Grotesque

Monday 28th July 08

Escândalo corrente na esfera blog em torno do edifício proposto por Manuel Mateus e Frederico Valsassina para o Largo do Rato em Lisboa.

Comecemos pelo início. A discussão inicia-se com publicação de um artigo de opinião de Ricardo Carvalho, no qual, se lamenta o facto de correr uma petição online contra o dito edifício. Pior, nas entrelinhas (ou nem por isso), do seu texto, a ingerência de se sugerir a delegação de competências no que à gestão urbanística do nosso território, e das nossas cidades, diz respeito. E pior ainda, o hipnotismo pela semântica, no qual, como arquitecto, me recuso a cair.

Diz o Ricardo que “Sem conhecer o objecto de interesse destas pessoas, poderíamos pensar que se trata de um novo edifício de Seguros ou da Federação Portuguesa de Futebol, ou apenas de escritórios como esses que se constroem todos os anos e que são absorvidos pelo quotidiano sem direito a um qualquer blog. Porque é que este projecto de Frederico Valsassina e Manuel Aires Mateus teve honras de opinião de alguns vereadores e de centenas de bloggers?”.

A condução da opinião, a começar por aqui, deita por terra qualquer hipótese de defesa da mesma, porque a arquitectura não se veste nem se maquilha, faz-se através da consideração de factores que tornarão ou não viável o que se propõe e pela soberana opinião de quem paga por ela ou quem com ela tem de lidar diariamente. O uso esse, depende do programa, e essa é função única e exclusiva do arquitecto, que nestas coisas do contraditório costuma reagir mal (e à matilha, em casos particulares). O edifício, nem que abrigasse a nova sede da AMI ou um qualquer nefasto sector da nossa igreja (essa que pode vestir o que quiser, que ninguém lhe toca) se tornaria menos susceptível à critica. Pelo contrário, sendo mais do mesmo, habitação + Retail, é um redondo falhanço, mais um, em potência, do nosso alegre urbanismo.

Não é necessário mais do que um passeio até ao Largo do Camões para se visitar o pouco que ainda resta da integridade alfacinha, essa que, esquiço após esquiço, se vê violentada na sua essência, órfã de uma arquitectura que lhe permita resistir ao tempo e que, pelo menos no que ao domínio da história e identidade de um povo diz respeito, merece ali, na faixa facilmente identificada como retrato de Lisboa ao mundo, a decente consideração daqueles que fazem da arquitectura oficio.

As referências que completam o artigo, às qualidades de escala, tipologia e materiais, enquanto lugares comuns da arquitectura, são suficientes para deitar por terra tudo o que se pretendeu construir na manifestação da ideia de Ricardo Carvalho. A referência à ruptura e a confusão com a integridade na cidade histórica, encarregam-se do resto.

Depois disso é associativismo natural de quem, e quero realmente convencer-me cada vez mais disso, é demasiado sensível à critica ao trabalho dos seus pares.

O complexo de Siza, que uns metros mais abaixo resolveu com a habitual mestria uma difícil relação entre arquitectura pós-modernaça e a arqueologia (Terraços de Bragança versus cerca Vicentina), ainda impera pelos lados da capital. Manuel Mateus é, sem qualquer tipo de dúvida, um dos expoentes máximos da nossa arquitectura cá por fora (e a aclamação do Park Hyatt Hotel em Dublin é testemunho disso mesmo) e não é na recusa da coisa do Rato que de repente se lhe belisca o currículo.

Ora encontrem lá um ponto de equilíbrio entre o que escrevem e o que realmente admiram, sob pena de perderem qualquer tipo de credibilidade na defesa dos interesses da arquitectura.

Essa, que é comum a todos e não é pertença de ninguém.

20 Anos depois

Wednesday 23rd July 08

Via Lusa > Arquitectura.pt

Objectivos do plano de reconstrução do Chiado atingidos 20 anos depois

Lisboa, 19 Jul (Lusa) – Vinte anos depois do grande incêndio do Chiado, foram “atingidos e estão perceptíveis” os objectivos do Plano para a Reconstrução da Área Sinistrada, segundo disse à agência Lusa o arquitecto coordenador do projecto.

Jorge Carvalho, que foi o “braço direito” de Álvaro Siza Vieira no projecto, explicou que “foram introduzidas melhorias nas ligações urbanas entre a Baixa e a Alta [Chiado], foi integrada uma estação de metro e criou-se habitação como factor de revitalização e segurança da zona”.

