Passo os olhos por meia dúzia de blogs que são presença incontornável nos favoritos, e vejo que as criticas muitas vezes feitas à comunidade blogger têm toda a razão de ser.
Não faço escolha detalhada no que leio, do mundo onanista de Nuno Markl ao sectarismo absurdo de JPP, o meu acompanhamento ao que se escreve por essa Internet fora é bastante diversificado, e isso serve como ferramenta acessória aos fóruns de discussão e ás noticias que consumo no único canal televisivo por onde me detenho de quando em vez, a SIC Noticias, é aquilo que resta do serviço público.
A blogosfera nacional é demasiado provinciana, suporta-se em gente que utiliza o poder do teclado para morder em tudo o que mexa, seja na actualidade politica, na vergonha da economia, no marasmo da cultura ou na miserável fantochada de arremessar as ditas opiniões sobre nada, no trabalho ou na escrita dos outros. Mas, por fraca que seja, encontra suporte no que a estes assuntos diz respeito.
O que me leva a entrar pelo campo da crítica arquitectónica, que, simplesmente, não existe. Existiu, em tempos, mas quedou-se na assimilação dos intervenientes pelo sistema reinante, ainda que esse tenha mudado de mãos entretanto.
E é aí que surge a incómoda conclusão, na ausência de actividade manifestamente critica daquele que é, o negro, cenário da nossa arquitectura. Recorrem-se a malabarismos de retórica e semântica, utilizam-se discussões paralelas sobre temas que se encontram muito para lá daquilo que nos interessa. E a classe, aquela que das 9 às 20 é ininterruptamente escravizada aos olhos de uma Ordem vazia, mascarada de gente pouco interessada, entre dois cafés e uma sobremesa num qualquer restaurante high-cost da capital, até aqui se tem de se remeter à sua insignificância, sem fundamental apoio de fundo, que não surge de lado nenhum.
Contra mim falo que de actividade reivindicativa pouco ou nada me posso orgulhar, mas o cenário vigente muito tem influenciado o meu contínuo e crescente desprezo por alguns monstros sagrados do nosso, fraquinho, star-system.
Pior, a visita recente à exposição no museu nacional de história natural, onde está, por estes dias, a exposição do concurso de ideias para o Parque Mayer. O paupérrimo resultado do evento é sintomático da opinião que expus acima, é que na falta de suporte aos mais pequenos se revela o continuo decréscimo de qualidade daqueles que por vezes se reconhecem como grandes. Ficam, da exposição, três propostas. A de Gonçalo Byrne, de Manuel Mateus e a já aqui revelada proposta do ateliermob, para lá disso é uma soma gritante de visões absolutamente contaminadas por um potencial de exploração politica do contexto, que nos deverá envergonhar a todos. Por entre minimização do espaço para exploração imobiliária e disponibilização de lotes para o engordar da especulação, fica apenas um conjunto de painéis fracos, cadernos de apresentação miseráveis e uma estranheza duvidosa sobre a inclusão de duas propostas em detrimento de outras duas.
Enquanto o estranho dialoga alegremente com o inviável, continua a cena blog a fazer jornalismo parolo. Salvo meia dúzia de excepções.
Serve como desabafo.

















7 responses so far ↓
1 Joao Soares // May 6, 2008 at 3:04 pm
Um blogue excelente!
Parabéns. Já consta do meu Dossier Terra Arquitectónica.
Abraços
2 Daniel Carrapa // May 6, 2008 at 10:35 pm
Caro Ivo,
Compreendo o teu desalento. Também já aí estive e retirei a conclusão de que serve de pouco olhar para o lado nesta actividade blogger. O espírito reinante na blogosfera portuguesa não é muito diferente do comentário em geral, onde encontrarás igualmente pessoas capazes de exibir uma rebuscada inteligência, por vezes até alguma erudição, e que se satisfazem em colocar as suas capacidades ao serviço da destruição pura. A má-fé, inconsciente ou não, sobrepõe-se a qualquer hipótese de assertividade, com a maioria a fazer o papel de cão que ladra na berma de estrada.
O tema que levantas, da crítica de arquitectura ou da falta dela, não é questão com que me identifique. Nas minhas incursões blog interessa-me mais a crítica da prática da arquitectura – de como a fazemos, de como a pensamos e processamos – do que a crítica do objecto de arquitectura. E nesse aspecto não me revejo nas conclusões que retiras do concurso do Parque Mayer, acima de tudo porque penso que não deverás resumir uma análise de projecto a conclusões tão sumárias e absolutas. Mas reconheço em abono da honestidade intelectual que não visitei a exposição e desconheço em profundidade as propostas.
Tento compreender também o teu desabafo sobre a Ordem. Existe um trabalho por fazer de aproximação da OA aos profissionais e uma maior sensibilização para os seus problemas. Mas também me parece muitas vezes que se misturam questões muito diferentes, esquecendo-se os “críticos” que a Ordem não cria a lei laboral de um país nem interfere na realidade económica que fere o acesso ao emprego de muitos dos nossos colegas. Digo isto sem querer isentar as responsabilidades perante algumas posturas que a OA teve em anos recentes, como o sistema de ingresso e a questão dos estágios, temas que merecem um debate sério de todos os envolvidos, dentro e fora da Ordem.
