Aspirina Light

Sobre o (des)Tempo

July 21st, 2008 · No Comments

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E a falta de espaço para o gosto pessoal.

Preocupa-me (e de que maneira) o associativismo com que se encara o gosto pessoal.

Vejo meia dúzia de opiniões dissidentes sobre a Incubadora do Graça Dias e de repente caem o Carmo e a Trindade porque pura e simplesmente não se podem esticar os verbos e os adjectivos quando se comentam artigos de índole pessoal. Não gosto e recuso a ideia, pelo facto de acreditar que a recusa na aceitação da opinião contrária se deve a uma falta gritante de distanciamento crítico entre aquilo que é material disponível para publicação e a defesa daquilo que se publica. O projecto, bom ou mau, não está imune a qualquer opinião, e ainda bem, pois assim nos deu o mundo o fenómeno do modernismo (abençoado Loos pela língua afiada).

O projecto (o da Incubadora) deve hoje notas de autor à sessão fotográfica do Fernando, e ao seu dom de conseguir transformar um objecto jeitoso em coisa fotogénica. Fico por aqui, que de Graça Dias não gosto de esticar o vocabulário (acresce que para editor web de uma coisa qualquer não tenho tempo nem jeito nenhum, o que me garantiria margem de manobra mais do que suficiente para me alargar – e esticar – na adjectivação que me parecesse mais apropriada).

Tenho escrito sobre uma série de coisas que me parecem ser material digno para publicação, não por serem new-age-kitsch ou categoricamente contemporâneas. Dedico o meu tempo, que é escasso, ao que me parece ser digno, de uma linguagem arquitectónica digna e de uma abordagem séria ao que se faz. Não dou espaço ao que me parece ser absolutamente infeliz, mas admito que o gosto, o dos outros, entre por aí, e que por aí se perca, e que sobre isso se escreva, porque a subjectividade na apreciação é tão grande que nos permite conviver, em pleno século vinte e um, com Ghery na Serpentine e Corbusier no CCB. E por aí nada me espanta, saúdo a diversidade e agradeço a diferença de opiniões, assim me ajudem a continuar a alimentar o bicho da exploração blog.

No entanto, nem eu me encontro livre de crítica, e sei viver bem com isso.

Do elogio recente de Pedro Rolo Duarte, aos despropósitos constantes do António (aos quais já respondi, inclusivamente, com bom humor), acredito que é no espaço que media a distância entre o agrado e o asco que encontramos o nosso próprio espaço de melhoramento. Onde se conquista a maturidade suficiente para que novas abordagens aconteçam cada vez com menos reparos.

E quanto a isto, disse.

Gritante, o facto que me leva a intervir directamente na conversa de surdos.

O facto de no meio da falta de gosto ter surgido referência a um projecto pessoal, do qual me orgulho, e no qual acredito, dentro das limitações que a coisa tem, especialmente quando está entregue a meia dúzia de indivíduos com tamanha diversidade de acção, apenas com a paixão pela pesquisa e desenvolvimento de conceitos em comum.

O facto de o New Architectural Expression ter surgido na discussão revela apenas dois aspectos de uma blogosfera que está muito longe da decência, e a anos-luz dos princípios de solidariedade que permitiram um Postopolis.

Primeiro, a corrida desenfreada para o topo, jeito tão costumeiro do tuga mediano que, estando em destaque numa coisa qualquer, vê com grande dificuldade a entrada de algo que, não sendo propriamente um concorrente directo, pode fazer perigar linguagens cansadas e repetidas, mas cuja fórmula continua a imperar como o melhor meio para atingir uma série de fins.

Segundo, e aqui com a classe que nos caracteriza, a facilidade de apanhar a pedra que está mais à mão, não procurando avaliar a falta de decência naquilo que se critica, sobretudo quando o que se critica é, no limite, algo novo, fresco, falho como o que quer que esteja ainda num inicio pouco definido, e assim naturalmente vulnerável à critica fácil, ainda que esta seja, também ela, falha em si mesma, pela natural falta de cuidado com que se pretende fazer sentir.

É típico, e já tinha falado aqui sobre isso.

O tempo, quando se optam por caminhos que fogem ao convencional, e se corta com uma série de hábitos que temos cravados ao nosso carácter, é-nos cortado a cada segundo, onde os dias começam e já foram, e onde o gosto por trabalhar num ambiente diferente nos consome, dia após dia, todos os bocadinhos que noutros tempos se tinham como garantidos para se fazer aquilo que nos dá prazer. Com isso sofre o Aspirina e sofre o NAE, e sofrem outros projectos paralelos com prejuízo no saldo ao final do mês.

A barriga não engorda, faz-se regime de corte e pouca costura. Não sobra nada.

Obesidade crónica.

Tags: Nexus

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