Aspirina Light

Carta aberta a Pedro Gadanho

February 11th, 2008 · 1 Comment

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Sempre quis escrever uma carta aberta, mas nunca encontrei causa para os meus intentos. Tenho visto algumas cartas abertas pela imprensa escrita e confesso que algumas são verdadeiras pérolas de semântica e bem escrever. Ainda as confundo com o chamado ‘direito de resposta’. Dever-se-íam definir ambos os conceitos, de modo a que quem queira escrever uma carta aberta não acabe por cair afinal no erro de accionar o respectivo direito de resposta.

Estimo que isso não esteja a acontecer comigo, neste preciso momento.

Leio via O Desproposito a carta aberta que escreve. Não possuía destinatário o que me parece lamentável, corre o risco de não chegar ao destino, e assim, não ser lida por quem de direito. Pior, de não ser interpretada com o cuidado que merece.

Bem escrita e assertiva, é uma espécie de herdeira natural do estilo curto e grosso com que a nossa literatura tão bem se tem vindo a tratar desde a revolução de 74. Uma espécie de mal estar permanente que não pressupõe nada de bom, um risco eminente de mudança e exultação do povo. Temo-nos vindo a debater com boas intenções do mesmo género ao longo dos últimos 34 anos, mas pecamos invariavelmente na forma como não conseguimos concretizar o ímpeto inicial e isso conduz-nos a sérios problemas de assumpção de identidade. Acabamos quase sempre por escolher o alvo errado.

O prazo do DL 73/73 desvanece aos nossos olhos, o tempo de discussão e aprovação da coisa começa a esgotar-se, e corremos o sério risco de vir mesmo a conseguir a aprovação do documento. Não me ocorre disparate pior. Uma espécie de catástrofe eminente à qual se não conseguirá escapar. Sobretudo porque esgotará o conceito de “bode expiatório” a que tantas vezes recorremos, é caso para nos questionarmos. E depois, de quem nos queixamos?

A discussão do 73/73 tem servido acima de tudo como um balão de oxigénio para a comunidade de arquitectos portugueses. Caso um dia, um documento idêntico, ou o mesmo, venha a ser aprovado, diz o Pedro, “simplesmente devolverá a competência de projecto àqueles com quem sempre deveria ter estado “, apesar de me sentir lisonjeado com a sua crença, acredito que o problema se encontra a jusante daquilo que defende. E no caso especifico o episódio de Sócrates é mera nota de rodapé no panorama de crimes urbano-paisagisticos com que nos temos vindo a deparar desde que o tema entrou em ponderação.

A aprovação sugerirá que pelo menos a competência no desenvolvimento de projecto estará entregue a quem de direito. Mas a história recente evidência que os arquitectos não perseguem esse objectivo como a maior das prioridades.

Não sou propriamente um acérrimo defensor do Decreto uma vez que acredito que muito boa gente sem formação no âmbito das artes estará dotada de melhor gosto arquitectónico do que a maioria dos licenciados em arquitectura que todos os anos iniciam o seu percurso profissional. E se reconheço culpa a alguém na morosidade do processo, então é dentro da própria classe, e todos os dias me deparo com as torres de Lisboa a lembrarem-me disto mesmo: ‘Que tudo é negociado’, e que dentro das prioridades de uma elite especifica, o 73/73 é episódio de somenos importância.

A parca imagem de cultura nacional que as obras de Sócrates nos transmitem é somente parte de um problema que os arquitectos não fazem questão de resolver acima de qualquer outra questão, e afinal, enquanto durar, é bandeira formidável para a luta da classe, conceito manhoso mas que serve perfeitamente os intentos dos demais. Pelo menos de alguns. Os que podem dar-se ao luxo de se não preocuparem com o passo seguinte.

Assim acontece em tantos outros lugares da nossa sociedade.

As estratégias de desculpabilização adoptadas pelo nosso Primeiro atestam apenas o provincianismo nacional. Não justificam mais nada que não seja a incapacidade de reconhecimento do erro, preconceito fundamental para a manutenção de uma série de lacunas de principio que minam a nossa forma de estar e que assim comprometem o desenvolvimento sustentado de um país à beira da falência, que falha pela total descoordenação entre as partes, e dentro das partes em si. Quando não conseguimos concertar uma estratégia que sirva a todos dentro de uma ordem profissional, de que modo conseguiremos um dia vir a justificar o direito à defesa da classe que se representa?

Considero muito útil a carta que escreve, desde que remetida à Travessa do Carvalho, números 21 a 25, com meia dúzia de aditamentos.

Tags: Arquitectura

1 response so far ↓

  • 1 CARLOS CLARA // Feb 19, 2008 at 3:50 pm

    “… e afinal, enquanto durar, é bandeira formidável para a luta de classe, conceito manhoso mas que serve perfeitamente os intentos dos demais. p
    Pelo menos de alguns. Os que podem dar-se ao luxo de se não preocuparem com o passo seguinte.”
    O passo seguinte? Isso dá trabalho, não traz “income” e não alimenta demagogia. Quando tudo passar, ou melhor- o ministro, ninguém acusará ninguém. E depois, como dizia Yourcenar - “O gosto do sensacional acaba por fazer triunfar a política do pior, perdida na multidão dos habilidosos grosseiros, dos loucos violentos, dos honestos desastrados e dos fracos prudentes.”, creio que também é disso que se trata.

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