nowhere, 101

Tuesday 11th November 08
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Duas torres, duas pontes.

Ou, quando o devaneio atinge o ponto de rebuçado.

A arquitectura contemporânea deixou, há muito de ser lugar para exploração de conceito e conquista artística. Deu lugar ao impulso primário de marcar posição pela magnificência do render e a capacidade de resposta financeira do atelier àquilo que o computador lança em dados.

A proposta do gabinete de Steven Holl é a súmula de como o slogan de campanha de Barak Obama se pode transformar em bicho perigoso, sobretudo se em descuidada mão alheia.

- Yes, we can.

E podemos, hoje, propor ao mesmo tempo e para o mesmo lugar, duas torres e duas pontes, sem que precisemos verdadeiramente de nenhuma.

- Yes, we can.

E podemos porque a nova geração e as gerações que se sigam conseguiram automatizar processos de tal forma que um extensivo tratamento de fachada se pode tornar demasiado cansativo e uma implantação bem estruturada se pode tornar demasiado estática.

- Yes, we can.

E podemos, acima de tudo, porque do outro lado do mundo, alguém que contra nós concorre, pode também. A pior das conclusões.

Podemo-nos atrever porque o desafio nos permite, porque as ferramentas o permitem, e porque as circunstâncias o imperam. E podemos porque (aparentemente) hoje em dia um belo report e uma equipa de estrategas do render e poetas das memórias descritivas fazem o trabalho que era antes propriedade do arquitecto.

E podemos, a partir de agora, relativizar o lugar da cidade.

- Can we?

Para detalhe sobre a proposta, recomenda-se um salto ao Inhabitat.

2 Comments for “ nowhere, 101 ”

  1. TT says:

    Infelizmente podemos…e por mais estranho que pareça há arquitectos que competem no suporte à competição “inovadora”, desgarrada das pessoas e das cidades…a arquitectura abandona gradualmente o seu propósito inicial para aparecer numa revista ou numa página de internet…quiçá até no território real…vazio, sem ninguem, talvez apenas com alguns estudantes de um curso de “arquitectura”.

  2. João Sousa says:

    Ivo, é uma muito boa análise que aqui fazes e não podia estar mais de acordo. De facto é um assunto sobre o qual reflicto cada vez mais e não me canso de me questionar constantemente sobre o estatuto e a função da Arquitectura na sociedade actual. De facto hoje podemos fazer tudo o que quisermos, esse para mim é o maior problema. Já há muito tempo que se dizia que “a Arquitectura nasce dos constrangimentos”, das barreiras que nos são impostas por mais variados factores, localização, economia, cultura, etc. O facto é que hoje essas barreiras estão cada vez mais dissipadas, ao ponto de praticamente não existirem. E o resultado é isso mesmo, o Arquitecto (ou melhor a equipa!) vê-se numa posição em que pode propor uma qualquer intervenção ou um qualquer objecto que de uma maneira ou de outra irá encontrar uma justificação, uma analogia, um símbolo que credibilizará perante a sociedade a sua ideia (ou obra).

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