Archive for November, 2008

7 meses

O mais espectacular comic book de sempre chega às salas de cinema a meio do próximo ano.

Mais uma vez, Alan Moore optou por se distanciar da produção do filme, como fez de resto com From Hell e V for Vendetta. Se Watchmen, o filme, merecer o mesmo tipo de respeito que as adaptações anteriores de obras escritas de Master Moore, então podemos considerar que pelo menos ao nível da cinematografia o senhor se pode manter afastado do processo de metamorfose do seu génio literário para grandes obras da sétima arte.

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nowhere, 101

Duas torres, duas pontes.

Ou, quando o devaneio atinge o ponto de rebuçado.

A arquitectura contemporânea deixou, há muito de ser lugar para exploração de conceito e conquista artística. Deu lugar ao impulso primário de marcar posição pela magnificência do render e a capacidade de resposta financeira do atelier àquilo que o computador lança em dados.

A proposta do gabinete de Steven Holl é a súmula de como o slogan de campanha de Barak Obama se pode transformar em bicho perigoso, sobretudo se em descuidada mão alheia.

- Yes, we can.

E podemos, hoje, propor ao mesmo tempo e para o mesmo lugar, duas torres e duas pontes, sem que precisemos verdadeiramente de nenhuma.

- Yes, we can.

E podemos porque a nova geração e as gerações que se sigam conseguiram automatizar processos de tal forma que um extensivo tratamento de fachada se pode tornar demasiado cansativo e uma implantação bem estruturada se pode tornar demasiado estática.

- Yes, we can.

E podemos, acima de tudo, porque do outro lado do mundo, alguém que contra nós concorre, pode também. A pior das conclusões.

Podemo-nos atrever porque o desafio nos permite, porque as ferramentas o permitem, e porque as circunstâncias o imperam. E podemos porque (aparentemente) hoje em dia um belo report e uma equipa de estrategas do render e poetas das memórias descritivas fazem o trabalho que era antes propriedade do arquitecto.

E podemos, a partir de agora, relativizar o lugar da cidade.

- Can we?

Para detalhe sobre a proposta, recomenda-se um salto ao Inhabitat.

Assalto a lisboa

Exposição do Mundo Português, Pavilhão de Honra e de Lisboa via Arquivo Fotográfico da CML