“Agora vê-se vida intensa no Chiado a várias horas do dia. Há 20 anos, o incêndio demorou a ser notado e a ser dado o alarme devido à inexistência de habitação”, reiterou.

O arquitecto, que coordenou o plano entre 1991 e 2001, falou com a Lusa na sexta-feira, à margem de uma visita guiada ao Chiado promovida pela Ordem dos Arquitectos, no âmbito dos 20 anos do incêndio que deflagrou a 25 de Agosto de 1998 naquela zona da cidade.

Mas ainda há pelo menos um objectivo por cumprir. “Falta o último troço de uma ligação pedonal através de escadas, que ligam um pátio criado na traseiras de alguns prédios da Rua do Carmo ao Convento”, contou.
Segundo explicou, a ligação ainda não foi concretizada “por problemas com propriedade”.

Revitalizar o Chiado foi, na altura, para um jovem arquitecto, “um grande desafio e uma grande lição, com a responsabilidade acrescida de ser uma zona central da cidade com um grande simbolismo”.

Quando olha agora para o Chiado, Jorge Carvalho vê “uma cidade que parece existir há já muito tempo”.

“A intervenção pós-incêndio felizmente está escondida e é ela que possibilita esta vida que se vê, e isso é gratificante”, disse.

No edifício onde antes do incêndio ficavam os Armazéns do Chiado está agora instalado um centro comercial com o mesmo nome que, garante o arquitecto, “mantém algo da estrutura original”.

“A estrutura espacial do edifício, que foi projectado no século XVIII, era baseada em dois pátios à volta de um corpo central, essa estrutura forte mantém-se. O centro desenvolve-se entre dois pátios cobertos com vidro”, explicou.

A ideia inicial para aquele edifício era a de instalar ali um hotel, que ocupasse a maior parte da área. Além do hotel haveria ainda zonas comerciais.
“O centro comercial tem a vantagem de diversificar horários, como o hotel teria. O que permite a permanência de pessoas pelo Chiado a horas mais tardias do que na Baixa”, afiançou.

Visivelmente satisfeito com o trabalho realizado na zona, Jorge Carvalho guiou um grupo de curiosos pelos locais de intervenção do plano.

“Voltar a falar do Chiado agora que está vivido e usado é extremamente grato”, Jorge Carvalho com os presentes antes de dar inicio à visita guiada.

Oracular Spectacular, o senhor disco de estreia dos miudos Ben Goldwasser e Andrew VanWyngarden, os nomes por trás da sigla MGMT, b.k.a. The Management, é a maior lufada de ar fresco que a musico-industria produziu nos ultimos tempos.

O album é um verdadeiro compêndio de bom gosto e estilo, fora do convencional, e com uma largura de banda suficientemente generosa para nos fazer sentir bem empregue o dinheiro dado para adquirir a peça, coisa que hoje em dia caiu em desuso (e depois do iTunes, pior). Do rock sem preconceitos à experimentação electrónica, a dupla de putos norte-americanos promete, e de que maneira, constituir o próximo grande grupo dentro do género, com um primeiro disco que impressiona e vale a pena.

E com a cortesia do Youtube:

Companhia (entre outros) durante as ultimas duas semanas enquanto se opera em pleno centro de Estocolmo. É banda sonora perfeita para horários de trabalho pouco aconselháveis.

TATE 2 [but not too]

Tuesday 22nd July 08

Foram reveladas as primeiras imagens pós design-review do gabinete de Jacques Herzog e Pierre de Meuron para ampliação da TATE Modern, entretanto baptizada de TATE 2.

Se não era propriamente um defensor acérrimo da primeira proposta, a coisa também não parece muito melhor depois de revisto o conceito original.

Não deixa de ficar a ideia de que após conclusão da recuperação da Central Eléctrica, e com o adicionar de Iconocoisas na “Costa del Icon” que é a zona Este da cidade de Londres, surgiu o preconceito de que o edifício não é suficientemente reconhecido no meio do espalhafato da paisagem, vai daí, e porque não se seguiram as propostas de Koolhaas, Piano ou Ando que dissecavam literalmente o belíssimo edifício original, resolveu-se recorrer à adição, que neste caso encaro com enorme desconfiança.

Em todo o caso o sitio da TATE tem um update totalmente dedicado à apresentação da proposta, desde o conceito até às mecânicas da ampliação, numa aparente sessão de terapia para quem, como eu, se mantém céptico em relação àquele que será o resultado final.

Vale a pena visitar.

