Escândalo corrente na esfera blog em torno do edifício proposto por Manuel Mateus e Frederico Valsassina para o Largo do Rato em Lisboa.
Comecemos pelo início. A discussão inicia-se com publicação de um artigo de opinião de Ricardo Carvalho, no qual, se lamenta o facto de correr uma petição online contra o dito edifício. Pior, nas entrelinhas (ou nem por isso), do seu texto, a ingerência de se sugerir a delegação de competências no que à gestão urbanística do nosso território, e das nossas cidades, diz respeito. E pior ainda, o hipnotismo pela semântica, no qual, como arquitecto, me recuso a cair.
Diz o Ricardo que “Sem conhecer o objecto de interesse destas pessoas, poderíamos pensar que se trata de um novo edifício de Seguros ou da Federação Portuguesa de Futebol, ou apenas de escritórios como esses que se constroem todos os anos e que são absorvidos pelo quotidiano sem direito a um qualquer blog. Porque é que este projecto de Frederico Valsassina e Manuel Aires Mateus teve honras de opinião de alguns vereadores e de centenas de bloggers?”.
A condução da opinião, a começar por aqui, deita por terra qualquer hipótese de defesa da mesma, porque a arquitectura não se veste nem se maquilha, faz-se através da consideração de factores que tornarão ou não viável o que se propõe e pela soberana opinião de quem paga por ela ou quem com ela tem de lidar diariamente. O uso esse, depende do programa, e essa é função única e exclusiva do arquitecto, que nestas coisas do contraditório costuma reagir mal (e à matilha, em casos particulares). O edifício, nem que abrigasse a nova sede da AMI ou um qualquer nefasto sector da nossa igreja (essa que pode vestir o que quiser, que ninguém lhe toca) se tornaria menos susceptível à critica. Pelo contrário, sendo mais do mesmo, habitação + Retail, é um redondo falhanço, mais um, em potência, do nosso alegre urbanismo.
Não é necessário mais do que um passeio até ao Largo do Camões para se visitar o pouco que ainda resta da integridade alfacinha, essa que, esquiço após esquiço, se vê violentada na sua essência, órfã de uma arquitectura que lhe permita resistir ao tempo e que, pelo menos no que ao domínio da história e identidade de um povo diz respeito, merece ali, na faixa facilmente identificada como retrato de Lisboa ao mundo, a decente consideração daqueles que fazem da arquitectura oficio.
As referências que completam o artigo, às qualidades de escala, tipologia e materiais, enquanto lugares comuns da arquitectura, são suficientes para deitar por terra tudo o que se pretendeu construir na manifestação da ideia de Ricardo Carvalho. A referência à ruptura e a confusão com a integridade na cidade histórica, encarregam-se do resto.
Depois disso é associativismo natural de quem, e quero realmente convencer-me cada vez mais disso, é demasiado sensível à critica ao trabalho dos seus pares.
O complexo de Siza, que uns metros mais abaixo resolveu com a habitual mestria uma difícil relação entre arquitectura pós-modernaça e a arqueologia (Terraços de Bragança versus cerca Vicentina), ainda impera pelos lados da capital. Manuel Mateus é, sem qualquer tipo de dúvida, um dos expoentes máximos da nossa arquitectura cá por fora (e a aclamação do Park Hyatt Hotel em Dublin é testemunho disso mesmo) e não é na recusa da coisa do Rato que de repente se lhe belisca o currículo.
Ora encontrem lá um ponto de equilíbrio entre o que escrevem e o que realmente admiram, sob pena de perderem qualquer tipo de credibilidade na defesa dos interesses da arquitectura.
Essa, que é comum a todos e não é pertença de ninguém.

















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1 sushi lover // Jul 31, 2008 at 11:10 am
Concordo com o que dizes até chegarmos aos Terraços de Bragança que quanto a mim não resolvem nada, apertam a rua e sinto-me sempre esmagada por aquelas varandas demasiado projectadas.
Para além de que também parece um edifício devoluto porque nunca se vê ninguém a entrar e sair (deve sair tudo escondido de carro da garagem) e as lojas ainda não foram ocupadas.
Claro que isto que disse na última frase não é culpa do Siza.
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