
Arquivo Fotográfico CML – Pavilhão de Portugal e Pavilhão Atlântico, 1999
Passeio de domingo por Londres, com o thames ao fundo, e é impossível conter a opinião critica e demolidora sobre aquilo que os ingleses fizeram na frente ribeirinha da cidade. Percebe-se o medo que têm da inovação e o cuidado com que abordaram o nascimento da futura aldeia olímpica que estará pronta em 2012, e a forma como resolveram desenvolver o empreendimento bem fora do centro convencional. É que para além de lhes faltar espaço para o evento, agora também lhes sobra vergonha sobre o que permitiram crescer, sobretudo na área oeste de Londres, onde, pasme-se, não se nota a ofensa formal (fálica, concerteza) de St Mary Axe, a simpática Gherkin da Foster + Partners, que consegue ser sublime e elegante na forma como surge por entre uma série de edifícios desgarrados da carga vitoriana que marcam a imagem da restante cidade. Ali, em plena City, com a Tate ao fundo, o que era suposto ser visto como um momento insólito, é aceite como excelência na excepção, pois todos sabem que três quarteirões mais abaixo, para quem se espante com a pila do Foster, surge cenário muito mais grave, verdadeiramente caótico.
É aqui que se entende a verdadeira dimensão da cultura iconoclasta na arquitectura, onde por um lado surge a excepção, com espaço suficiente para ser entendida como tal, num determinado contexto, conquistando aceitação, e, por outro, a soma avulsa de objectos new-age que não só se excluem completamente do contexto urbano de que deveriam participar (como os primeiros), como, através da repetição exaustiva do brilharete, esmagam por completo os respectivos contextos, passando estes, os elementos geradores de tecido e paisagem, a serem lidos como a parte desconexa da cidade, uma vez que por mais íntegros e clássicos que sejam se acabam por tornar, gradualmente, em minoria.
O exemplo de Londres é sintomático da falta de cuidado com que se aprovam os projectos que suplantaram o modernismo. Os Modernaços.
No entanto, no meio do caos, surgem bons exemplos daquilo que é o período de transição entre a arquitectura clássica e a radical mudança estética que a evolução implantou na sociedade moderna. Onde um edifício, sem se afirmar avantguard, se nota como diferente mas integro, evolutivo mas não degenerativo, como o ponto intermédio da gradual alteração à body-language urbana do novo milénio que dificilmente conseguiria dizimar a carga tectónica do tijolo para dar lugar à elegância e potencialidade formal da mistura Ferro + Betão + Vidro, e lugares como Chelsea e Marylebone atestam essa capacidade brilhante em articular dois tempos distintos dentro da mesma cidade.
Recordo Lisboa.
Recordo as dezenas de imagens que nos foram vendidas no inicio dos anos 90 sobre aquilo que seria o evento marcante de uma nova frente de cidade, a recuperação da zona sul dos Olivais, desde aí até ao poço do bispo, em evento de milhões arrancados ao contribuinte, apadrinhado primeiro pela governação laranja de Cavaco e inaugurada em excelência e emoção pela tropa rosa de Guterres. E depois disto, a miséria.
Recordo a entrada no recinto da exposição, a 7 de Julho de 98, sobre aquilo que viria a ser o futuro centro Vasco da Gama, e o deslumbre com que tudo se anunciava. Das magistrais obras de Siza e Carrilho, às áreas de exposição, o pavilhão Multiusos, o do Futuro e o da Realidade Virtual, e até o insólito Oceanário ou o Kitsch teatro Camões. Perante os excessos e a dignidade da coisa, ninguém lhe ficava indiferente, e a noção de orgulho e amor-próprio pela capacidade em colocar de pé uma coisa do género era rematada pela assustadora envergadura da ponte Vasco da Gama.
Touché, éramos enormes.
Ao longo de um verão, Portugal acreditou naquilo que poderia fazer, e na excelência com que o conseguia executar. E depois acabou. Portão fechado e tempo de balanço.
E aqui, de novo, mais do mesmo.
Dez anos depois, o agora parque das nações é uma sombra (literalmente) daquilo que foi um dos expoentes modernos do nosso orgulho enquanto nação. A construção disparou em flecha, sem controlo, com edifícios pindéricos e sem carácter, sem um pingo de coerência e, pior, sem o mínimo de respeito, pelo elemento gerador, aquele que possibilitou o verdadeiro espectáculo de estupidez que é hoje ‘aquilo’ em nada diferente do que era há vinte anos, antes da expo. O lixo continua por lá, apenas não é o mesmo.
Naturalmente que existem aspectos positivos na expo dos nossos dias. Meia dúzia de bares porreiros para a malta que prefere o ‘parque’ ao ‘bairro’, o pavilhão Atlântico e os espectáculos que enriquecem o nosso quase inexistente cartaz de cultura na capital, o Pavilhão do Conhecimento e o recente Casino, que mal ou bem lá serviu para ocupar um edifício que em muito contribuía para a desagradável memória da expo. Ou o que ainda restava dela.
E o paralelismo entre Lisboa e Londres aqui se quebra por completo. O que permite entender a diferença entre ambas as cidades, e consequentemente, as gritantes diferenças entre ambos os países.
É que se em Londres se permite o caos e desorganização urbana, pela mera falta de cuidado com que se tratam os momentos de excepção, a verdade é que as pessoas participam desta desgraça. Do Shakespeare Theatre ao edifício da Câmara municipal, por mais autista que seja a arquitectura, ela é participativa da vida social, daquilo que é o seu propósito e da forma como, indiscutivelmente, se faz para o povo. Para uso geral, absoluto e ecléctico.
Em Lisboa, a antítese. A expo foi coisa brilhante? Sem duvida que sim, e é aí que se torna perigosa. É aí, no aftermath, que se tem de, rapidamente, definir espaços e limites, para que aquele saudoso verão de 98 seja lembrado com a saudade de quem ali sentia ter um bocadinho seu. Depois disso absolutamente mais nada, pois o seu virá a seu dono.
Assim foi, e melhor executado não poderia ter sido.
O parque das nações é sintomático daquela que é a nossa forma de lidar com a obra publica, e daquela que é a forma como tratamos os ícones que criamos, e a história diz-nos que funciona quase sempre assim.
Da entrega do CCB à colecção Berardo ao esvaziamento do Chiado para habitação. Daquilo que nos dirá o barril de pólvora que se prepara na Alta de Lisboa às discussões eternas em torno de aeroportos e traçados de alta velocidade que há muito deveriam estar concluídos. Por ultimo, da inconsequência do concurso dos vazios urbanos da trienal de arquitectura ao disparate em torno do parque Mayer.
Passeio pela frente sul do river thames e, por entre formas côncavas e convexas, objectos que rasgam o céu e edifícios tímidos que não sobem mais alto que dois andares, convivem em esquisita harmonia. Por ali vejo todo o tipo de pessoas a fazerem uso de tamanhos disparates. Novos, velhos, ricos e pobres, todos eles participam daquele grotesco resultado.
Passo de carro à velocidade que a centena de semáforos me permite alcançar, em pleno Parque das Nações. De gente, zero. Quem trabalha por ali entra e sai pelo estacionamento, e os que dão um ar de si à rua não cabem no seu próprio contentamento, com o telemóvel de ultima geração na mão e o impecável fato Armani que lhes assenta que nem uma luva nos seus tiques de classe alta.
O povo? Anda a cinquenta euros à semana a caminhar para o Continente do Vasco, e a correr para o transporte à hora de ponta.
Sabem todos, que o lugar que ajudaram a construir, há muito lhes foi roubado.