Não costumo alugar o espaço à bola (excepção ao episódio de há um ano, quando um tal de Zequinha deu espectáculo no mundial de sub-20, com direito a assalto ao árbitro em directo na tv, mas neste caso abre-se uma extraordinária excepção.

João Vieira Pinto anunciou o fim de carreira aos 36 anos, quando já poucos olhavam por ele, no declínio penoso da idade a que nenhum desportista consegue escapar.

Ao João, que conheço pessoalmente, como Sportinguista cada vez menos praticante que sou, agradeço todos os momentos, sem excepção (a pancadinha no Angel Sanchez, em pleno mundial da Coreia, terá de passar aqui de fininho porque não é o momento indicado). Dos tempos em que o futebol me fazia ferver (saudades da adolescência), ficam três jogadores que me fazem conferir algum sentido à forma como vivia o fenómeno. O Pedro (Barbosa), por uma década de classe e leão ao peito. O Ricardo (Sá, o outro Pinto) por ser um daqueles à antiga e por se lembrar sempre dos que enchiam as bancadas. E o João, que em alvalade se baptizou de Artista, pelo senhor jogador que foi, de um nível por demais superior, grande demais para só ter andado pela relva portuguesa.

Curiosamente, depois do anúncio de hoje, já deram todos as respectivas carreiras como encerradas.

Talvez isso explique o meu contínuo afastamento da bola.

The Lonway #002

Monday 21st July 08

Fim-de-semana em cheio pelas ruas de Londres, deambulando entre o final do London Festival of Architecture e a abertura da Serpentine Gallery 2008.

Sábado primeiro, com a visita no ultimo dia (herança portuguesa no sangue, não podia deixar de ser assim) à exposição que esteve patente na London Storefront for Art and Architecture, por onde esteve em exposição o Bjarke Ingels Group (e que contou durante o evento com a presença do blogger Geoff Manaugh).

Domingo, a inauguração da Gehry Serpentine. A galeria que consegue ser elegante no seu delírio, e que acaba por nos fazer dar o braço a torcer ao canadiano. É que apesar das tareias que apanha, obra após obra, da critica que o persegue, a verdade é que a instalação (porque é heresia chamar-lhe edifício) é assumidamente divertida e sincera na forma como se anuncia em pleno Hyde Park e resulta na perfeição, no seu espírito de edifício itinerante que sabemos não ficar por ali mais do que um instante.

E essa é a verdade na obra do senhor Bilbao. Seja por um prazo de três meses num pavilhão temporário, ou o tempo que for num museu gigantesco, Gehry é o derradeiro tipo simpático com uma lata do tamanho do mundo. Aquele que sabe (e pode) dispor da sua criatividade como bem entender, que a humanidade já se encarregou de lhe dar espaço para o devaneio.

E aqui, resulta bem e recomenda-se.

E a falta de espaço para o gosto pessoal.

Preocupa-me (e de que maneira) o associativismo com que se encara o gosto pessoal.

Vejo meia dúzia de opiniões dissidentes sobre a Incubadora do Graça Dias e de repente caem o Carmo e a Trindade porque pura e simplesmente não se podem esticar os verbos e os adjectivos quando se comentam artigos de índole pessoal. Não gosto e recuso a ideia, pelo facto de acreditar que a recusa na aceitação da opinião contrária se deve a uma falta gritante de distanciamento crítico entre aquilo que é material disponível para publicação e a defesa daquilo que se publica. O projecto, bom ou mau, não está imune a qualquer opinião, e ainda bem, pois assim nos deu o mundo o fenómeno do modernismo (abençoado Loos pela língua afiada).

O projecto (o da Incubadora) deve hoje notas de autor à sessão fotográfica do Fernando, e ao seu dom de conseguir transformar um objecto jeitoso em coisa fotogénica. Fico por aqui, que de Graça Dias não gosto de esticar o vocabulário (acresce que para editor web de uma coisa qualquer não tenho tempo nem jeito nenhum, o que me garantiria margem de manobra mais do que suficiente para me alargar – e esticar – na adjectivação que me parecesse mais apropriada).

Tenho escrito sobre uma série de coisas que me parecem ser material digno para publicação, não por serem new-age-kitsch ou categoricamente contemporâneas. Dedico o meu tempo, que é escasso, ao que me parece ser digno, de uma linguagem arquitectónica digna e de uma abordagem séria ao que se faz. Não dou espaço ao que me parece ser absolutamente infeliz, mas admito que o gosto, o dos outros, entre por aí, e que por aí se perca, e que sobre isso se escreva, porque a subjectividade na apreciação é tão grande que nos permite conviver, em pleno século vinte e um, com Ghery na Serpentine e Corbusier no CCB. E por aí nada me espanta, saúdo a diversidade e agradeço a diferença de opiniões, assim me ajudem a continuar a alimentar o bicho da exploração blog.

