber figurative paintings and etchings.

As with all of Mr. Siza’s best work, the museum’s forms forge a closely calibrated architectural narrative, regulating your pace through the site. Visitors approach the entry on a narrow path set along a series of low, one-story structures that house a print shop, artists’ studios and cafe. Your eye traces the long low line of the roof, which is interrupted by a small sunken court before picking up again, setting up a gentle rhythm that draws you deeper and deeper into the site.

Once you reach the main entry court, you can turn back and catch a diagonal view across the cafe of the town center, with the slender smokestack of a former thermoelectric plant. The view locks the museum back into the cityscape, as if to remind you that art is woven into everyday life.

Most magically, cantilevered passageways curl across the front facade like an enormous hand. When you gaze up in the courtyard, it’s as if the building were embracing you.

The foundation building is still incomplete, and when I arrived, Mr. Siza was still fiddling with details. Scaffolding filled the main atrium; at one point he spent a half-hour or so discussing the position of a light fixture.

You could already feel the force of the interior. In a twist on Frank Lloyd Wright’s rotunda at the Solomon R. Guggenheim Museum in New York, Mr. Siza located all the galleries around the towering central atrium. Visitors will wind through a sequence of galleries that overlook the atrium on each floor, slipping repeatedly into long fingerlike passageways to reach the next level.

Mr. Siza uses light to heighten the contrast between the galleries and the dark narrow passageways. A thin slot at the top of the atrium wall allows sunlight to wash over its white surface, enlivening the interior. Big windows frame views of the Guaíba River. By contrast the curved passageways have the aura of secret spaces. Only a single small window framing a view of the city punctures each one.

Ultimately the passageways are yet again a way of drawing out the time spent in thought, allowing us to absorb more fully what we have just experienced. In a way they are Mr. Siza’s rejoinder to the ruthless pace of global consumerism.

In that respect the building echoes projects by a sprinkling of architects who are seemingly in revolt against the psychic damage wrought by a relentless barrage of marketing images. Mr. Moneo once designed a cathedral in Los Angeles whose entry sequence was so drawn out that the journey felt like doing penance.

Like Mr. Moneo, Mr. Siza seeks to prolong the architectural sequence to its furthest extreme. The question is whether the public will feel at ease in this building. How will the contemporary art lover, accustomed to constant diversions, deal with this level of silence?

“All of us have doubts about our work,” Mr. Siza said one evening after a tour of the site. “I worry I am working in a way that doesn’t conform to our times. So I wonder, should I accept more the times that I live in? But I’m not so sure that this will lead to a good answer to improve the situation of people in the world.”

Whatever his doubts, his vision of an architecture rooted in a historical continuum seems vitally important in a world fractured by political conflict and ethnic hatreds. If an earlier generation of Modernists believed that architecture could play a vital role in spurring us along the road to utopia, we now know that progress is no longer a guarantee. Almost any society, it turns out, can quickly and unexpectedly descend into darkness and savagery.

At the same time the march of global capitalism has made faith in technology, a Modernist dogma, seem less and less attractive. And if the bold and delirious forms churned out by celebrated architects today mirror social upheavals, they can also serve to camouflage the damage.

Mr. Siza’s architecture suggests a gentler, alternate path. It does not promise a better world but reminds us that the threads binding a civilized society can be rewoven. And in an age that rarely bothers to distinguish shallow novelty from true moral engagement, that is an act of courage.

Serpentine Gallery, espaço 2007

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O pavilhão adjacente à Serpentine Gallery deste ano terá a assinatura do artista Olafur Eliasson e Kjetil Thorsen do gabinete norueguês Snohetta, os detalhes da construção podem ser consultados no 0lll e infelizmente não haverá tempo para chegar a Londres antes de a coisa ser desmontada pelo que se aguardam as fotografias do pavilhão já construído e em uso. E o uso assume este ano uma importância redobrada uma vez que recorta algum do eletismo associado à concepção destas intervenções itinerantes no Hyde Park. A exposição abrirá-se-à não só a arquitectos e publico interessado em geral, mas também a cientistas. A instalação culminará com uma maratona laboratorial de 48 horas onde se irá explorar a “Arquitectura dos Sentidos”, a observar com atenção.

