Viagem de sábado à tarde à Tate Modern, e surpresa absolutamente fantástica… à saída!
Com primeira passagem pelo Borough Market, o percurso de aproximação ao edifico foi feito pela rectaguarda (pelo lote onde em breve nascerá a versão londrina do Ratatuille de Mateus e Valsassina) e o ingresso feito pela magnifica nave que é imagem de marca para as instalações temporárias (onde por estes dias se encontra a H Box de Didier Fiuza Faustino). Esta inversão do processo, fugindo ao acesso pela Millenium Bridge, quebrou a hipótese de avistar a exposição que se encontra, literalmente, cravada na fachada principal do edifício.
Ponto prévio, para lá de todo o envolvimento que tenho com a arquitectura, vivi a minha adolescência no surgimento da cultura Hip-Hop em Portugal. Em 1997, quando a cultura era praticamente desconhecida pelos demais, andava eu a ouvir mixtapes do que de mais refundido se produzia nos estates e o que o Carlão escrevia com o Jay e o Virgul, nos áureos primórdios de DaWeasel.
Daí ao Graffiti, a distância foi demasiado curta, e o resto são retratos de cinco anos vividos entre a muito ténue linha que divide a arte do vandalismo.
Paradoxalmente, ganharam as paredes brancas…
De entre a vasta bagagem cultural que trago desse tempo, da dificuldade que existia entre encontrar material disponível com imagens e retratos daquilo que os mestres desse tempo produziam lá por fora (How & Nosm nos USA, Loomit por toda a América do Norte, Daim, Neck, Morritz e os demais CNS pela Alemanha) e o que, a custo, se encontrava pela internet a 56 kbps, ficou desde logo o fascínio pelo que produziam dois jovens brasileiros.
Os Gémeos, sempre foram, para mim, o expoente máximo do Graffiti a nível internacional. Pela capacidade artística e a beleza da mensagem que transmitiam e pelo duro retrato visual de um Brasil abandonado à sua sorte. As magnificas figuras amarelas, de traço tão belo quanto infantil, foram durante anos a razão pela qual acreditava (e ainda acredito) que a prática do graffiti pode surgir enquanto gigantesco potencial de composição da paisagem urbana.
Foi aqui em Londres que, à saída da Tate Modern, ao olhar para trás, para vislumbrar, mais uma vez, a magnifica peça que Jacques Herzog e Pierre deMeuron recuperaram com inigualável mestria, os encontrei. Do edifico, não ficou nada. Foi este gigantesco individuo amarelo a deixar-me aterrado:
Os Gémeos Otavio e Gustavo Pandolfo produziram esta grotesca (esta sim, verdadeiramente grotesca) figura na fachada da Tate Modern, onde também tiveram espaço para a sua arte BLU, Nunca (também brasileiro, e Sixeart, e ainda JR e Faile.
Curioso como num mundo onde a arte na parede é quase invariavelmente marginalizada (em regra geral, com razão, eu acredito que há espaço para a sua existência, mas o facto de ser impossível introduzir critérios de controlo e qualidade no que se faz, torna-me cada vez mais céptico), acaba por ser uma das mais distintas galerias de exposição a dar, literalmente, o corpo ao manifesto, numa iniciativa que surge como complemento à exposição de fotografia Street & Studio totalmente dedicada ao culto do movimento suburbano e aos retratos que este permite produzir sobre si mesmo.
Ainda mais curioso, o facto de planear um artigo sobre o trabalho de Otávio e Gustavo para os próximos dias, e, de repente, dar de caras com eles de forma totalmente inesperada.
O sítio web da instituição conta com uma secção totalmente dedicada à Street Art onde consta ainda um vídeo com o making of das peças, de visualização obrigatória.
Para mais informação relativamente ao trabalho d’Os Gémeos, sugiro a visita ao LostArt onde podem ver aquilo que são, na minha opinião, pedaços do que de melhor nos ofereceu a arte dos últimos 10 anos, e à qual, num misto de deslumbre e relutância vou dedicando sempre que posso, um pouco da minha atenção.