No entanto, nem eu me encontro livre de crítica, e sei viver bem com isso.

Do elogio recente de Pedro Rolo Duarte, aos despropósitos constantes do António (aos quais já respondi, inclusivamente, com bom humor), acredito que é no espaço que media a distância entre o agrado e o asco que encontramos o nosso próprio espaço de melhoramento. Onde se conquista a maturidade suficiente para que novas abordagens aconteçam cada vez com menos reparos.

E quanto a isto, disse.

Gritante, o facto que me leva a intervir directamente na conversa de surdos.

O facto de no meio da falta de gosto ter surgido referência a um projecto pessoal, do qual me orgulho, e no qual acredito, dentro das limitações que a coisa tem, especialmente quando está entregue a meia dúzia de indivíduos com tamanha diversidade de acção, apenas com a paixão pela pesquisa e desenvolvimento de conceitos em comum.

O facto de o New Architectural Expression ter surgido na discussão revela apenas dois aspectos de uma blogosfera que está muito longe da decência, e a anos-luz dos princípios de solidariedade que permitiram um Postopolis.

Primeiro, a corrida desenfreada para o topo, jeito tão costumeiro do tuga mediano que, estando em destaque numa coisa qualquer, vê com grande dificuldade a entrada de algo que, não sendo propriamente um concorrente directo, pode fazer perigar linguagens cansadas e repetidas, mas cuja fórmula continua a imperar como o melhor meio para atingir uma série de fins.

Segundo, e aqui com a classe que nos caracteriza, a facilidade de apanhar a pedra que está mais à mão, não procurando avaliar a falta de decência naquilo que se critica, sobretudo quando o que se critica é, no limite, algo novo, fresco, falho como o que quer que esteja ainda num inicio pouco definido, e assim naturalmente vulnerável à critica fácil, ainda que esta seja, também ela, falha em si mesma, pela natural falta de cuidado com que se pretende fazer sentir.

É típico, e já tinha falado aqui sobre isso.

O tempo, quando se optam por caminhos que fogem ao convencional, e se corta com uma série de hábitos que temos cravados ao nosso carácter, é-nos cortado a cada segundo, onde os dias começam e já foram, e onde o gosto por trabalhar num ambiente diferente nos consome, dia após dia, todos os bocadinhos que noutros tempos se tinham como garantidos para se fazer aquilo que nos dá prazer. Com isso sofre o Aspirina e sofre o NAE, e sofrem outros projectos paralelos com prejuízo no saldo ao final do mês.

A barriga não engorda, faz-se regime de corte e pouca costura. Não sobra nada.

Obesidade crónica.

Após divulgação internacional do primeiro vídeo de interrogatório a um prisioneiro de Guantanamo (Omar Khadr de apenas 16 anos), descobri no Subtopia de Bryan Finoki um post magnifico sobre uma instalação urbana que pretende alertar consciências para o incontornável drama que estes prisioneiros (sejam culpados ou não) passam enquanto se encontram em guarda americana.

Por entre a informação e contra-informação que os americanos fazem passar sobre si mesmos (e ainda recentemente revi Sicko de Michael Moore – que no seu jeito obcessivo de berrar desalmadamente contra tudo o que tenha assinatura Busho-Global, acaba por cair no autêntico disparate – utilizar Guantanamo como um exemplo de excelência em cuidados médicos) felizmente algumas vozes ainda sabem como se fazer ouvir, neste caso com um brutal sentido estético e através de uma fantástica simplicidade, que resultam em eficácia pura. Valoroso pedaço de leitura e informação complementar.

O post encontra-se por aqui

E ainda sobre o post anterior, o Inhabitat publicou recentemente um artigo sobre o projecto para a vila olimpica dos jogos de inverno de 2010.

[pt] “Os Jogos Olímpicos de Inverno de 2010 serão, pela terceira vez, organizados pelo Canadá, tendo lugar em Vancouver, cidade que acolherá não só as Olimpíadas, como também os Paraolímpicos (organizados pelo Vancouver Organizing Committee – VANOC). O projecto prevê duas Aldeias Olímpicas: uma na zona Sudeste da cidade, em False Creek, e a outra na belissima paisagem de Chekamus Valley [...]