Olafur Eliasson conta com algumas intervenções em arquitectura, e o Life Without Buildings disponibilizou algumas imagens do 2005 Thyssen-Bornemisza Limited Edition Art Pavilion em Veneza que foi na altura desenhado por David Adjaye

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O pavilhão foi desenhado especificamente para exposição de uma das mais famosas peças de Eliasson, Your Black Horizon, uma composição plástica de clara vocação arquitectónica descrita assim por David Adjaye:

“In the windowless main space, a horizontal line at eye level serves as the primary light source. Located in a slot in the construction of each wall, the light slowly changes colour every 15 minutes and moves through the spectrum of the Venetian sky as filmed on a single day.”


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O pavilhão é resultado natural da continuação fisica da intervenção artistica, assumindo-se no final uma cumplicidade ao nível da contaminação entre o trabalho do artista e do arquitecto.

No final, fala-se sempre da mesma coisa, tratando no entanto dois assuntos distintos.

Completam-se, actuando cada um na sua disciplina de excelência:

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Mais informação via LifeWithoutBuildings.net

Luas Bridge @ Dublin Docklands, Future Systems

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O Royal Canal nas Docklands de North Lotts, Irlanda, será o cenário para a arrojada intervenção a grande escala do parque linear para aquela frente de cidade, a ponte Luas Bridge será a peça central de ligação entre as margens e assume deste modo um carácter fundamental ao nível da capacidade de estruturação do lugar.

O projecto conjunto da Future Systems com a Arup é o resultado natural da abordagem ao problema, onde numa unica ligação teriam de conviver, ao mesmo nível, o automóvel e o transporte urbano simples e sobre carris e ainda quem por ali passe na transição entre as duas margens do canal e é na introdução da variável à escala humana que o objecto ganha força, alargando quanto baste para alcançar descanso sobre a linha de água e assim se poder debruçar sobre a mesma. Aí existem pequenos e graúdos, a pé ou de bicicleta, em autonomia total relativamente à pressa do motor que ali ao lado irá passar.

Especula sobre a falsa modéstia que uma ponte deve assumir, fazendo parte da linha arquitectónica do lugar e constituindo, também ela, cidade.

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Alvaro Leite Siza – Bar em Matosinhos

Trabalho de Alvaro Leite Siza para um Restaurante/bar em Matosinhos que chega via arquitectura.pt

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A criação de um Restaurante-Bar e Discoteca no interior de um antigo armazém, pretende ser um equipamento de apoio à habitação e serviços previstos no Plano de Urbanização de Matosinhos Sul. Por outro lado, pretende-se manter a memória da imagem física, característica da Matosinhos Sul Industrial dos séculos XIX e XX, que de resto, está em rápido desaparecimento .
Com este programa, que permite manter a preexistência física do edifício, salvaguarda-se a escala urbana da Praça da Fonte, que tem como contraponto o edifício Acia e a sua escala monumental .
Como é sabido, a habitação construída e a construir nesta zona da cidade, prevê estacionamento subterrâneo para residentes . Além disso as avenidas que se interceptam na rotunda , têm grande escala e desenvolvimento, permitindo vasto estacionamento de apoio aos inúmeros serviços, além da habitação .
A criação de um Restaurante-Bar Discoteca na proximidade de duas discotecas (Estado Novo e Traga Luz ), funcionará como dinamizador destes espaços, já que as pessoas poderão aparcar os seus carros na proximidade, jantar, conviver no bar, e depois seguirem a pé para as discotecas.
O edifício preexistente situa-se no gaveto da Av. Vila Garcia de Arosa e da Av D. Afonso Henriques, na zona chamada de Matosinhos Sul.

