Archive for September, 2007

Pelo retrovisor vos observo…

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Acredito que um dia ao volante, pelas ruas de uma qualquer cidade portuguesa, é experiência suficiente para que se conheça, a fundo, a sociedade e o homem português.

Ao contrário da maior parte das pessoas, não coloco a má qualidade das nossas estradas como uma variável fundamental na equação da sinistralidade e dos aborrecimentos no trânsito que existem em Portugal. Somos maus condutores. E somos maus condutores porque não fazemos grande questão em sermos melhores noutras coisas. É um fado preguiçoso.

Ninguém se ausenta aqui de qualquer responsabilidade, nem eu mesmo, péssimo condutor porque sou péssimo em muitas outras coisas. Talvez dependa de uma especialização em ‘deixa andar’ que com os anos tenho vindo a refinar, e isso reflecte-se na prática, ao volante.

Mas também sou assim porque vejo assim fazer. E aqui já temos dois problemas. O do defeito por inerência e o da relativização, pela mediação dos defeitos dos demais.

E isto porque vivo no país onde o taxista reflecte ao volante o mau humor de uma profissão que não quis.

Onde o condutor da Carris não pára no recorte viário que custou bom dinheiro à autarquia, porque lhe custa a ele virar o volante e completar a manobra.

Onde  a idade é um posto e as regras de cedência e prioridade são interpretadas pelos seniores como privilégios de livre adulteração, purgatório em antecâmara para o óbito e onde podem, ali, gozar dos dividendos que julgam poder retirar dos anos que levam disto.

Onde o vermelho deveria ser para parar. Tivesse o semáforo esperado mais um bocadinho.

Onde se ultrapassa o limite de velocidade, porque não faz sentido respeitá-lo, e como não faz sentido, as regras fazemo-las nós.

Onde as rotundas, que brotam como trevos, são autênticos comícios do salve-se quem puder em virtude da selvajaria imposta pelos que têm pressa, em desabono dos que simplesmente ignoram que no perímetro adjacente à circunferência, também existem, pasme-se, aplicações directas ao código da estrada.

Onde, e esta é especial, se pode estacionar sempre em segunda fila. É desculpa genial para não pagar o que é devido pelo estacionamento, prejudicando aquele que o pagou.

Os pinos que limitam o estacionamento, não o impedem, estacionamos um pouco mais ao lado, mesmo que isso signifique que seja um pouco mais no meio da via.

Onde se ligam os máximos dentro das localidades, o lugar pode estar mal iluminado, e EU não estou a ver bem.

Onde a buzina é o vernáculo para a expressão de desagrado do automóvel, e se faz ouvir em qualquer ocasião, por mais simples que seja o problema.

Onde se muda de direcção sem o assinalar, EU sei bem para onde vou. E sei onde vou parar, não é preciso que os outros o saibam também.  

E diariamente se convive com isto.

Sinto que dificilmente estranharia o ambiente de um manicómio…  

Entusiasmo. Como não o ter durante quatro dias…

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Quatro dias, é quanto tempo dura a formação complementar ao estágio de admissão à Ordem dos Arquitectos. Experiência sofrível…

A formação, enquanto evento promovido para acompanhar o primeiro ano fora da faculdade acontece ali como uma espécie de tortura lenta que deve, na sua essência, acontecer exactamente daquela forma. Todos sabemos, estagiários e formadores, que aquilo que se virá a passar naqueles quatro dias culminará sempre com a fatalidade do aborrecimento daí que a disposição à partida para a coisa também não seja propriamente um misto de entusiasmo e expectativa. Tem de ser assim?

Parece que sim. A acomodação é geral. De um lado estão aqueles que, com os seus 27 euros à hora entendem o momento como um apêndice de trabalho cujo desenvolvimento para os arquitectos se fará sempre ao longo do seu desempenho profissional, daí que resolvam adoptar a postura do “Ora prestem atenção, ò faz favor”. Os futuros arquitectos, esses, limitam-se a enfrentar a tortura com a mesma disposição com que outros o terão feito e aí a lição já vem bem estudada.

No final, nada. Funcionários mal dispostos, aulas ao som do ronco e um ar condicionado que me deixou de cama durante três dias.

Mas enquanto o método resultar, será este o método a adoptar.

CLIA – Curso Livre de Iniciação à Arquitectura no DARQ

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O DARQ tem vindo a afirmar-se como uma escola de arquitectura de referência, tanto no ensino quanto na investigação. Atento ao interesse que a Arquitectura tem vindo a despertar na sociedade, aposta agora numa acção através da qual possa disponibilizar parte do seu saber especializado a um nível propedêutico, contudo abrangente e rigoroso.

