Archive for April, 2008

Icon: 20 essential young architects

O número deste mês da revista ICON apresenta uma lista dos 20+ importantes jovens arquitectos, cujo trabalho tem vindo a chamar à atenção da cena arquitectónica mundial. Não há portugueses entre os escolhidos, mas há muito nome conhecido que, pasme-se, volta a aparecer em eleições categóricas.

Kudos 4:

REX | Alejandro Aravena | Barozzi Veiga | FAT | Jesko Fezer | BIG | Architecture for Humanity | Serie | Philippe Rahm | 6a | MAD | Work Architecture Company | Junya Ishigami | JDS | Information Based Architecture | Limited Design | Carmody Groarke | Dorell Ghotmeh Tane | Sou Fujimoto | Feld 72

Via edgargonzalez.com

BIG.tv

LEGO TOWERS

SCALA TOWERS

BAT MOSQUE

Casa Angola, S’A @ Construir

A Outra Casa

O fenómeno da eco-arquitectura tem vindo a ser menosprezado pelo contexto que o precede. Não raras vezes, arquitectos com oportunidade para exprimirem as suas opiniões sobre sustentabilidade tendem a refugiar a critica no que o tema tem de mais redutor: a forma, ou, no limite, a expressão construída do objecto.

O preconceito da forma assume-se como o maior handicap no campo da arquitectura sustentável precisamente porque esta não tende a produzir luxo ou ostentações tectónicas, pelo contrário, pretende acontecer a partir da máxima gestão de recursos com considerações conscientes no que à economia de meios e ao conhecimento tecnológico diz respeito, para que o resultado final não seja apenas produto do intelecto, mas antes um acto consciente de resolução de um problema com muito mais variáveis para além do romance do lugar e a fotogenía do edificado.

A casa Angola propõe-se generosa. Pretende operar em lugares desérticos, sítios de clima quente e onde os recursos financeiros não se prestam a despesas. Pelo contrário, desenhar para a classe média/baixa em Angola, é exercício que exige a maior reflexão estratégica, de modo a que se garanta ideal harmonia entre o acto criativo, agente indissociável do processo, e a própria sustentabilidade financeira do projecto.

É aqui que se reconhece o ponto de cisão entre duas arquitecturas distintas: a primeira, que ainda se assume como o mais notório ocupante no veículo da divulgação artística, e a segunda, nobre nos seus propósitos, mas que continua a não comprovar suficientes mais valias para que se reconheça como igual à primeira, curiosamente, não nos coloca entraves, não media a sua relação com o arquitecto através de promotores confusos ou clientes disfuncionais, pelo contrário, assume-se tão redutora nos seus propósitos como o é na essência do processo que leva à sua construção – Simples, e para além disso, mais nada.

O custo da casa pretende ser controlado a partir do princípio de 50€ por metro quadrado, resolvendo, a partir daí, o problema do conforto ambiental, luxo com que ainda se não vive neste quadrante do continente africano.

A planta é simples e adaptável às necessidades das famílias que em número e em estilo poderão variar na ocupação do espaço, e, a partir de um sistema eficiente de composição modular, o interior serve as necessidades e condições sócio-económicas dos seus habitantes.

Por fora é uma casa típica, que se pretende revestir em alegoria ao sitio em que se insere, através de um revestimento exterior em Bambu, Madeira ou palhota, permitindo assim um controlo térmico a partir da menor inércia da pele exterior por oposição ao interior da casa, controlando assim as alterações térmicas ao longo do dia e à noite.

O perfil do corte não engana. Identifica o objecto na lógica do seu propósito: para além de todas as estratégias, ainda é uma casa, e, apesar de se poder vir a assumir como mais um dos parentes pobres no mundo ainda dominado pela magnificência do que a engenharia tem para oferecer, a casa Angola é o mais autêntico dos exercícios de construção.

Nenhuma arquitectura, igualmente potenciada para o conforto e excelência na assumpção dos seus propósitos se pode vir a assumir como mais arquitectura.

O fado teimoso

Ouço Thriller, 25 anos depois.

A edição comemorativa acrescenta meia dúzia de devaneios modernaços com Fergie e Will.I.Am, entre outros. O som dos originais é o mesmo e deixo-me levar por Billie Jean e Beat It, quando Jackson ainda era Jackson, e a coisa nunca soube tão bem.

Dou um salto à wikipedia e passo os olhos pelas glórias dos anos 80, que não foram loucos nem foram revolucionários. Foram despenteados e mal vestidos, foram pindéricos ao som dos Europe e brilhantes na voz de Bono, mais do que isso, foram referenciáveis, definiram estilos e fizeram-se ouvir em contextos puramente artísticos, com espaço anda para os romantismos do Brian Adams.

Poucas recordações guardo da época, mas a vantagem de uma irmã 10 anos mais velha permite identificar no universo das memórias o tom das notas que chegava na altura pela mágica fita da cassete dentro do gadget que reinou durante mais de duas décadas, o walkman. E tudo ali acontecia no tempo certo.

