Archive for January, 2008

Encontrar-se

É um dos mais nobres e inteligentes movimentos de solidariedade, que fazem lembrar iniciativas do género que aconteceram em meados dos anos 90, sensivelmente até os artistas musicais deste país perceberem que a solidariedade não os torna mais mainstream, vai daí perderam-se algumas conexões, o que acaba por ser lamentável, uma vez que a voz, sobretudo quando é publica e popular, tem um impacto tremendo nas causas que abraça.

A Encontrar-se surge assim como uma pedra no charco, uma Instituição Particular de Solidariedade Social, sem fins lucrativos, vocacionada para o desenvolvimento de soluções para as dificuldades que as pessoas portadoras de doença mental grave sentem na integração na vida social activa e no mercado de trabalho, no fundo, ás exigências especificas que o grupo transporta e visando a reabilitação social do mesmo.

O lado mais generalista da mensagem é assegurado por um conjunto de artistas que, em actividade conjunta e associações improváveis, ao longo do ano, se comprometem a editar uma musica por mês. A coisa resulta, e de que maneira.

Em Janeiro, os Xutos e Pontapés juntam-se aos OIOA, com um resultado surpreendente, numa música que passa uma mensagem bastante clara e de forma belíssima.

Vale a pena.

Sobre a Verdade, Earthlings

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Quem teve a oportunidade de assistir a Uma Verdade Inconveniente terá ganho, no limite, consciência daquilo que é o tratamento dado a dois assuntos distintos num documentário cujo valor ambiental (no limite, humanitário) é indiscutível.

Al Gore, que aproveita o desfile para lembrar que já foi o futuro presidente dos Estados Unidos da América, apresenta numa mão factos e suposições que sustentam uma tese que deve ser considerada por todos como uma verdade fundamental: tratamos mal o planeta, pelo simples facto de não nos preocuparmos. Não somos directamente confrontados com os males que lhe inflingimos, são problemas aos quais é normalmente associado o termo ‘médio/longo-prazo’ e enquanto a catástrofe não chega, aproveita-se o intervalo entre a acção e o pânico para nos libertarmos da grande doença de alguns. A consciência.

Mas, como em qualquer produção Hollywoodesca, espelho muito sincero daquela que é uma sociedade americana que se encontra em avançado estado de decomposição, Uma Verdade inconveniente conta também com meia dúzia de episódios da família Gore. Por razão nenhuma que não seja a da salvaguarda, à data de edição do primeiro documentário-romancesco da história, de um lugar na corrida a uma próxima eleição para presidente dos Estados Unidos da América, a coisa era, no final, uma meia verdade, e a metade que interessava ficou claramente corrompida pelos diferentes tons de voz na narração, e outras intervenções mais falseadas, qual flautista de Harmelin, pronto a assentar arraiais na tendência de voto da mente de 303,199,000 indivíduos de inteligência duvidosa, afinal, menos de metade votou em Bush e ainda assim permitiram que o senhor se apoderasse da cadeira, Gore incluído, o que nos diz muito acerca dos netos do Tio Sam.

Clinton (agora Hillary) e Obama demonstraram-se muito mais interessantes do que tinham sido o próprio  Gore, Bush e Kerry. E assim se percebeu que o momento politico de Gore tinha passado. Com ele, Giuliani. Entradas fora de tempo que não permitem, a figuras ilustres da história americana recente, reservar assento na sala oval.

O falhanço do lado familiar de Uma Verdade Inconveniente deverá servir de lição para oportunidades futuras: Chamar verdade a uma meia verdade, pode retirar valor à história que se decide contar. E em parte isso acabou por acontecer, tornando Gore numa espécie de Michael Moore equilibrado, a quem as pessoas não dão total atenção devido às posturas duvidosas. Um pelo extremismo ideológico, outro pelo descarado aproveitamento politico de um tema que nos poderia dizer muito, caso tivesse sido exposto por si só. E era assim que deveria ter acontecido, sem subterfúgios  ou outras pretensões. Sincero, que não foi.

O que me leva ao tema que urge ser discutido, aqui em forma de documentário cuja exibição se promove.

Earthlings é o mais brutal e sincero documentário sobre o tratamento que a humanidade tem vindo a reservar para a outra dimensão biológica do planeta, a Fauna.

No caso, é feito com recurso a imagens violentamente dolorosas, mas que são obrigatórias para quem invoca a faculdade da consciência. “Eu não gosto cá de ver os animaizinhos a sofrer…” Mas, de um modo geral, a imagem é possível, em parte, porque o mercado que a possibilita é alimentado por uma desenfreada politica de consumo. E aí, não há redenção possível. O falhanço é civilizacional.

Earthlings invoca uma simples questão: Qual a diferença entre o facto de os mais quentes verões dos últimos 100 anos terem ocorrido na ultima década e o contínuo alimentar dos negócios milionários de Fast Food? Pior, a resposta e mera constatação de facto: Somos mais inconscientes do que ecologistas, e essa deve ser a verdade mais conveniente.

São 95 minutos, numa experiência que tem uma certa carga Kubrickiana. Não raras vezes me lembrei do tratamento Ludviquiano a que o jovem Alex DeLarge, interpretado por Malcom McDowell em A Laranja Mecânica foi submetido. E recordo o comportamento de Alex, em nada distante, na sua violência gratuita,da negligência estúpida que todos nós, hoje, no auge da nossa evolução, partilhamos. E isto 30 anos depois.

38 anos depois de Armstrong, a raça humana salta, mais uma vez…

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A paixão do povo pelo tema errado.

