José Saramago – Ensaio sobre a cegueira

Ensaio sobre a cegueira

Conto arrepiante de iluminação instantânea sobre as fraquezas mais escondidas da natureza humana, onde a partir de um evento insólito (um inexplicável surto de cegueira à escala mundial) se instala reflexão imediata sobre o lugar do homem entre os homens.
As personagens não têm nome, são-nos dadas a seguir através das alcunhas que o autor lhes dá, o que de forma quase macabra nos leva a substituir o termo ou o nome por um nosso qualquer conhecido, de parecença fácil.

Depois a outra reflexão, a politica e social, o que de pior em nós se encontra, os sucessivos regressos ao passado. Os centros para cegos e a marginalização em vez da procura da cura. Colagem fácil aos campos de concentração.
Livro pesado em escrita que se devora, uma pescadinha de rabo na boca em versão violenta. Imprescindível.

Juan Antonio Rivera – O que Sócrates diria a Woody Allen

O que Socrates DIria a Woody Allen

Obra curiosa e genuína, onde o autor nos confronta com assuntos mundanos pensados e consagrados nos estudos de filósofos como Kant e Sócrates e reproduzidos em filmes vários, desde Citizen Kane até Matrix.

Texto quase fundamental para quem gosta de cinema, abre-se uma porta sobre o imaginário pela mão da pesada carga do mundo cru que conhecemos e o resultado atira-nos contra questões fundamentais da nossa existência.

Livro de cabeceira.

Marguerite Yourcenar – Memórias de Adriano

Memórias de Adriano

Depois de meia dúzia de pedidos lá resolvi aceder ao “choradinho” para incluir aqui nas listas uma referência estrangeira.

“Memórias de Adriano” é uma obra de qualidade quase inatingível.
Assume a forma de uma carta escrita pelo imperador Adriano a Marco Aurélio, o jovem que lhe deverá suceder no trono de Roma.
A escrita oferece uma viagem pelos episódios que fizeram a vida de um homem impar, de imagem consagrada na história do império através da acção de estabilização das terras e dos direitos de mulheres e escravos.

É cénica a escrita, pesada e assumida, mas fácil e ao mesmo tempo generosa. Tem traços de psicologia e sociologias puras, fala de tudo o que há mais de mil anos fazia sentido, e que de aqui a tantos mil, continuará a fazer.

José Eduardo Agualusa – Passageiros em Trânsito

Histórias desligadas contadas em conto com a serenidade de sempre, apesar do rótulo de autor, uma peça que nos transporta para um e outro lugar, para onde José Eduardo Agualusa nos entende levar. E no final pede-se mais.

Nota de publicação:

Um índio peruano atravessa lentamente, numa velha bicicleta, a imensa solidão do Sul de Angola. O que faz ali? Um diplomata angolano desaparece em Brasília como se nunca tivesse existido. Terá realmente existido? Na Ilha de Moçambique um estranho estrangeiro tenta esquecer quem foi para melhor ser esquecido. Conseguirá eludir o passado? São passageiros em trânsito (como todos nós), mas nenhum conhece realmente o seu destino. Vinte contos para viajar.

Rui Cardoso Martins – E se eu gostasse muito de morrer

Uma redonda surpresa escondida por trás de uma escrita belissima e eficaz, verdadeiro biscoito mental, o consumo que se sugere. Fica a nota de publicação:

“Na confusão do mundo, um rapaz sobe a rua. O Interior é igual em toda a parte. Mas hoje vai mudar. Ele traz um segredo terrível no bolso do kispo. Faz calor na província dos suicidas. Dá vontade de rir: uma cidade em que até o coveiro se mata… São estatísticas, tudo em números. Na Internet, há sexo e doidos japoneses e americanos para conversar em directo. No campo, granadas e ervas venenosas. No prédio, um jovem assassino toca órgão. O space-shuttle leva cortiça do Alentejo para o Espaço. O Bispo viu o maior massacre da guerra de África e calou-se. Mas hoje vai responder. Os factos verdadeiros são os piores. O amor do rapaz rebentou. Que responsabilidades temos quando nada fizemos? Em que fado parámos, onde fica Portugal? “

Alberto Vázquez-Figueroa – O Rei Amado

Alberto Vázquez-Figueroa reúne descaradamente as naturais lacunas históricas que envolvem a figura de D. Sebastião para nos oferecer, em formato generoso uma visão entusiasmada sobre o louco rapaz que nos deitou em desgraça.

Verdadeiramente notável esta novela rápida que nos leva ao encontro do mais confuso episódio das nossas coroas (e o mais desastroso também).

Foi preciso o génio de um espanhol. Pena.

J. Rodrigues dos Santos – A fórmula de Deus

Não sou admirador desta nova vaga literária que procura fundamentação imaginativa sobre factos fácilmente sensíveis. A coisa sempre me pareceu falsa, quanto mais não seja porque rápidamente se transforma em fast-food devorável.

No entanto fica o beneficio da dúvida a José Rodrigues dos Santos, que conquista depois do empolgante Códex 632 e o facto de não ser um livro de temática religiosa.

É quanto muito teológico, o que já por sí é suficientemente perigoso.

A. Lobo Antunes – Ontem não te vi em Babilónia

 

Porque nestas coisas da escrita pesam sempre as palavras de autor, fica a nota de publicação sobre a nova obra de Lobo Antunes.

"Uma noite ninguém dorme, e durante a meia-noite a as cinco da manhã, as pessoas sonham acordadas no sono: contam e inventam as suas vidas e as suas histórias, ou as histórias em que transformam as suas vidas, ou as vidas que transformaram em histórias. Podem ser vidas cruéis, de medo, de uma cicatriz interior, de algo que talvez fosse o Estado português de outros tempos. Podem ser vidas de amores passados, de lápides varridas, de um desejo de uma vida inteira, de se poder ser feliz sem pensar. Nestas histórias, nestes silêncios destas falas, nos risos e nas traições, vamos identificando a noite de um país, a noite cheia de vozes de todos nós, e a noite silenciosa que é o isolamento de cada um. Como diz o autor – 'porque aquilo que escrevo poder ler-se no escuro'  "