Procuro esvaziar o mundo actual de todo o facilitismo com que nos temos vindo a apetrechar, e imagino uma cultura sem Internet e consumo noticioso compulsivo online, e imagino a divulgação artística sem o ímpeto do mp3.

Rapidamente se enchem as bibliotecas e a Valentim de Carvalho. Imagino a TV a 2 canais, e rapidamente se enchem as paredes de posters dos meus artistas preferidos.

Neste mundo sem referência, sem brain-melters, rapidamente me canso das horas em casa. Não existem Playstations nem computadores velozes, só o Supermário na NES e um Comodore Amiga na casa de um vizinho abastado que passa o dia a correr jogos via DOS. Eu tenho um Spectrum, são 10 minutos de load ao Paperboy.

As ruas? Apinhadas de criançada que grita por todo o lado, que joga à bola e ao berlinde, e ao elástico, e ao mata, e ao piolho. E lambem as mãos cagadas da terra dos canteiros, e andam todos à porrada e aos beijos. E são todos amigos, foi sempre assim.

Jackson, na cor quase original, faz o último acompanhamento a For All Time e o disco chega ao fim, a agulha salta e rebenta-me os ouvidos naquela tecnologia imbecil que não acautelava todos os pormenores, e é 2008 outra vez.

E disto, nada. Uma rua deserta e casas apinhadas de miudagem agarradas ao msn, são as referências de hoje. E bate uma profunda tristeza no meu fado português.

Que bom que era antigamente? Talvez. Era tão melhor do que isto.

Parque Mayer . ateliermob

A importância da nova formação

Os resultados do concurso público para a área do Parque Mayer não provocou maior discussão no que diz respeito ao tema central do evento: Como requalificar uma mancha de cidade despida do seu propósito, a que apenas sobrevive a simbologia da movimentação político-social de uma Lisboa que ali encontrava, em tempos de silêncio opressivo, o lugar onde, por entre a ironia das palavras e os banhos de cor num país cinzento, se fazia a oposição possível.
As propostas classificadas nos cinco primeiros lugares devem ser primeiro analisadas a partir de uma perspectiva politica, em duas décadas foi o primeiro concurso público totalmente aberto, tendo a cidade como objecto de estudo, e esse será sempre o valor mais importante: deu-se espaço à abordagem artística.
O ganho é geral e não pertence exclusivamente à classe dos arquitectos, pertence a uma cidade que nos últimos anos vira a maior parte das obras de relevo serem estrategicamente entregues a diversos clientes, sem que da ‘boa vontade’ dos promotores se tenha retirado particular proveito.
Dos cinco classificados na primeira fase encontram-se quatro nomes comuns, Aires Mateus, ARX, Eduardo Souto Moura e Gonçalo Byrne, e um grupo que surge como o chamado underdog, Vão Arquitectos, naquela que é, curiosamente, a mais arrojada das propostas. Uma revelação que se nota pela diferença para os demais e, se neste processo, se ganhou espaço para outras perspectivas, essa é a maior das conquistas.

É a partir deste pressuposto que surge a proposta do ateliermob.

O retrato da Lisboa perdida nos recantos do Parque Mayer, é um retrato sofrível. Daqui se retiram os gostos artísticos, a conotação brejeira do teatro de revista e a boémia alfacinha dos anos 60. O Parque Mayer, outrora símbolo orgulhoso de uma resistência expectante, apresenta-se hoje como uma resolução estéril de um país que deixou há muito a praça da primavera, onde os tiques europeístas nos fazem olhar com desdém para os lugares de onde viemos, o que, com o tempo, tende cada vez mais à sua anulação histórica e a uma cada vez mais evidente perda de identidade. Tem-se vindo a dar lugar à vocação global da geografia, da EXPO ao EURO, em breve, de Alcochete até ao TGV. Aí restar-nos-á a biblioteca da história contemporânea, até que o tempo permita reconhecer estes momentos do passado como ferramentas acessórias que nos levaram à emancipação.



Apresenta-se o valor da cor. A importância de uma paleta enriquecida por uma cultura quase milenar que é potenciada na concretização de uma proposta que promove dois momentos fundamentais na abordagem ao objecto de estudo: de um lado a cultura citadina, a introdução de um ascensor e do seu valor, também ele cromático, na definição da identidade alfacinha, estereótipo que viaja ano após ano nas fotografias turísticas de quem aqui se vem encontrar. Do outro, a leitura de continuidade, da Avenida da Liberdade até ao alto do Príncipe Real, e, consecutivamente, a nova interpretação da franja do Parque Mayer que contempla na sua leitura a complementaridade com o Jardim Botânico. O testemunho do Parque é assegurado pelo Capitólio e pela manutenção do Variedades, funcionando em conjunto como valorização mútua do espaço que se volta a reconhecer enquanto momento comum. O resto é desenho cinestésico, identifica-se com facilidade a progressão das escalas e valoriza-se automaticamente o valor da presença de novos objectos que complementam a leitura do conjunto.
Nos percursos, paralelos, a cor é condição inerente a todas as conclusões. O ascensor conclui a abordagem inicial e surge como propósito que assegura a continuidade entre as partes, ao mesmo tempo que pretende resgatar o valor cultural e comercial que entretanto se perdeu, dando espaço para que o atravessamento seja acompanhado por recantos típicos da realidade lisboeta, que a partir daqui se pretendem valorizar.
O ancoramento é garantido pela impregnação de lugares comuns e pelos quais a cidade se tem mantido expectante.

