
Dificilmente se faz arte sem rótulos.
Arrisco em dizer que uma arte difícil de catalogar não sobrevive assim por muito tempo. Órfã.
Para a catalogação contribui em muito a disposição e, ou, a postura do artista relativamente ao produto, e em última instância, a postura do mesmo no contexto do movimento em que se insere (ou, como muitas vezes acontece, no contexto em que os outros o inserem).
Sempre assim foi, a história de resto, encarrega-se de consagrar este princípio. De Van Gogh a Beuys, o reconhecimento do artista enquanto valor intelectual sobre um determinado assunto demora a acontecer, mais do que isso, demora a conhecer. Para isso contribuem os estereótipos boémios, vadios e duvidosos nos quais se vão encaixando as novidades enquanto isso mesmo: novidades. E no domínio da arte, a assimilação de uma nova vertente ou dimensão acontece geralmente décadas depois do seu início.
Relativamente aos movimentos rap e hip-hop, e no que a Portugal diz respeito, da postura popular quase vândala em relação ao género no início dos anos 90 foi um verdadeiro salto até à simpatia da juventude pelo estilo, e como estilo considere-se música, roupa e postura (graffiti e dança incluídos). A arte suburbana tornou-se mainstream junto dos jovens e consensual entre os graúdos, em toda a largura de banda das nossas classes sociais.
Sam The Kid é um dos veículos de divulgação de género, é genuíno pela origem suburbana da sua música e é verdadeiro na postura. Reside no entanto a desconfiança, e o olhar de esguelha relativamente à justiça na aplicação do termo “arte”.
Ao terceiro álbum a resposta, pura, aos ainda relutantes. Para lá da polémica do single “Poetas de Karaoke” (um dos menos felizes) existe uma peça musical que é notável.
Não é só música, é poesia. E é poesia, tudo o resto é preconceito.
Para ouvir: Slides (retratos da cidade branca), brilhante…
[audio:praticamente_slides.mp3]