“Você é vitima de si mesmo, e de todos nós também”

Não há promoção de arquitectura em Portugal. Facto.

Aquilo a que se poderia eventualmente apelidar de promoção de arquitectura é algo de abominável, normalmente associado ao fenómeno imobiliário. Vejo o Magazine Imobiliário na SicNoticias e reconheço que o povo gosta do que vê.

Fala-se em Golfe e cadeiras ao sol, utiliza-se o termo ‘Condomínio’ e somam-se áreas, umas atrás das outras. Milhares e milhares de metros quadrados a atestar peças de péssimo gosto. Vãos horríveis, paisagismo inexistente, implantações ridículas e subversão total do espaço interior para o material não dar prejuízo.

Pessoalmente não me preocupa. A força dos objectos por ali promovidos é quase nula, apesar de lamentar, e muito, que o tempo de antena não seja aproveitado para mostrar ao português, residente ou não, que o bom gosto também se educa. E é de educação fácil.

Daí que no que toca a obras às quais seja mais sensível, costume aguardar com alguma expectativa a forma como se resolve divulgar a coisa ao grande público, e não é novidade por aqui que o futuro Estoril Sol Residence, antigo Hotel Estoril Sol, é uma das obras relativamente às quais guardo alguma expectativa, e aqui assume-se um novo gosto no marketing uma vez que é construção polémica.

O falhanço é arrasador. Mas por incrivel que pareça resulta. E eu apoio a campanha.

Assistimos a 4 minutos de um video promocional que daria a Quentin Tarantino uma verdadeira lição sobre o que é a essência do cinema Série B, pronto a passar algures entre a projecção de DeathProof e Planet Terror. É sofrível. E é por isso que é tão bom (tal como os dois espécimes de Tarantino e Rodriguez).

Apresentam-se os futuros residentes ao estilo Melrose Place meets Beverly Hills, meets O.C. na versão low cost, falada e interpretada em fútil português de Lisboa aux Cascais.  O nome de Gonçalo Byrne aparece no meio da coisa algures entre o “Vamos lá arranjar espaço para promover o tipo” e o “Já metemos o nome do arquitecto?” e o resto é puro decor espalhafatoso que bem exprimido não nos serve de nada.

É acima de tudo idiota e non-sense. É tudo aquilo que achamos normalmente das pessoas que ali se colocam como potenciais compradores de um t1 a milhares de euros. E é assim mesmo que os próprios se promovem.

A venda do Estoril Sol é autêntica porque se baseia no que de mais falso há na nossa sociedade, nas elites milionárias que se esforçam, e muito, por parecerem interessantes. Não correspondendo o meio ao homem, há que inserir o homem no meio. Constrói-se o meio e ponto final.

Aquilo que será aquele grande edificio daqui por 20 anos, o tempo confirmará com a categoria da sua paciência, mas uma coisa é certa, ao largo da sua fachada passará o desprezo profundo do povo.

E é pena. Por tudo. Paga-se o prejuízo ao preço da boa arquitectura. O arquitecto não se preocupa porque se distancia o suficiente do problema. Não tem culpa nenhuma no cartório, mas também não se livrará dos olhares de soslaio.

11 Responses to ““Você é vitima de si mesmo, e de todos nós também””


  1. 1 ADIM

    As Ladeiras Históricas de Monsaraz estão a ser arrasadas, por obras realizadas sem qualquer tipo de painéis de identificação pelo que se desconhece o seu enquadramento legal.

    Por entendermos que estas obras são prejudiciais para a imagem de Monsaraz e para a sua qualidade ambiental e paisagística e ainda por questionarmos a sua legalidade, face ao que delas é visível, vimos por este meio solicitar a actuação e divulgação que esteja ao Vosso alcance.

    Todas as informações acerca deste “atentado” ao património histórico, estão disponíveis em http://adim-monsaraz.blogspot.com

    Desde já o nosso obrigado.

  2. 2 Loff

    Ninguém comentou isto ainda? A mim choca-me é que este filme parece feito justamente para todos aqueles que não vão comprar casa no Estoril-Sol, quase como uma ostentação barata e reles, estereotipando os potenciais compradores, plantando adjectivos de eficácia duvidosa (jardim “paradisíaco”), quando os apartamentos são de tal forma caros que mesmo o novo-rico de baixa educação que sonhe lá morar – afinal o público-alvo deste filme – terá uma ou outra dúvida antes de o fazer.

  3. 3 sergiodiassilva

    Tenho mais reservas em relação ao edifício do que propriamente ao filme, embora seja uma delícia ver como este cai tão bem na definição de “tão-mau-que-até-se-torna-bom”. Mas como, em relação ao edifício, só conheço as imagens da volumetria e estes questionáveis renders, abstenho-me de comentar.