Por Miguel Sousa Tavares no Expresso, para reflectir…

«Quase vinte anos a escrever constantemente contra as inúmeras tentativas de expropriar aos cidadãos de Lisboa a frente ribeirinha do Tejo para a entregar a interesses privados ou a obras públicas inúteis têm-me ensinado que este será sempre um combate de retaguarda, recuando sucessivamente de trincheira em trincheira, sem perspectivas de vitória no final. Num mundo normal (nem sequer num mundo perfeito), numa cidade como Lisboa – que tem o luxo de ter 14 km de estuário de rio, que, além do mais, representam o seu maior património histórico de referência – nada seria consentido fazer que pudesse comprometer aquilo que é o domínio público mais importante da cidade e o seu traço marcante decisivo. O rio seria de Lisboa e de ninguém mais, porque Lisboa sem o rio será apenas uma paisagem em degradação acelerada.
Mas nós não vivemos num mundo normal. Nós vivemos numa democracia em que os interesses privados passam tranquilamente à frente do interesse público, com sucessivos pretextos que, olhados de perto, não passam de um embuste. É por isso que, mesmo contra toda a esperança, é preciso não desistir de defender Lisboa contra os seus predadores – porque eles nunca desistirão das suas intenções. Hoje, volto assim a um tema de que já aqui falei duas vezes, a última das quais a semana passada: o projecto escandaloso, já aprovado pelo Governo, de erguer um muro de contentores na zona de Alcântara, podendo ocupar até 1,5 km de frente de rio, com uma altura de 15 metros – o equivalente a um prédio de quatro andares. Este caso, aliás, vem demonstrar que, pior ainda do que um mercado desregulado por falta de intervenção do Estado – que subitamente tanto preocupa José Sócrates – é um mercado regulado pelo favor político do Estado, como sucede entre nós, de forma cada vez mais chocante.
A ‘Nova Alcântara’, como pomposamente lhe chama José Sócrates, é uma obra prejudicial à cidade de Lisboa, inútil e desbaratadora de dinheiros públicos, com todo o aspecto de ser ilegal e que levanta fundadas suspeitas de favorecimento negocial inadmissível.
É devastadora para a cidade, porque, além de uma extensa faixa de rio, nos vai roubar um dos privilégios únicos que Lisboa tem: a possibilidade de ver atracados ao seu centro os navios de passageiros cuja imagem faz sonhar milhões de pessoas no mundo inteiro. Nunca mais aí veremos navios tão emblemáticos como o ‘Queen Mary II’ ou o imenso ‘Sovereign of the Seas’, empurrados para a periferia de Santa Apolónia e substituídos por uma muralha de quilómetro e meio de contentores. Nem rio, nem navios: uma montanha de caixotes de ferro, empilhados uns sobre os outros. Mas o roubo do rio não se fica por aí: aproveitando o balanço e a deslocação do terminal de navios de passageiros da gare onde estão os painéis de Almada Negreiros para o extremo oriental da cidade, o Porto de Lisboa esfrega as mãos de contente e prepara-se para dar cumprimento à sua mais recorrente ambição: a construção imobiliária à beira-rio. Deixa-se a gare de Alcântara e os painéis de Almada para os contentores e vai-se fazer em Santa Apolónia, em cima do rio, mais uma barreira de 600 metros de comprimento e outros 15 a 20 de altura, para albergar uma nova gare e, já agora, um centro comercial e um hotel… para os passageiros dos barcos, com camarote pago a bordo. E há outro dano, ainda: durante seis anos, o governo vai lançar mãos à obra de enterrar a via férrea existente, adaptando-a à necessidade de escoar um milhão de contentores a partir do centro da cidade. Num ponto crucial de entrada e saída de Lisboa, vamos ter um pandemónio instalado durante vários anos, para conseguir fornecer as acessibilidades tornadas necessárias pela localização errada do terminal de contentores.
Nessas obras, vai o governo gastar para cima de 200 milhões de euros, através da CP e da Refer, de forma a tornar viável um negócio privado que é, além do mais, totalmente inútil. Lisboa tem capacidade subaproveitada para receber contentores – mas não ali e justamente na zona oriental, para onde querem mandar os navios de passageiros. Aliás, em Alcântara, vai ser ainda necessário dragar o rio, porque o seu fundo não assegura o calado dos navios que para ali se querem levar para despejar contentores. E, quando tanto se fala em descentralização, é notável pensar que o Estado quer investir 200 milhões para trazer contentores para o centro da capital, quando ali ao lado, em Setúbal, existe um porto perfeito para isso e cuja capacidade não aproveitada é de 95%! E isto para já não falar em Sines…
Tão absurdo projecto só pode ser fruto de uma imbecilidade inimaginável ou… de uma grande, grandessíssima, negociata. Ponham-me mais os processos que quiserem, mas isto eu devo à minha consciência dizer: o negócio que o governo acaba de celebrar para Alcântara com a Liscont/Mota Engil, aprovado pelo Decreto-Lei nº 188/2008, de 23 de Setembro, tem de ser investigado – pela Assembleia da República, pelo Tribunal de Contas, pela Procuradoria-Geral da República. É preciso que fique claro do que estamos a falar: se de um acto administrativo de uma estupidez absoluta ou de mais um escândalo de promiscuidade político-empresarial.
Em 1984, o Decreto-lei n.º 287/84 estabelecia as bases para a exploração do Terminal de Contentores de Alcântara, com as seguintes condições: área de ocupação restrita; atracagem apenas permitida a navios que, pelo seu calado, não pudessem acostar a Santa Apolónia; prazo de exploração de 20 anos, e concessão mediante concurso internacional. Com estas condições, apenas uma empresa – a Liscont – se apresentou a concurso e tomou a exploração, que rapidamente se revelou deficitária. Em 1995, salvo erro, a Liscont é comprada pela Tertir, que vem a obter do Governo, nos anos seguintes, alterações ao contrato, que de todo subvertiam as regras do caderno de encargos do anterior concurso internacional: mais área de ocupação, possibilidade de acostagem de todo o tipo de navios e mais dez anos de prorrogação do prazo, agora fixado até 2014. Em 2006, oito anos antes de expirar o prazo da concessão, a Tertir é, por sua vez, comprada pela Mota-Engil, por um preço anormalmente elevado face à perspectiva de negócio futuro. Mas, em Abril deste ano, sem que nada o fizesse prever ou o aconselhasse em termos de interesse público, fica-se a saber que a concessionária obteve do Governo nova revisão extraordinária do contrato, com as seguintes alterações: alargamento da capacidade de descarga para mais do triplo; aumento da área de ocupação para mais do quíntuplo; manutenção das taxas, já reduzidas, de operação; e prolongamento do prazo de concessão por mais 27 anos (!), até 2042. Tudo sem concurso público, tudo negociado no segredo dos deuses, tudo perante o silêncio atordoador de António Costa, presumido presidente da Câmara de Lisboa. E, finalmente, em Setembro passado, através do citado Decreto-lei 188/2008, fica-se a saber que o Governo ainda se disponibiliza para investir mais de 200 milhões de euros para garantir à Liscont/Tertir/Mota-Engil as obras necessárias a garantir o escoamento da sua capacidade triplicada de movimento. Imaginem: eu tenho um pequeno restaurante à beira-rio, que não é viável, por falta de espaço e de acessibilidades, e cuja concessão a lei prevê que dependa de concurso público e só dure vinte anos. Vem o governo e, de uma assentada, autoriza-me a triplicar o espaço, prorroga-me o prazo de concessão de modo a que o meu negócio acabe garantido por um total de 57 anos e sem aumento de renda, disponibiliza-se para me fazer e pagar as obras de acessibilidade necessárias ao sucesso do restaurante… e tudo sem concurso público, negociado entre mim e eles, no resguardo dos gabinetes. É ou não é fantástico?
E é assim que se trata Lisboa. É ou não é escandaloso? E o que fazemos, ficamos quietos? Pedaço a pedaço, eles dão tudo o que é nosso, à beira-rio: um quilómetro e meio de frente à Mota-Engil, seiscentos metros ao Porto de Lisboa, um quarteirão no Cais do Sodré para qualquer coisa da observação da droga, outro quarteirão para o Hotel Altis, o CCB para a Fundação Berardo, um quarteirão mais para a Fundação Champalimaud e a Casa dos Bicos para a Fundação Saramago. »