O CLIA decorrerá em dois módulos semestrais com âmbitos tão definidos e variados quanto complexas e transversais são as temáticas implícitas no domínio disciplinar da Arquitectura. Visando-se a desmistificação da coisa arquitectónica, pretende-se também transmitir a terceiros aspectos fulcrais da cultura e da praxis da Arquitectura, com excepção óbvia para aquilo que só a própria prática, primeiro orientada e depois autónoma, permite aos profissionais.

Coordenação: Prof. Doutor Walter Rossa

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Porque não ?

Porque este lado da arquitectura, piroso e sem gosto, miserável de tão redutor, fraco, também existe, fica aqui a recente inovação no que à publicidade arquitectónica diz respeito, está no AnunciosGratis.pt , publicita-se por 3.000 € à peça, e a coisa tem mais ou menos este aspecto:

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É esta a arquitectura dos seus sonhos?

Pessoalmente, esta é a arquitectura dos meus pesadelos.

Infelizmente, a poesia e a demência que alguns demonstram pela prática consegue ser, por vezes, a face mais afável de uma arquitectura que se apresenta, pelo menos por aqui, cada vez mais empobrecida.

Deus me livre

6 years, the day after

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Pertenço a uma geração que ficará para sempre ligada ao evento do 11 de Setembro.

Não há um único momento, à entrada de um avião, em que não calcule bem o espaço à minha volta. Em que não procure medir, à distância do olhar e com a crueldade do rótulo terrorista, todos aqueles cuja imagem melhor se cole aquilo que, a partir daquela data, passou a ser a face comum de um Islão agressivo e impiedoso. Assassino. Primitivo.

E o estigma estende-se a momentos vários da vida, é aí que percebo a precisão do movimento terrorista. Não vivo aterrorizado, mas percebo que os impulsos são descontrolados por sinais semeados posteriormente pela sociedade em mim.

E como eu, milhares. E lá, como aqui, e em outros lugares, a vida se acerta pela cautela. A prevenção é inteligente e proveitosa, mas é também lamentável, sobretudo pelos motivos que a antecedem. Passo horas de filas em aeroportos, e constatei recentemente o acutilante silêncio que impera por entre aqueles que ainda se atrevem a pisar o subway londrino. Diz-se que é assim em Espanha também. Lamento, mas entendo. E respeito.

Olho, hoje, seis anos depois, para aquilo que é a América pós 11 de Setembro.

Desconforto pelo tom fúnebre das homenagens, alteração dos lugares de cerimónia por imperativos das novas construções no ground zero, e um lamentável folclore politico. Desprezível trampolim camuflado para Washington. Duas mega produções Hollywoodescas em emulação heróica da data. Adoração dos ocupantes do voo 93 e o nervoso desconsolo da notável relativização do respeito outrora reservado ao pentágono.

Hoje, a América, que não é Bushiana, nem Goriana, nem tampouco Iraquista, é um grotesco animal autista. Indiferente aquilo em que se tornou, com pouca vergonha daquilo em que se poderá vir a tornar. Uma recente piscadela de olho à Coreia do Norte confirmou de resto a mudança de rota asiática. E o Irão ali tão perto.

O mundo de resto limita-se a acompanhar a falsa besta carpideira. Reserva-se, hoje, o prime-time a dissertações várias sobre o evento e à transmissão de telefilmes baratos que nos contam a história em versões aleatórias daquela que foi uma realidade ainda hoje escondida entre verdades incontestáveis e incongruências indesmentíveis.

Fica hoje a imagem das vitimas do 9/11.  Das baixas. Vitimas somos todos nós.

“Linked Hybrid” Building – Steven Holl

Actualmente em construção, em Pequim, o “Linked Hybrid” do gabinete de Steven Holl agrega numa gigantesca estrutura uma série de torres com um programa composto por 750 apartamentos, um hotel, cinemas e diversos espaços comerciais unidos a partir do vigésimo piso por um conjunto de pontes multi-direccionais que estabelecem o percurso de união e coerência do conjunto.

É a partir das ligações, orientadas segundo uma sequência lógica de movimento e sucessão de espaços, vários metros acima do solo,  que o percurso citadino acontece. O momento de integração com o lugar em plena progressão métrica ao longo dos vários objectos que constituem o grande edifício, suportado em cima pelo remate sustentável que acontece na cobertura.

Surge aqui na sequência tardia daquilo que foi o famigerado vídeo promocional do Estoril Sol Residence.

A mim parece-me diferente… e não está assim tão distante dos leigos.