Aspirina Light

O fado teimoso

April 22nd, 2008 · 1 Comment

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Ouço Thriller, 25 anos depois.

A edição comemorativa acrescenta meia dúzia de devaneios modernaços com Fergie e Will.I.Am, entre outros. O som dos originais é o mesmo e deixo-me levar por Billie Jean e Beat It, quando Jackson ainda era Jackson, e a coisa nunca soube tão bem.

Dou um salto à wikipedia e passo os olhos pelas glórias dos anos 80, que não foram loucos nem foram revolucionários. Foram despenteados e mal vestidos, foram pindéricos ao som dos Europe e brilhantes na voz de Bono, mais do que isso, foram referenciáveis, definiram estilos e fizeram-se ouvir em contextos puramente artísticos, com espaço anda para os romantismos do Brian Adams.

Poucas recordações guardo da época, mas a vantagem de uma irmã 10 anos mais velha permite identificar no universo das memórias o tom das notas que chegava na altura pela mágica fita da cassete dentro do gadget que reinou durante mais de duas décadas, o walkman. E tudo ali acontecia no tempo certo.

Procuro esvaziar o mundo actual de todo o facilitismo com que nos temos vindo a apetrechar, e imagino uma cultura sem Internet e consumo noticioso compulsivo online, e imagino a divulgação artística sem o ímpeto do mp3.

Rapidamente se enchem as bibliotecas e a Valentim de Carvalho. Imagino a TV a 2 canais, e rapidamente se enchem as paredes de posters dos meus artistas preferidos.

Neste mundo sem referência, sem brain-melters, rapidamente me canso das horas em casa. Não existem Playstations nem computadores velozes, só o Supermário na NES e um Comodore Amiga na casa de um vizinho abastado que passa o dia a correr jogos via DOS. Eu tenho um Spectrum, são 10 minutos de load ao Paperboy.

As ruas? Apinhadas de criançada que grita por todo o lado, que joga à bola e ao berlinde, e ao elástico, e ao mata, e ao piolho. E lambem as mãos cagadas da terra dos canteiros, e andam todos à porrada e aos beijos. E são todos amigos, foi sempre assim.

Jackson, na cor quase original, faz o último acompanhamento a For All Time e o disco chega ao fim, a agulha salta e rebenta-me os ouvidos naquela tecnologia imbecil que não acautelava todos os pormenores, e é 2008 outra vez.

E disto, nada. Uma rua deserta e casas apinhadas de miudagem agarradas ao msn, são as referências de hoje. E bate uma profunda tristeza no meu fado português.

Que bom que era antigamente? Talvez. Era tão melhor do que isto.

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1 response so far ↓

  • 1 CJ // Apr 25, 2008 at 9:18 pm

    Não há melhor definição para o quotidiano actual: isto, esta coisa vazia e enferma.

    Saudosismo….

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