A proposta deste estudo prevê uma intervenção que não vai alterar a imagem e morfologia exterior do edifício. Também não vai alterar o pórtico estrutural e a cobertura existente, antes pelo contrário, este estudo organiza e sistematiza a estrutura existente remodelando e alterando apenas o espaço interior .
A proposta organiza-se a partir de um eixo definido pelo centro da rotunda-praça e pela mediatriz do arco de circunferência da fachada do armazém . A obra consiste na criação de um novo volume encerrado dentro do antigo (uma casa dentro da casa ), recriando no interior, dois átrios e um novo passeio que duplica o passeio público. Isto faz com que o movimento de pessoas durante o funcionamento do Restaurante-Bar Discoteca, seja para lá da fachada existente. Pretende-se não alterar o funcionamento da área exterior do domínio público. A criação de novos átrios exteriores, no interior do armazém, decorre também da necessidade de isolar e insonorizar a nova caixa interior , dentro da qual se organiza todo o programa. A partir de dois átrios diferentes, acede-se por duas portas, a dois espaços semelhantes e simétricos, articulados entre si por uma área de distribuição com pé-direito duplo. Estas duas ordens ortogonais interceptam-se no palco , conferindo a este espaço, a articulação de planos de maior expressividade e proporcionando uma forma hexagonal à pista de dança, o que é bom pela centralidade, quer controlando a organização do espaço, bem como a qualidade acústica.
Ao fundo, na confluência das duas zonas de Restaurante e de Bar ficam os diferentes serviços: cozinha , copas , arrecadações , instalações sanitárias do público e do pessoal.
Tanto o restaurante, como o bar desenvolvem-se em dois pisos sobrepostos que comunicam através de escadas que organizam outros dois átrios interiores de distribuição.

Prevê-se também a criação de uma rampa que permite um fácil acesso a deficientes ao piso superior.
Importa também referir o esquema de evacuação de emergência , composto por dois percursos longitudinais, ao eixo dos dois volumes paralelepipédicos no enfiamento das saídas para o exterior. Existe ainda uma grande galeria de saída de emergência, a partir dos serviços até ao átrio exterior de entrada do bar. Esta galeria é completamente encerrada com portas corta-fogo e com fechaduras anti-pânico. Com esta organização dá-se integral cumprimento à exigência de tripla saída de emergência para o exterior.
Todos os materiais são pobres, já que se trata de uma obra particular, para um cliente com perspectiva comercial. Assim sendo, utilizou-se calcário semi-rígido, madeira de pinho e pladurs, mas que desta forma associados resultam de forma a conseguir retirar a expressão que se pretendia da luz.
Existem desfasamentos nas paredes que proporcionam uma caixa de ar, onde se encontram todas as infra-estruturas de apoio técnico: insuflação de ar, cablagens e todo o tipo de electricidades e materiais de absorção acústica, criando também as pretendidas condições para iluminar indirectamente todo o ambiente.
No tecto da pista de dança e nas clarabóias encontram-se igualmente escondidas as condutas de extracção do ar; a torção destas clarabóias deve-se à orientação, configuração e aproveitamento máximo da cobertura preexistente, que se teve que manter obrigatoriamente.
“As cores suscitam emoções” (Wolfgang Goethe).

É importante a presença da cor. Ela cria estímulos e diferentes emoções consoante as diversas situações.

A luz e ambiente da discoteca podem, através de um percurso, ou seja, através do tempo, irem-se transformando e ganhando inúmeras expressões. É ir buscar o nosso eu, associado ao nosso estado de espírito, que oscila e transporta essas mesmas emoções para o exterior, procurando que se leia e sinta através do espaço a personalidade e o fluir das emoções que ali se vão gerando. O espaço exprime-se como se tivesse alma.
Gostava de ter ido mais longe e ter associado o sistema informático que conduz e transforma a luz, aos ritmos, intensidades e variações da música, cheios e vazios, som e ausência de som, luz e ausência de luz, mas as limitações económicas não permitiram fazê-lo.
É efectivamente possível pintar através da arquitectura, como é possível também esculpir a forma e o espaço através desta actividade.
Neste caso a cor surge a partir da luz e assim está impregnada no ar, no vazio, no espaço (essência da arquitectura), só depois de projectando nos limites ou superfícies.
É possível transformar o ambiente a cada momento, com milhões de possibilidades.