[...] A vila Olímpica de Vancouver, situada na zona sudeste, será concluída durante a primeira fase. A vila terá 16 edificios construídos numa área total de 1.4 milhões de metros quadrados assim como um centro comunitário [...]

[...] Após conclusão do evento, as vilas serão utilizadas como modelos de sustentabilidade comunitária e habitação sustentável, sendo o seu uso destinado à continuação do legado iniciado pelo evento que as originou [...]”

[eng] “The 2010 Winter Olympics will be the third Olympics hosted by Canada, taking place in Vancouver where both the Olympic and Paralympic Games will be organized by the Vancouver Organizing Committee (VANOC). There will be two Olympic Villages: one in Vancouver’s Southeast False Creek area (Vancouver Olympic and Paralympic Village), and the other one within the scenic Cheakamus Valley (Whistler Olympic and Paralympic Village) [...]

[...] The Vancouver Olympic Village in the Southeast False Creek area will be completed during the first phase. The village will have 16 buildings constructed on an area of 1.4 million square feet, and a community center [...]

[...] After the games the villages will serve as valuable legacies, and will be developed as models of sustainable community and sustainable living [...]”

Artigo completo em Inhabitat.com

Wanted: Dead

Sunday 13th July 08

Arquivo Fotográfico CML – Pavilhão de Portugal e Pavilhão Atlântico, 1999

Passeio de domingo por Londres, com o thames ao fundo, e é impossível conter a opinião critica e demolidora sobre aquilo que os ingleses fizeram na frente ribeirinha da cidade. Percebe-se o medo que têm da inovação e o cuidado com que abordaram o nascimento da futura aldeia olímpica que estará pronta em 2012, e a forma como resolveram desenvolver o empreendimento bem fora do centro convencional. É que para além de lhes faltar espaço para o evento, agora também lhes sobra vergonha sobre o que permitiram crescer, sobretudo na área oeste de Londres, onde, pasme-se, não se nota a ofensa formal (fálica, concerteza) de St Mary Axe, a simpática Gherkin da Foster + Partners, que consegue ser sublime e elegante na forma como surge por entre uma série de edifícios desgarrados da carga vitoriana que marcam a imagem da restante cidade. Ali, em plena City, com a Tate ao fundo, o que era suposto ser visto como um momento insólito, é aceite como excelência na excepção, pois todos sabem que três quarteirões mais abaixo, para quem se espante com a pila do Foster, surge cenário muito mais grave, verdadeiramente caótico.

É aqui que se entende a verdadeira dimensão da cultura iconoclasta na arquitectura, onde por um lado surge a excepção, com espaço suficiente para ser entendida como tal, num determinado contexto, conquistando aceitação, e, por outro, a soma avulsa de objectos new-age que não só se excluem completamente do contexto urbano de que deveriam participar (como os primeiros), como, através da repetição exaustiva do brilharete, esmagam por completo os respectivos contextos, passando estes, os elementos geradores de tecido e paisagem, a serem lidos como a parte desconexa da cidade, uma vez que por mais íntegros e clássicos que sejam se acabam por tornar, gradualmente, em minoria.

O exemplo de Londres é sintomático da falta de cuidado com que se aprovam os projectos que suplantaram o modernismo. Os Modernaços.

No entanto, no meio do caos, surgem bons exemplos daquilo que é o período de transição entre a arquitectura clássica e a radical mudança estética que a evolução implantou na sociedade moderna. Onde um edifício, sem se afirmar avantguard, se nota como diferente mas integro, evolutivo mas não degenerativo, como o ponto intermédio da gradual alteração à body-language urbana do novo milénio que dificilmente conseguiria dizimar a carga tectónica do tijolo para dar lugar à elegância e potencialidade formal da mistura Ferro + Betão + Vidro, e lugares como Chelsea e Marylebone atestam essa capacidade brilhante em articular dois tempos distintos dentro da mesma cidade.

Recordo Lisboa.

Recordo as dezenas de imagens que nos foram vendidas no inicio dos anos 90 sobre aquilo que seria o evento marcante de uma nova frente de cidade, a recuperação da zona sul dos Olivais, desde aí até ao poço do bispo, em evento de milhões arrancados ao contribuinte, apadrinhado primeiro pela governação laranja de Cavaco e inaugurada em excelência e emoção pela tropa rosa de Guterres. E depois disto, a miséria.