Malta levada do diabo…

Porque se há algo que me leva a alimentar o bicho pela coisa, é mesmo a dedicação de quem teima (porquê minha gente… porquê?), em ser cliente deste vosso estaminé.

O abraço forte do costume à malta do AtelierMob, que habita em sitio novo desde que se mudou para a mui bem reputada casa dos blogs do Sapo.

AspirinaLight.com, 2 anos

Dois anos de actividade.

O balanço é naturalmente positivo, com a troca de experiências e o investimento na pesquisa a serem os ganhos mais significativos para quem se iniciou na aventura bloguistica sem saber bem aquilo que a coisa representava.

A verdade é que o Aspirina nasceu em tempos de aparente calma, após conclusão de uma licenciatura que se levou demasiado a sério, e funcionou bem enquanto o descanso durou, em periodo de estágio e aventuras em part-time, onde a escrita sobre arquitectura se revelou como o melhor dos veículos para visitar um amor profundo que de repente se deixou não se sabe onde e que se não sabe querer vir a reencontrar um dia. O embalo das palavras serviu para manter o entusiasmo, e, como diz um bom amigo, o toque de Midas que por vezes não é mais do que uma bem disfarçada maldição, encarregou-se de fazer isto funcionar.

Hoje o contexto é demasiado diferente.

A experiência de trabalho por que passo neste momento rouba-me mais a disposição do que o tempo, procuro muito mais ler do que me disponho a escrever, e de maneira nenhuma o considero como motivo para assumir um interregno de actividade. Mas a verdade é que o contexto não permite, por todas as razões e mais algumas, investir tempo em escrever sobre o que realmente me interessa escrever.

E não é critica nem é um apontar de dedo à blogosfera de arquitectura em Portugal. O afastamento, que é meio forçado e meio aceite, permitiu uma outra reflexão sobre o panorama do que se escreve por cá (e mesmo que o cá seja aí. É curiosa a forma como o acesso rápido à aldeia global nos permite sentir em casa mesmo que estejamos a um universo de distância).

O Daniel permanece como uma referência natural e cuja visita se torna cada vez mais obrigatória. Faz-se ali serviço publico. Sindicalizado ou amestrado, seleccionado ou apadrinhado, cada vez me interesso menos pelas circunstâncias. Vejo que há quem faça o trabalho bem feito e com o verdadeiro espirito de quem nasceu Blogger. Eu não o sou, mas vou fazendo os possíveis para me manter minimamente activo. Assim a mim próprio o permita.

O aspirina segue dentro de momentos, aconteça isso quando acontecer.