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Helena Roseta a.k.a. “Evacuação Imediata”

Mensagem de Helena Roseta, após saída para um emprego melhor:

“O que guardo deste mandato”
1 Há seis anos, a nossa lista ganhou as eleições para a Ordem dos Arquitectos com o lema “mudar a ordem das coisas”. Agora que me preparo para renunciar ao mandato de Presidente do CDN, a fim de assumir funções na Câmara Municipal de Lisboa, é tempo de fazer um breve balanço do que fizemos e do que não fizemos.

2 Entre o que fizemos, destaco cinco grandes áreas:
- a defesa e promoção da arquitectura, primeiro com o Ano Nacional da Arquitectura, em 2003, depois com o IAP XX – Inquérito à Arquitectura do século XX em Portugal, financiado pelo INTERREG. Foram dois grandes projectos que permitiram alargar a visibilidade da arquitectura na sociedade portuguesa e afirmar a nossa actividade como um verdadeiro recurso para o desenvolvimento do país;
- a reforma da admissão à Ordem, com a aprovação de novos regulamentos e procedimentos, compatíveis com as exigências nacionais e comunitárias e com a reformulação dos cursos de arquitectura a que o processo de Bolonha deu origem;
- a abertura da nossa organização profissional à cooperação institucional com outros parceiros da sociedade civil, nomeadamente na área do território, da construção e da habitação, através de múltiplas iniciativas de debate e da criação, sempre que possível, de redes de actuação conjunta, como foi o caso da Plataforma artigo 65 – Habitação para tod@s;
- a reforma da gestão interna da Ordem, com a implementação de no! vos proc edimentos contabilísticos por centros de apuramento e com a melhoria substancial da qualidade e da transparência da informação de gestão disponível;
- o levantamento da situação profissional dos arquitectos, com o estudo “O exercício da profissão de Arquitectos em Portugal” encomendado ao Instituto de Ciências Sociais, que revelou um novo retrato da classe, essencialmente jovem, exigente, muito empenhada na arquitectura mas com muitas dificuldades de afirmação e até de sobrevivência num mercado de trabalho hostil e desigual.

3 Entre as muitas outras acções em que nos empenhámos, gostaria de sublinhar o trabalho desenvolvido no plano internacional, que permitiu alargar o reconhecimento da arquitectura portuguesa, nomeadamente com os dois prémios obtidos nos Congressos da União Internacional dos Arquitectos, bem como o acompanhamento de grandes reformas legislativas que afectam a arquitectura e o território, em especial o Novo Regime do Arrendamento Urbano e as alterações aos Regimes Jurídicos da Urbanização e da Edificação e dos Instrumentos de Gestão Territorial. De salientar, ainda, a influência que a Ordem dos Arquitectos, com a ajuda das suas Secções Regionais, conseguiu alcançar na redacção do novo Código da Contratação Pública, determinante para uma melhor justiça e transparência na atribuição da encomenda pública.

4 Ao longo destes dois mandatos, procurámos sempre que as posições da Ordem não se reduzissem a meras atitudes corporativas, mas se traduzissem em questões sensíveis para toda a comunidade. Fomos a primeira Ordem em Portugal a criar um Provedor, o Provedor da Arquitectur! a, para atender as reclamações de qualquer cidadão. O nosso sítio na Internet está aberto à participação, não apenas dos associados, mas do público em geral. Esta visão moderna da nossa organização profissional como parte activa da sociedade civil, na óptica dos direitos dos cidadãos enquanto consumidores de serviços de arquitectura e titulares do direito ao ambiente e à paisagem, é uma linha de orientação que deverá prosseguir no futuro. Quanto mais nos abrirmos, mais força teremos na defesa da arquitectura e do território com bens de interesse público.