    Mas interessa-me essa ideia da educação de arquitectura… acho muita piada aos magazines de construção que descrevem os edifícios como tendo uma “arquitectura moderna”, e acho pelo menos positivo que isso comece a ser um ponto a favor da arquitectura. A verdade é que as mentalidades estão a mudar (devagar, como mudam sempre as mentalidades), e, como alguém dizia, daqui a uns anos a “casa de emigrante” talvez vá ser feita dos nossos acarinhados “caixotes”…

    Esta promoção do Estoril Sol pode ter muito que se lhe aponte, mas só o facto de meter o nome do arquitecto a martelo já é mais do que fariam há uns anos atrás; felizmente, falar-se tanto do Siza tem esta vantagem: o nome do arquitecto começa a valer alguma coisa. Agora se calhar têm de ser os arquitectos a potenciar este bom ou mau princípio… parece-me…

  4. 4 Joao_Alves

    epá sabes como sou…gosto de arquitectura mas so um pequeno voyeur que adquiriu gosto (ou aprendeu a gostar) por algumas infimas tardes que passei contigo a ver maquetes e plotagens(que nunca percebi o que la tava)e digo te, o que vai ali ser construido até é arrojado pra mente retrogada portuguesa,mas (e que mas), uma casa ai adquirida vai ser um “pequeno” bem para os novos ricos se evidenciarem e sentirem se superiores e pla forma como se publicita isso mostrando uma excelencia maxima ate irrita.Um fim puramente comercial e pouco de apresentação, algo que até irrita.
    Agora ao que mais me interessa a mim.Belos renders que para ai vão.A textura da agua da piscina é meio estranha, principalmente com aquela tia-ossaurio la dentro.O render do mercedes ta nojento…aquela luz dentro da garagem passa a pintura do carro de metalizada para matte.

  5. 5 G.

    “imagine viver numa obra de arte”…

    este tipo de promoção, este “obra-de-arte-a-que-só-nós-teremos-acesso-e -o-resto-do-povinho-é-zé-povinho.”
    e mais, entristece-me o facto de cada vez mais parecer que a boa arquitectura só está acessível aos “carteiras recheadas”. o resto que se contente com um copy-paste remodelado das revistas.

  6. 6 *

    É de ir às lágrimas… literalmente!

  7. 7 *

    Elaborando: É triste perceber a forçada referência ao autor, que só é feita porque se acha que o nome pode render. Nada mais justo do que reconhecer o mérito do autor, mas obviamente que a menção aqui é feita exclusivamente por apelo ao novo-riquismo do público alvo, a par da garagem que parece de um hotel de 5 estrelas e de outros mimos equiparáveis.
    O vídeo é indescritivelmente mau, feito por alguém que não percebeu com que arquitectura está a lidar mas que percebeu perfeitamente a quem é que ela se destina.

    A respeito do edifício: Arriscando o erro de quem muito pouco conhece (só as imagens e o PDF que por aí circulam), parece que o resultado ficou aquém do que se poderia esperar do conceito de escultura urbana “vendido” pelo autor, e que simultaneamente esse mesmo conceito é levado longe demais e não chega para justificar balanços que privarão de sol enormes porções de fachada, terraços inacessíveis que conviverão de forma incómoda com apartamentos que para eles abrem fachadas de vidro, apartamentos sem espaços privados de fruição exterior,… Demasiado formalismo e pouca forma. Esperava mais de Gonçalo Byrne, sei que é capaz de mais.

  8. 8 João Sousa

    já algum tempo que tinha visto isto e comecei a escrever um comentário que logo se transformou num novo artigo que coloquei no meu blog, por isso sugiro a leitura: http://palavras-arquitectura.com/2007/09/20/o-sol-do-estoril/

    abraço!

  9. 9 Fiel Depositário

    Caros, só me resta chorar neste pano..
    Não consigo saber o que é pior. Se é uma população desinteressada do que supostamente é esta coisa a que cada um de nós intitula a Arquitectura. O facto de uma quantidade enorme de gente “cheia de papel” gastar entre 3 e 8 milhões de euros numa casa, que tem erros que nem um aluno do 1.º ano certamente não faria. Ou o facto de se estar a tentar vender esta “coisa” recorrendo a um vídeo proporcional ao mesmo nível intelectual das vítimas que acabaram de comprar as ditas casas.
    Circulam imagens e desenhos onde é visível a presença do Arq. tal e qual como na referência a ele no filme.. Ausente. Pois certamente não esteve presente quando se desenhou um edifício num dos melhores sítios do nosso Portugal contendo erros como. Corredores com 32 mts de comprimento, quartos que 1/3 da área é corredor sem qualquer utilidade, ineficiência térmica no que diz respeito à área de envidraçados, falta de varandas.. etc.
    É triste, porque qualquer “pato bravo” teria feito melhor figura que este Sr.º
    É triste que o facto de ser uma promoção “chique / brega”, mas que tenha mesmo assim surtido efeitos comerciais, visto que apenas faltam vender dois apartamentos até à data.
    Por tudo isto acho que só podemos chorar, porque rir.. já se riu muito

  1. 1 o Sol do Estoril at Palavras da Arquitectura
  2. 2 o Sol do Estoril at Palavras da Arquitectura

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