Algumas ideias sobre o evento de domingo:
Atonement

A adaptação de Joe Wright ao romance de Ian McEwan com o mesmo nome não é um filme arrebatador, e confirma, salvo meia dúzia de excepções o velho dito de Hollywood, é que raras vezes um remake supera a versão original, e poucas vezes uma adaptação consagra a obra escrita que a precede.
Atonement é filme de magnifica banda sonora e sustentado pelas interpretações de Keira Knightley e James McAvoy. Knightley brilhante e McAvoy a dar seguimento a uma carreira inteligente e que após The Last King of Scotland o confirma agora como um dos actores emergentes de uma nova geração, da qual Knightley, mais blockbuster, também faz parte.
A cinematografia, acompanhada pelas verdadeiras sinfonias de batimento de tecla de máquina de escrever que nos guardam o segredo que o final tem para mostrar, confunde-se não raras vezes com Pride and Prejudice, também de Wright, o que confunde o resultado de um grande filme, com uma forma de fazer cinema. Não deixa de se sentir uma mão cheia de Deja Vús.
Michael Clayton

Raras vezes um filme de moralidade americana resultou em tamanha aclamação. E Michael Clayton, Clooney e Tony Gilroy merecem os elogios por completo.
Clooney, no papel do advogado underdog, anula o factor que em tempos o excluía das avaliações criticas, é que apesar de bem parecido, Clayton é um homem acabado em si mesmo com total incapacidade em aceitar a trama que o rodeia, pessoal e profissionalmente, que se balança entre a fatalidade de enfrentar o mundo real e a arbitrariedade de uma mesa de jogo.
Michael Clayton é hoje um filme mais fácil do que o seria há 10 anos atrás, e Clooney torna o exercício de cinema mais fácil à medida em que Clayton se revela e com ele o background monopolista que o envolve. A ele e ao brilhante argumento que se mostra de trás para a frente e de novo de volta ao principio, sem recorrer a golpes de protagonismo ou maior afirmação.
Juno

Quando no ano passado Little Miss Sunshine reservou assento entre as nomeações para filme do ano poucos acreditariam que uma fita do mesmo género voltasse a chegar à noite de gloria do cinema em tão curto espaço de tempo. Mas não é essa a glória de Juno.
Juno é improvável na sua “inocência adolescente” e não perde valor à medida que se vai revelando tão humano quanto genuinamente doce e pateta. A história de uma grávida adolescente a quem a dureza da maternidade precoce não altera a forma de estar e se relacionar com aqueles que, fruto das circunstâncias, surgem a seu lado, é contrabalançada com o altruísmo de quem se recusa a interromper a gravidez e, no inicio do atribulado processo, decide dar o seu bebé a uma adopção seleccionada.
E se o voto do sentimentalismo valesse, Juno arrecadava o ouro no Kodak Theatre.
No Country for Old Man

No Country for Old Man é o tipico filme que surpreende pelo elenco que o torna categórico. É assinado por Joel e Ethan (!) Cohen.
Com papelaços de Javier Bardem e Josh Brolin, No Country for Old Man torna-se obsessivo pelo silêncio ao mesmo tempo que se revela cada vez mais cru na fotografia e violento na acção apesar de nunca esconder um provincianismo texano-sulista ilustrado por um homem rude que se julga capaz de guardar consigo uma fortuna de um negócio narcótico que correu mal, ao mesmo tempo em que é perseguído por um dos melhores assassinos da história do cinema.
Bardem, na sua performance americana, engana-nos por completo. Torna impossível qualquer hipótese de identificação com o tipo que fez Mar Adentro e com isso alcança uma identidade magnifica. O diálogo com o dono da loja de conveniência é, por si só, um dos melhores pedaços de filme dos últimos anos.
There Will Be Blood

There Will Be Blood é o filme do ano. E com a concorrência de No Country for Old Man e Michael Clayton o feito torna-se ainda mais espectacular. Não só é assim, como ainda vence com facilidade.
Daniel Day-Lewis foi descrito recentemente por Nuno Markl como o homem com a gestão de carreira mais inteligente da história do cinema. E não há meio de contrariar a ideia. Se There Will Be Blood é filme de excelência na direcção e realização deve-o, em partes iguais, a Paul Thomas Anderson e Daniel Day-Lewis.
A ascensão de um senhor do petróleo e a sua obsessão pela competitividade é vista a par do contrapeso cénico protagonizado por Paul Dano, um falso moralista religioso que procura a todo o custo afirmar a sua religiosidade sobre a ganância de Day-Lewis.
Mais do que um filme sobre a origem da corrida ao ouro negro e o seguidismo religioso, There Will Be Blood é uma obra prima sobre a escassez de materialismo. É assumpção pessoal a todo o custo, ganância e obsessões monstruosas que culminam em cena notável, com os dois homens que fizeram valer a história durante um par de horas a consumiram-se mutuamente, muito depois de, cada um a seu jeito, ter consumido o que deles restava. E se Daniel Plainview se revela cada vez mais egoísta e desumano numa sinceridade desarmante, Eli perde a máscara, reconhece-se e assim não deixa de se assumir fiel à sua falsidade no culminar de uma das mais bem contadas histórias da história do cinema moderno.
Valem, todos sem excepção, a ida ao cinema e provavelmente estará reservada à academia a possibilidade de nos surpreender com as suas escolhas. É normal que assim aconteça, com a excepção de este ano se contar com uma mão cheia de grandes filmes, qualquer um com argumentos válidos para uma vitória no culminar na noite. Aguardamos para ver, é para acompanhar na madrugada de segunda, por cá, na TVI.