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É comum, no discurso de defesa do património arquitectónico, se invocar o conceito de ‘regionalismo critico’ para de repente se poder defender todo o tipo de intervenções que, pela sua especificidade ou mera abordagem ao lugar de intervenção, possam resultar como desvios aparentes do contexto. E aqui a sensibilidade é muita.

De resto, ao longo dos anos temos sido constantemente confrontados com a incapacidade, de governantes e governados, em lidar com este tipo de obras. As crises de aceitação, que já são crónicas, revelaram-se sempre que as intervenções envolviam uma maior quantidade de capital e um elevado sentido estratégico, das pontes do Tejo às grandes redes viárias, do CCB à Casa da Música.

Mas se a incapacidade em conjugar a tomada de decisão com a aceitação popular se revela na grande escala, também [ou sobretudo] no reduto mais particular se verifica a condição.

São várias as razões para que nos incompatibilizemos imediatamente com a audácia da renovação, ou com a mera ideia da recuperação. Em parte o devemos ao legado histórico da nossa arquitectura, que nos foi habituando a conviver bem com o que se foi tendo. E, regra geral, tivemos sempre muito pouco, o que é facto. Dos estilos antigos contam-se pelos dedos as obras nascidas de raiz para celebrar o esplendor do homem clássico [e as que assim surgiram, acabaram por sofrer mais tarde pequenas operações de estética, de modo a se adaptarem ao período novo, que substituía o antigo, mas que o país, por incapacidade financeira não conseguia celebrar com obra autêntica].

E assim aprendemos a arte do remendo, cuja mestria temos vindo a atingir nos tempos modernos.

A verdade é que deste modo se criam complexos em paralelo, a maior parte como mecanismos de auto-defesa do legado apodrecido com que de forma tão simpática fomos aprendendo a conviver, castrando desse modo qualquer iniciativa fresca.

E não fosse a malta do modernismo, aqueles futuristas…

Recentemente a discussão em torno de um edifício em Piódão motivou diversas opiniões no arquitectura.pt. Apesar de algum optimismo inicial, acabei por não me surpreender com o efeito global das críticas que, de um modo geral, se mostram contra a implantação de um edifício daquela natureza no centro histórico da aldeia.

E a natureza, é a mais generosa das arquitecturas. A polémica é a mera pigmentação da fachada. Invocam-se as paredes brancas e o desenho atrevido de um dos vãos que se faz notar em alçado. Defende-se o princípio do seguidismo da forma, e revelam-se manifestações de desagrado no que ao desvio histórico diz respeito. E a maior parte dos argumentos, preconceitos em boa verdade, surge pela voz dos arquitectos.

Mas também pela voz do senhor presidente da junta José Lopes, que se mostra desagradado com a modernice que ali está a mais:

“Eu acho que é uma modernice que está ali a mais para aquilo que se queria preservar do Piódão porque antigamente andou-se a patrocinar o retirar dos rebocos nas casas que estavam a branco e a tirar a telha vermelha e a pôr lousas portanto escuras e neste momento parece que os projectos estão a enveredar por um caminho oposto, não é?”

E a única questão que interessa à discussão é a da intervenção moderna. Não gostamos, sejamos sinceros.

Reconheço legitimidade a espanhóis, franceses e bretões na defesa da sua arquitectura antiga, pelo legado que carregam, mas também pela capacidade de ao longo dos anos ter sido sujeita a um convívio bem sucedido com a inovação, o que, no limite, resulta numa perfeita identificação entre as diferentes camadas de desenho que se reconhece em cada um dos países e respectivas cidades, antítese do que se passa em Portugal.

É regra, em passeio por Lisboa, Porto, Coimbra, Évora, reconhecer a ancestralidade dos edifícios pelo profundo estado de degradação em que os mesmos se encontram, enquanto vão convivendo com obras pindéricas de legitimidade suspeita que, por fazerem favores ao contexto, não acicatam tanto os ânimos. Passam despercebidos, e aí está tudo bem.

Não pretendo fazer alertas de lucidez, até porque a educação neste tipo de questões demora muito tempo a se manifestar e as gerações modernas ainda se vão corrompendo pela opinião tacanha, mas, é absolutamente notável que no país onde obras estruturalmente megalómanas como o novo centro de artes de Sines, cuja inquestionável mais-valia para a região surge totalmente subvertida pela intervenção fotogénica de autor com um custo que deveria ser incompatível para a essência e propósito do objecto, andem os arquitectos e as gentes que tornam publicas as opiniões, a debater menos de 100 metros quadrados inofensivos em Piódão, que talvez carreguem mais história do lugar na sua modernice do que todos os edifícios vizinhos que, no seu falso vernáculo, surjam mascarados de efeito pitoresco.

Fundamentalmente não se tratam de 100 metros quadrados de arquitectura de autor, e é esse o outro lado da questão. Por cá, no que toca a seguidismo, a assinatura teria sido um bom argumento a favor. Há prioridades e prioridades.


J2 house – 3LHD

Desde a publicação do Sports Hall em Bale, Croácia, que o gabinete responsável pela concepção do projecto, 3LHD Architects, me tem vindo a enviar algum material sobre obras desenvolvidas por si, sem fazer questão de que o mesmo seja publicado. Deste modo tenho vindo a acompanhar à distância o desenvolvimento do trabalho deste grupo de jovens croatas que entre algumas obras mais comerciais acaba por desenvolver alguns raciocínios absolutamente magníficos, como este com que se inicia 2008 aqui no Aspirina.

O projecto data de 2004 e foi concluído a meio de 2007, consiste numa habitação unifamiliar, localizada na área residencial de Zagreb, Croácia, que surge no lugar em substituição de uma habitação datada de 1950. A antiga casa, que não correspondia nem ás exigências do lugar nem ás da família, dá assim lugar à nova intervenção.

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