Partilho ainda contigo uma história que nunca contei em lado nenhum. Quando me vi envolvido na colaboração com o blog da Trienal de Arquitectura assisti a uma discussão penosa sobre o preço do bilhete de ingresso na Conferência Internacional: 250 euros / 150 para estudantes, se bem me lembro.
Foi a única questão que levantou participação de comentários, com muitos colegas a julgar de escandalosos estes valores. Resolvi fazer o trabalho de casa. Pesquisei na net preços de conferências internacionais de arquitectura por esse mundo fora. Os ingressos, em regra, sempre acima dos 500 euros, alguns 800 e mais. Não encontrei nenhum ao preço da conferência da Trienal. E também não encontrei nenhum com um leque tão rico de participantes – Wigley, Thom Mayne, Elizabeth Diller, Saskia Sassen, Kengo Kuma, Bjarke Ingels, etc, etc…
Fui mais longe e pesquisei o preço de acções de formação na área. Encontrei formações em acústica, térmica, segurança, de duração de 3 dias (a mesma da conferência) na casa dos 300 e 400 euros.
E pergunto-me, no final, que justificação existiria para tanta celeuma.
Também quanto ao espírito de participação da nossa comunidade de arquitectos me questionei diversas vezes. Estiveram na conferência para cima de 700 pessoas durante aqueles três dias. E nem uma escreveu um email, um comentário que fosse, a propósito do que viram, do que pensaram, das ideias que lhes motivou a presença num evento que foi realmente interessante e por onde passaram pessoas que dificilmente voltaremos a ver ao vivo em Portugal. Para esta ausência de participação não tenho qualquer resposta.
A única conclusão que vou retirando destas peripécias reside no facto produzir um blog de que gosto e de onde extraio satisfação pessoal. Deixei há muito de escrever para quem quer que seja e de alimentar expectativas. Falo dos temas que me interessam e desenvolvo as minhas ideias, por vezes acreditando que possam tocar uma pequena parte do público que me visita. Mas não espero retorno. E penso que é a única maneira de persistir num meio tantas vezes tão cínico e ingrato que nos cerca. De resto, sinto o mesmo muitas vezes na minha vida profissional. Mas não cedo à auto-indulgência de alimentar estados de alma. Continuo a acreditar que a assertividade e o optimismo – sem garantias – são causas que valerão sempre a pena. E que o futuro acabará por demonstrá-lo.
Abraço.
3 tiago borges // May 9, 2008 at 7:06 am
A questao da falta de participaçao apontada pelo Daniel Carrapa, julgo que nao é apenas um problema dos arquitectos, ou das escolas de arquitectura… Nada de alarmismos. É um problema do espírito portugues (José Gil no seu “Medo de Existir” aponta-o de forma clara). Participar implica pensar… e pensar dá muito trabalho.
(por falta de tempo deixo a questao da malfadada crítica para mais tarde, num outro comentario)
Bom trabalho.
4 Lourenço Cordeiro // May 9, 2008 at 4:23 pm
Bom, dizer que as melhores propostas para o Parque Mayer são as de Gonçalo Byrne e de Aires Mateus está longe de ser consensual, como está longe de ser consensual esse retrato da “blogosfera”. No que diz respeito à “crítica de arquitectura”, por exemplo, (que eu reformularia para “comentário de arquitectura”) acho que a blogosfera está uns furos acima da nossa imprensa da especialidade (a crítica do Público é boa.) Não tanto pela “qualidade” do que se escreve (para fazer uma “crítica” séria a uma obra é necessário visitá-la, falar com o promotor, com o arquitecto, etc.) mas pela frescura da linguagem. Mas há muitos exemplos de escrita blogosférica que é melhor do que a congénere escrita, e não acompanho essa desilusão que tem por base a extrapolação para o todo dos maus exemplos. Enfim, se for para continuar a dizer mal da Ordem tens todo o meu apoio.
5 Lourenço Cordeiro // May 9, 2008 at 4:26 pm
Um grande P.S: A melhor crítica de arquitectura do mundo é a da Architectural Review. Não admito que alguém fale de “crítica de arquitectura” sem ter no currículo - pelo menos - 1500 horas de leitura da AR. Eu, pelas minhas contas, vou aí nas 74, pelo que me auto-excluo à partida.
6 Marco Lopes // May 13, 2008 at 7:54 pm
Ivo dizes tudo no titulo do post, revela a fortissima condiçao humana que pussuis.
O que nos consome na proporção de um todo, revela-se em uma equivalencia real de muitos nadas…
Resta-nos o proveito proprio em ladrar para opositores de pau na mão, nem eles avançam nem nós recuamos.
Abraço
7 Ana Taborda // Jun 13, 2008 at 1:04 pm
Estou um pouco longe, neste momento, da realidade da OA em Portugal porque trabalho em França, mas o que me inquieta e me revolta é a organizaçao que supostamente devia proteger, formar e organizar os arquitectos portugueses (que tem tantas qualidades!) é no fundo uma mina de fazer dinheiro e simplesmente so protege o interesse de uns tantos. nao sei como é que a OA ganhou este estatuto mas é realmente inacreditavel que nao olhem para outros exemplos vizinhos e tenham uma inércia ridicula em relaçao à grande crise existe nesta profissao em Portugal. é triste.
Abraço
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