Duas torres, duas pontes.
Ou, quando o devaneio atinge o ponto de rebuçado.
A arquitectura contemporânea deixou, há muito de ser lugar para exploração de conceito e conquista artística. Deu lugar ao impulso primário de marcar posição pela magnificência do render e a capacidade de resposta financeira do atelier àquilo que o computador lança em dados.
A proposta do gabinete de Steven Holl é a súmula de como o slogan de campanha de Barak Obama se pode transformar em bicho perigoso, sobretudo se em descuidada mão alheia.
- Yes, we can.
E podemos, hoje, propor ao mesmo tempo e para o mesmo lugar, duas torres e duas pontes, sem que precisemos verdadeiramente de nenhuma.
- Yes, we can.
E podemos porque a nova geração e as gerações que se sigam conseguiram automatizar processos de tal forma que um extensivo tratamento de fachada se pode tornar demasiado cansativo e uma implantação bem estruturada se pode tornar demasiado estática.
- Yes, we can.
E podemos, acima de tudo, porque do outro lado do mundo, alguém que contra nós concorre, pode também. A pior das conclusões.
Podemo-nos atrever porque o desafio nos permite, porque as ferramentas o permitem, e porque as circunstâncias o imperam. E podemos porque (aparentemente) hoje em dia um belo report e uma equipa de estrategas do render e poetas das memórias descritivas fazem o trabalho que era antes propriedade do arquitecto.
E podemos, a partir de agora, relativizar o lugar da cidade.
- Can we?
Para detalhe sobre a proposta, recomenda-se um salto ao Inhabitat.

Infelizmente podemos…e por mais estranho que pareça há arquitectos que competem no suporte à competição “inovadora”, desgarrada das pessoas e das cidades…a arquitectura abandona gradualmente o seu propósito inicial para aparecer numa revista ou numa página de internet…quiçá até no território real…vazio, sem ninguem, talvez apenas com alguns estudantes de um curso de “arquitectura”.
Ivo, é uma muito boa análise que aqui fazes e não podia estar mais de acordo. De facto é um assunto sobre o qual reflicto cada vez mais e não me canso de me questionar constantemente sobre o estatuto e a função da Arquitectura na sociedade actual. De facto hoje podemos fazer tudo o que quisermos, esse para mim é o maior problema. Já há muito tempo que se dizia que “a Arquitectura nasce dos constrangimentos”, das barreiras que nos são impostas por mais variados factores, localização, economia, cultura, etc. O facto é que hoje essas barreiras estão cada vez mais dissipadas, ao ponto de praticamente não existirem. E o resultado é isso mesmo, o Arquitecto (ou melhor a equipa!) vê-se numa posição em que pode propor uma qualquer intervenção ou um qualquer objecto que de uma maneira ou de outra irá encontrar uma justificação, uma analogia, um símbolo que credibilizará perante a sociedade a sua ideia (ou obra).
Gostei deste post.
Mas acho que o grande problema de hoje, ou até não, é o do grande poder de produção dos grandes ateliers de arquitectura internacionais.
Têm uma verdadeira maquina de trabalho e de produção á frente de um nome justamente reconhecido no meio da arquitectura o que na minha opinião não é igual a admitir de que tudo o que fazem é válido na arquitectura.
A manipulação da imagem e o poder de processamento de informação veio gerar, para mim e bem, maior capacidade de resposta perante os desafios da arquitectura.
No entanto sabemos que muitas destas imagens geradas muitas das vezes pela mera necessidade de entregar um estudo prévio ou “ideia” não passam do papel e outras para o bem e para o mal, passam.
O mal está em muitas destas mesmas vezes entender um mero estudo numa possível nova ideia ou conceito criado.
Na minha opinião, hoje é mesmo possivel idealizar tudo o que se deseje no campo virtual e mostrar ou fazer mostrar o que poderia ser ou vir a ser.
Mas hoje a arquitectura tem mesmo de passar assim em imagens e textos e textos e imagens.
Ha ja algum tempo que a arquitectura se deixa debater, e esse a meu ver é que é o verdadeiro problema, por analises e criticas de projecto através de imagem e não pela vivência “in loco” do observador.
Neste campo no debate da qualidade da arquitectura pela imagem tudo é possivel e é até possivel que muitas destas imagens e debates não tenham nada a ver com arquitectura.
Não é ao acaso que durante a universidade, e a meu ver bem, os casos de estudo eleitos sejam casos construidos, posi aí cada um de nós com maior exactidão poderá dizer o que se lhe oferece e a obra permanecerá lá até opnião em contrário.
Se formos a analizar o mundo onde vivemos, o arquitecto absorveu a realidade, sem no entanto a ter filtrado como deveria, forma de sobrevivência? nova evolução segundo darwin…lol…Vivemos da imagem, do momento, os 5 minutos de fama, mas nunca pensei que chegasse ao ponto que chegou na arquitectura.
Temos assim, fast food/ fast architecture, a nova colecção primavera/verão traduz-se na nova linguagem a seguir nos concursos de arquitectura, e os inumeros casos de anorexia, acabam na perda total de escala de propostas de ateliers teóricamente ” de marca”, em homenagem aos fãs das odisseias no espaço reproduz-se a estrela da morte pelo OMA, enfim…
Terá também a velocidade a que vivemos algo a dizer, afinal de contas os prazos são tão curtos que em desespero se copia projectos de uma cidade para outra, de um objecto para um edificio…
No final é engraçado pensar que enquanto isto se passa, se premeia um grande arquitecto, que vive longe de tudo isto, onde o tempo deve andar bem mais lentamente…como alguem dizia…quando todos gritam para ser ouvidos, quem fala mais baixo é quem se faz ouvir…