Recordo a entrada no recinto da exposição, a 7 de Julho de 98, sobre aquilo que viria a ser o futuro centro Vasco da Gama, e o deslumbre com que tudo se anunciava. Das magistrais obras de Siza e Carrilho, às áreas de exposição, o pavilhão Multiusos, o do Futuro e o da Realidade Virtual, e até o insólito Oceanário ou o Kitsch teatro Camões. Perante os excessos e a dignidade da coisa, ninguém lhe ficava indiferente, e a noção de orgulho e amor-próprio pela capacidade em colocar de pé uma coisa do género era rematada pela assustadora envergadura da ponte Vasco da Gama.

Touché, éramos enormes.

Ao longo de um verão, Portugal acreditou naquilo que poderia fazer, e na excelência com que o conseguia executar. E depois acabou. Portão fechado e tempo de balanço.

E aqui, de novo, mais do mesmo.

Dez anos depois, o agora parque das nações é uma sombra (literalmente) daquilo que foi um dos expoentes modernos do nosso orgulho enquanto nação. A construção disparou em flecha, sem controlo, com edifícios pindéricos e sem carácter, sem um pingo de coerência e, pior, sem o mínimo de respeito, pelo elemento gerador, aquele que possibilitou o verdadeiro espectáculo de estupidez que é hoje ‘aquilo’ em nada diferente do que era há vinte anos, antes da expo. O lixo continua por lá, apenas não é o mesmo.

Naturalmente que existem aspectos positivos na expo dos nossos dias. Meia dúzia de bares porreiros para a malta que prefere o ‘parque’ ao ‘bairro’, o pavilhão Atlântico e os espectáculos que enriquecem o nosso quase inexistente cartaz de cultura na capital, o Pavilhão do Conhecimento e o recente Casino, que mal ou bem lá serviu para ocupar um edifício que em muito contribuía para a desagradável memória da expo. Ou o que ainda restava dela.

E o paralelismo entre Lisboa e Londres aqui se quebra por completo. O que permite entender a diferença entre ambas as cidades, e consequentemente, as gritantes diferenças entre ambos os países.

É que se em Londres se permite o caos e desorganização urbana, pela mera falta de cuidado com que se tratam os momentos de excepção, a verdade é que as pessoas participam desta desgraça. Do Shakespeare Theatre ao edifício da Câmara municipal, por mais autista que seja a arquitectura, ela é participativa da vida social, daquilo que é o seu propósito e da forma como, indiscutivelmente, se faz para o povo. Para uso geral, absoluto e ecléctico.

Em Lisboa, a antítese. A expo foi coisa brilhante? Sem duvida que sim, e é aí que se torna perigosa. É aí, no aftermath, que se tem de, rapidamente, definir espaços e limites, para que aquele saudoso verão de 98 seja lembrado com a saudade de quem ali sentia ter um bocadinho seu. Depois disso absolutamente mais nada, pois o seu virá a seu dono.

Assim foi, e melhor executado não poderia ter sido.

O parque das nações é sintomático daquela que é a nossa forma de lidar com a obra publica, e daquela que é a forma como tratamos os ícones que criamos, e a história diz-nos que funciona quase sempre assim.

Da entrega do CCB à colecção Berardo ao esvaziamento do Chiado para habitação. Daquilo que nos dirá o barril de pólvora que se prepara na Alta de Lisboa às discussões eternas em torno de aeroportos e traçados de alta velocidade que há muito deveriam estar concluídos. Por ultimo, da inconsequência do concurso dos vazios urbanos da trienal de arquitectura ao disparate em torno do parque Mayer.

Passeio pela frente sul do river thames e, por entre formas côncavas e convexas, objectos que rasgam o céu e edifícios tímidos que não sobem mais alto que dois andares, convivem em esquisita harmonia. Por ali vejo todo o tipo de pessoas a fazerem uso de tamanhos disparates. Novos, velhos, ricos e pobres, todos eles participam daquele grotesco resultado.

Passo de carro à velocidade que a centena de semáforos me permite alcançar, em pleno Parque das Nações. De gente, zero. Quem trabalha por ali entra e sai pelo estacionamento, e os que dão um ar de si à rua não cabem no seu próprio contentamento, com o telemóvel de ultima geração na mão e o impecável fato Armani que lhes assenta que nem uma luva nos seus tiques de classe alta.

O povo? Anda a cinquenta euros à semana a caminhar para o Continente do Vasco, e a correr para o transporte à hora de ponta.

Sabem todos, que o lugar que ajudaram a construir, há muito lhes foi roubado.