3 Questões a Tiago Mota Saraiva, ateliermob

A vossa proposta assenta-se em dois fortes pressupostos, o valor da introdução do ascensor num novo eixo pedonal e a importância da paleta de cores criada por Robert Wright para a cidade de Lisboa.
De que forma contaminaram estes conceitos a vossa abordagem ao lugar e ao programa proposto?

Em primeiro lugar, diríamos que aquilo que era fundamental na nossa proposta seria o elevador enquanto gerador de requalificação urbana. Até a própria investigação histórica que fizemos veio a constatar que a ligação entra a Avenida e o Príncipe Real por intermédio de um elevador era uma velha aspiração municipal, de há 120 anos. A questão das cores apareceu-nos a partir de uma reflexão recorrente no atelier sobre a identificação da cidade de Lisboa “como cidade branca”. Ora, um olhar atento, percebe que os edifícios brancos em Lisboa são raros. A forma de entrada da luz do Sol na cidade e a reflexão que o rio provoca, é que unifica as cores e dá o mote para a considerarmos como cidade branca. No nosso entender o Robert Wright, pela sua visão externa, entende isso muito bem.

Propõe-se ainda a ligação da Av. da Liberdade ao Príncipe Real através de uma nova rua com ascensor, de trânsito condicionado que se pretende funcionar como o resgatar de uma realidade lisboeta de comércio e vivência exterior que se encontra perdida.
Colocaram recentemente no vosso blog uma questão pertinente: Frente Ribeirinha de Lisboa, existindo novas ideias e uma nova entidade gestora, quantos concursos públicos para projectistas se irão realizar?
Receiam que o tema de fundo caia em profunda especulação sem que daí se retire o que de mais importante nos deve preocupar, no que à cidade diz respeito, também em lugares como o Parque Mayer?

Lisboa continua a ser uma cidade adiada. Após anos e anos de deserção de residentes, seja por políticas erradas, por projectos e planos pouco hábeis ou por se ter dado o papel fundamental na construção da cidade a entidades, privadas ou públicas, cujo principal interesse é especular para obter mais-valias, Lisboa foi-se esgotando. É impossível lidar com uma cidade com 500.000 mil habitantes, que diariamente é “abalroada” por 2 milhões de trabalhadores que vêem dos concelhos limítrofes, e que na sua maioria foram expulsos da cidade.
Estamos a trabalhar numa cidade para 2,5 milhões de pessoas, sabendo que nela apenas dormem 500.000.
Agora, não nos parece que se esteja a aprender com os erros. Quando se fala em sustentabilidade, logo aparece o grupo financeiro do costume, e os projectos e planos são feitos por quem os faz há mais de 30 anos, com os resultados visíveis.
No que diz respeito ao Parque Mayer, o programa do concurso era absurdo. Sob a capa de se deixar aos técnicos o direito de “criar”, a Câmara Municipal de Lisboa, não definia claramente um programa ou os termos de referência para a intervenção. Foi como fazer um projecto de uma casa, para alguém que não conhecemos, que não nos diz quantas pessoas a vão habitar e que nem sequer nos dá uma planta do terreno para podermos trabalhar.
Contudo, parecia-nos um meio para se poder discutir a cidade. Apesar de ser um concurso com um programa caríssimo e mandrião, identificámos uma luz ao fundo do túnel como uma possibilidade de, jovens arquitectos e outros cidadãos (e não os agentes tradicionais), poderem produzir matéria crítica sobre a cidade que também é nossa. E foi por isso que fomos (dos poucos) que insistiu em concorrer.

No seguimento deste conjunto de propostas que têm vindo a apresentar em concursos em Lisboa, qual seria, na vossa opinião, o próximo passo em termos de objecto de estudo?

Ao longo da curta existência do ateliermob, já temos um conjunto diversificado de intervenções propostas e concretizadas em Lisboa. Desde a intervenção de requalificação de um fogo a propostas mais urbanas como a da 2ª Circular. Actualmente, estamos a pensar em tentarmos registar tudo identificando um tronco comum, se ele existe.
Sobre outros projectos para Lisboa, como vivemos e trabalhamos nesta cidade, não podemos deixar de a percorrer, de olhar à volta e propor. Mesmo que seja aos peixes.

O acompanhamento a este projecto e à actualidade do ateliermob pode ser feito via arqmob.blogspot.com. A visita é obrigatória.