5 Grande parte destes projectos e reformas envolveram muita gente, muita discussão e muita energia. Defrontámo-nos com críticas exigentes, quer internas quer externas. Sujeitámos todas as nossas principais decisões ao debate e ao escrutínio dos colegas. Houve momentos em que foi preciso ultrapassar diferendos difíceis. Mas é assim que concebo o trabalho associativo: com total liberdade de cada um dizer o que pensa mas, ao mesmo tempo, com a solidariedade necessária para conseguirmos levar a cabo projectos comuns.

6 Um dos que mais nos mobilizou, mas que ainda não tem resultados palpáveis, foi o das campanhas pela revogação do decreto 73/73, sob o lema do Direito à Arquitectura. Em 2002, juntámos 55.000 assinaturas de cidadãos numa petição que acabou por dar origem a uma resolução parlamentar aprovada por unanimidade em Maio de 2003, mas que se traduziu em nenhuma iniciativa legislativa. Em 2005 voltámos a insistir, entregando no Parlamento uma iniciativa legislativa de cidadãos, a primeira na história parlamentar portuguesa, com mais de 35.000 assinaturas. O Projecto de lei a qu! e ela de u origem foi aprovado por unanimidade na generalidade, em Maio de 2006; largos meses mais tarde, deu entrada no parlamento uma proposta de lei do governo sobre a mesma matéria, mas mais ampla, que foi igualmente aprovada na generalidade. Estamos assim na situação ambígua de existirem dois diplomas aprovados na generalidade, mas de redacção oposta nalguns pontos. A sessão legislativa de 2007 terminou sem qualquer avanço na matéria. Conseguimos, é certo, que a opinião pública nos desse razão nesta matéria – a de os arquitectos verem reconhecido na lei o direito a fazer arquitectura. Mas fica-me a mágoa de não termos conseguido a votação final do nosso projecto, contra os prazos que a própria lei prevê e devido, exclusivamente, à falta de vontade política do parlamento. Espero que ainda neste mandato a Ordem dos Arquitectos consiga chegar mais longe e obtenha ganho numa causa justa e reconhecida por tanta gente.

7 Ficou naturalmente muita coisa por fazer, em particular no domínio do relacionamento institucional entre a Ordem dos Arquitectos e as Câmaras Municipais, nossos parceiros imprescindíveis no exercício da actividade profissional. Um maior apoio aos associados, um melhor acompanhamento do início da actividade e uma mais generalizada formação contínua são outras áreas onde poderemos ir mais longe. Todas estas matérias se prendem com competências estatutárias que têm de ser repensadas à luz do nosso tempo – com a possibilidade de desenvolver novos serviços digitais, de melhorar a nossa eficiência enquanto organização, de aumentar a nossa presença na sociedade e de criar melhores meios de comunicação e circulação interna.

8 A t odos os que me acompanharam nestes seis anos, eleitos, trabalhadores e colaboradores da Ordem, quero expressar a minha gratidão. Sem eles o meu empenho teria sido estéril. Aprendi muito e fiz novos amigos, que é um dos bens mais preciosos que podemos ter na vida.
Podem perguntar-me o que guardo deste mandato. Dir-vos-ei que, mais do que um dever cumprido, o que me fica é consciência muito aguda de que, onde quer que estejamos, uns e outros, saberemos recordar este período das nossas vidas como um tempo em que pudemos lutar juntos pelo direito quotidiano dos nossos concidadãos à arquitectura, ou seja – a um pouco mais, apenas um pouco mais, de beleza.

Lisboa, 31 de Julho 2007
Helena Roseta