
É comum, no discurso de defesa do património arquitectónico, se invocar o conceito de ‘regionalismo critico’ para de repente se poder defender todo o tipo de intervenções que, pela sua especificidade ou mera abordagem ao lugar de intervenção, possam resultar como desvios aparentes do contexto. E aqui a sensibilidade é muita.
De resto, ao longo dos anos temos sido constantemente confrontados com a incapacidade, de governantes e governados, em lidar com este tipo de obras. As crises de aceitação, que já são crónicas, revelaram-se sempre que as intervenções envolviam uma maior quantidade de capital e um elevado sentido estratégico, das pontes do Tejo às grandes redes viárias, do CCB à Casa da Música.
Mas se a incapacidade em conjugar a tomada de decisão com a aceitação popular se revela na grande escala, também [ou sobretudo] no reduto mais particular se verifica a condição.
São várias as razões para que nos incompatibilizemos imediatamente com a audácia da renovação, ou com a mera ideia da recuperação. Em parte o devemos ao legado histórico da nossa arquitectura, que nos foi habituando a conviver bem com o que se foi tendo. E, regra geral, tivemos sempre muito pouco, o que é facto. Dos estilos antigos contam-se pelos dedos as obras nascidas de raiz para celebrar o esplendor do homem clássico [e as que assim surgiram, acabaram por sofrer mais tarde pequenas operações de estética, de modo a se adaptarem ao período novo, que substituía o antigo, mas que o país, por incapacidade financeira não conseguia celebrar com obra autêntica].
E assim aprendemos a arte do remendo, cuja mestria temos vindo a atingir nos tempos modernos.
A verdade é que deste modo se criam complexos em paralelo, a maior parte como mecanismos de auto-defesa do legado apodrecido com que de forma tão simpática fomos aprendendo a conviver, castrando desse modo qualquer iniciativa fresca.
E não fosse a malta do modernismo, aqueles futuristas…
Recentemente a discussão em torno de um edifício em Piódão motivou diversas opiniões no arquitectura.pt. Apesar de algum optimismo inicial, acabei por não me surpreender com o efeito global das críticas que, de um modo geral, se mostram contra a implantação de um edifício daquela natureza no centro histórico da aldeia.
E a natureza, é a mais generosa das arquitecturas. A polémica é a mera pigmentação da fachada. Invocam-se as paredes brancas e o desenho atrevido de um dos vãos que se faz notar em alçado. Defende-se o princípio do seguidismo da forma, e revelam-se manifestações de desagrado no que ao desvio histórico diz respeito. E a maior parte dos argumentos, preconceitos em boa verdade, surge pela voz dos arquitectos.
Mas também pela voz do senhor presidente da junta José Lopes, que se mostra desagradado com a modernice que ali está a mais:
“Eu acho que é uma modernice que está ali a mais para aquilo que se queria preservar do Piódão porque antigamente andou-se a patrocinar o retirar dos rebocos nas casas que estavam a branco e a tirar a telha vermelha e a pôr lousas portanto escuras e neste momento parece que os projectos estão a enveredar por um caminho oposto, não é?”
E a única questão que interessa à discussão é a da intervenção moderna. Não gostamos, sejamos sinceros.
Reconheço legitimidade a espanhóis, franceses e bretões na defesa da sua arquitectura antiga, pelo legado que carregam, mas também pela capacidade de ao longo dos anos ter sido sujeita a um convívio bem sucedido com a inovação, o que, no limite, resulta numa perfeita identificação entre as diferentes camadas de desenho que se reconhece em cada um dos países e respectivas cidades, antítese do que se passa em Portugal.
É regra, em passeio por Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, reconhecer a ancestralidade dos edifícios pelo profundo estado de degradação em que os mesmos se encontram, enquanto vão convivendo com obras pindéricas de legitimidade suspeita que, por fazerem favores ao contexto, não acicatam tanto os ânimos. Passam despercebidos, e aí está tudo bem.
Não pretendo fazer alertas de lucidez, até porque a educação neste tipo de questões demora muito tempo a se manifestar e as gerações modernas ainda se vão corrompendo pela opinião tacanha, mas, é absolutamente notável que no país onde obras estruturalmente megalómanas como o novo centro de artes de Sines, cuja inquestionável mais-valia para a região surge totalmente subvertida pela intervenção fotogénica de autor com um custo que deveria ser incompatível para a essência e propósito do objecto, andem os arquitectos e as gentes que tornam publicas as opiniões, a debater menos de 100 metros quadrados inofensivos em Piódão, que talvez carreguem mais história do lugar na sua modernice do que todos os edifícios vizinhos que, no seu falso vernáculo, surjam mascarados de efeito pitoresco.
Fundamentalmente não se tratam de 100 metros quadrados de arquitectura de autor, e é esse o outro lado da questão. Por cá, no que toca a seguidismo, a assinatura teria sido um bom argumento a favor. Há prioridades e prioridades.